Pesquisar

Páginas

domingo, 3 de novembro de 2013

☑ CÓPIA CERTIFICADA, de Abbas Kiarostami

Cinema autêntico

"Copie conforme" - Título original em francês.
"Cópia certificada"  Título em Portugal.
Origem: França, Itália, Bélgica & Irão. Linguagem: Francês, Inglês e Italiano. Ano: 2010.
Realização: Abbas Kiarostami.
Argumento: Abbas Kiarostami, Caroline Eliacheff e Massoumeh Lahidji.
Com: Juliette Binoche, William Shimell e Jean-Claude Carrière.
Cinematografia: Luca Bigazzi.
Género: Drama. 106 minutos. Cor.
Sinopse
Na Toscana, nos dias de hoje, James Miller um escritor britânico de meia idade, faz a apresentação do seu livro sobre o valor da cópia de uma obra de arte. Na sequência do evento, o escritor encontra-se com uma mulher francesa, dona de uma galeria de arte, que o convida a deslocar-se à vila de Lucignano. Nesse itinerário, a conversa sobre arte torna-se cada vez mais pessoal e a natureza da sua relação vai-se tornando  cada vez mais ambígua e  mais complexa do que à primeira vista parecia... 


"Esqueça o original, obtenha uma boa cópia"

" As cópias são importantes porque reconduzem ao original e desta forma certificam o seu valor. E acredito que esta abordagem não se dê apenas na arte. Um leitor disse-me que encarou-a como um convite à auto-análise e à melhor compreensão de si mesmo."

"Original, é uma palavra que  está associada  a autenticidade mas etimologicamente também a nascimento e é interessante comparar a reprodução na arte e na vida humana. Afinal podemos dizer que somos umas cópias do DNA dos nossos antepassados."

(James Miller, personagem do filme.) 



"Cópia certificada" é a segunda experiência do aclamado realizador iraniano Abbas Kiarostami, fora do Irão, ele que antes já tinha realizado um documentário ("ABC África"), em 2001, a convite da ONU.
A estrutura deste filme, é perfeitamente enquadrável e reconhecível dentro  do universo artístico de Kiarostami e centra-se numa conversa entre duas personagens, dois "estranhos" que se encontram um dia, e que se dispõem ao conhecimento mútuo, viajando e conversando sobre os temas  do original e da cópia, do falso e do autêntico, da aparência e da essência, na arte e na vida. A primeira constatação sobre a estrutura do argumento, com o fulcro em torno de uma relação, que parte do "desconhecimento" e que se vai materializando e desvendando com base nos diálogos e na  interação com um cenário cheio de ressonâncias simbólicas, é de que Kiarostami é fiel a si próprio e nesta asserção, este filme como "cópia", redireciona para o Kiarostami original. Mas inevitavelmente, não só por causa do argumento mas devido à "mise-en-scène", remete também, para "antepassados" artísticos, como Rossellini em "Viagem em Itália" (1954), Linklater em "Antes do amanhecer" (1995) e de certa forma, Orson Welles em "F de fraude" (1973) e outros mais se quiséssemos ser exaustivos e aprofundássemos a genealogia da coisa. Mas para sermos justos, embora estes filmes compartilhem  reminiscências visuais e algumas coincidências temáticas, a abordagem de Kiarostami, acaba por revelar-se menos linear do que à partida se supunha,  fazendo jus às palavras do escritor do filme, quando este, a certa altura, diz que "ser simples, não tem nada de simples". Aliás, em virtude dessa demanda incessante pelas  questões e pela teorização, aqui e ali, com contornos um pouco retóricos,  o filme acaba por se revelar algo desequilibrado no binómio intelecto-emoções, porque algo insosso no condimento emotivo, mas nunca se reduzindo à mera charada mental, em todo o caso, arrefecendo um pouco no deleite que um filme de Kiarostami proporciona.
Kiarostami proporciona-nos grandes momentos de cinema aquando da transformação que se opera a certa altura da narrativa, quando os dois protagonistas passam a ser "vistos" como um "casal" e daí para a frente se comportam como tal. Não é o banal "twist" tão caro a Hollywood, revelando uma realidade oculta, mas sim o corolário da tese que percorre todo este filme, ou seja o modo como se vê uma coisa, modifica o seu valor de verdade e a aparência pode passar por essência e a cópia por original, ou vice-versa, sem que  a autenticidade seja sacrificada. Depende da forma como se olha,  o olhar  tudo transforma. Assim  na arte como na vida.

"A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida."
(Oscar Wilde)


domingo, 27 de outubro de 2013

☑ Revisitando a PORNOPOPÉIA de Reinaldo Moraes

Zeca e o cinema
FICHA
Título: Pornopopéia
Autor: Reinaldo Moraes
Editora: Quetzal Editores
Data de lançamento: Junho de 2001
Nº de páginas: 264

FNAC
SINOPSE
"O protagonista de Pornopopéia, é um produto do nosso tempo - um individualista atroz na busca incessante do prazer imediato.
Antigo cineasta marginal (com uma única longa-metragem no currículo), Zeca, que não tem dinheiro e vive na base do improviso, precisa de fazer um spot publicitário sobre miúdos de frango. E não sabe por onde há-de começar. Por isso dá largas à sua voracidade (mais uma linha, mais um uísque, mais um engate) e entra numa espiral de sexo, álcool e drogas de proporções épicas." (FNAC)


Um livro muito especial, já revisto neste blog, pelo nosso oráculo de serviço (link) que lhe augurou um lugar de relevo no nosso córtex temporal e límbico e na história da literatura.
Não vamos aqui fazer qualquer recensão, para além do "muito especial", que lhe dedicamos.
Quem desejar análises literárias e até filosóficas, terá matéria de sobra com que se entreter.
Eu recomendo, na ocidental praia lusitana, a magnífica entrevista de Alexandra Lucas Coelho a Reinaldo Moraes ("Reinaldo Moraes: tesão ou morte"), no seu blog do "Público"  (link) e a recensão de João Bonifácio ( "Sobredose de Testosterona"), no mesmo jornal.(link)
No lado de lá do Atlântico, eu sugiro em primeiro lugar a crítica de Nelson Motta, no Globo blog ("O fino da grossura") (link) e depois a recensão da Folha de S. Paulo, por Alcir Pécora ("Moraes "viaja" em romance sexo, drogas e literatura") (link) e a do Canto Dos Livros, por Rodrigo Casarin ("Pornopopéia - sexo, drogas e um personagem épico") (link).
Interessante, é também avaliar outras vertentes não estritamente literárias que o livro de Moraes suscita. A este respeito, acho que merece uma leitura, a análise da moral de Zeca, na pena de Leo Furtado no Ditirambo ("Pornopopéia e a Moral da Vontade") (link).
No meu caso, interessa-me aqui divagar sobre um tema que eu e o Zeca apreciamos sobremaneira: o cinema.
Vamos então discorrer sobre o cinema em Pornopopéia, mais exatamente "Zeca e o Cinema".

Para começar, Zeca é um cineasta com um currículo reconhecido, do qual faz parte um prémio no Festival de cinema de Cartagena, pelo seu filme "Holisticofrenia". Este filme valeu-lhe um prémio e o rótulo de cineasta "maldito" ou "marginal", que vai carregar como uma cruz para o resto da vida.

"Fazemos até filmes malditos, e aí está o meu Holisticofrenia, um clássico na cinematografia marginal, pra atestar isso."

"E quando saíram, caso único do Holisticofrenia, foi só pra me valer o carimbo de “cineasta maldito”, tão vantajoso no mercado de audiovisual quanto um furo na testa. Nem mesmo o prêmio no festival de Cartagena ajudou a levanter minha bola. Sou, sempre fui totalmente por fora das panelinhas de cinema. Cheguei a viajar um pouco pelo Brasil a convite de cineclubes e grêmios universitários pra exibir o Holi, comi umas doidinhas em hotéis 3 estrelas de lugares como Passo Fundo, Bauru e João Pessoa, conheci uma pá de psicopatas com abiloladas tendências artísticas, e mais nada."

Esse epíteto  pode até impressionar, mas não gera a necessária grana e por isso para sobreviver, Zeca teve que fazer cinema porno e por fim, spots publicitários.

"O pessoal de cinema tem que rebolar pra viver".

"Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é cinema, não é epopeia, não é arte. É — repita comigo — vídeo institucional. Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz, e não enche o saco. Porra, tu roda até pornô de quinta pro Silas, aquele escroto do caralho, vai ter agora “bloqueio criativo” por causa dum institucionalzinho de merda? Faça-me o favor."

"Você devia ter chamado um bosta dum roteirista qualquer pra te ajudar, desses que filam cigarro e cerveja de mesa em mesa na Merça e não perdem chance de puxar uma lousa e dar aula sobre Hal Hartley e a narrativa cinematográfica interior aos substratos descontínuos da consciência dos personagens pra alguma gostosinha basbaque de peitinhos soltos dentro de uma camiseta de pano fino."

"(Porra, tu é uma anta mesmo. Em vez de cavar um lugarzinho numa agência quando teve a chance, foi se meter com cinema, e marginal inda por cima. Acabou no pornô e nessa bosta mole de vídeo institucional, o gonococus aureus da porra do cavalo land rover do publicitário. Agora foda-se, mermão. Embutidos de frango. Se concentra aí e manda vê, falô?)"

Não é de estranhar que a Zeca tudo,  lhe sugira um pretexto para falar de cinema, para invocar filmes e realizadores. O cinema é omnipresente na vida de Zeca e só a ele se permite transformar o bando dos três, num quarteto para si perfeito: Sexo, drogas, Rock & Roll e Cinema.

"Que fome de cinema, cacete. Que fome de mulher também, agora e sempre."

"Nada de culpas corrosivas nem de castigos iminentes em cinemascope."

"Depois, fez um resumo fulminante de algumas proezas quimio-anárquicas do cara, como a noite de 1966 em que os Doors foram expulsos do Whisky a Go Go, em Los Angeles, porque o Morrison, doidão, se pôs a berrar no palco “Mother, I wanna fuck you!”, na letra do The End, “que, aliás, toca no filme Apocalypse Now, do Coppola, que, aliás, foi colega do Jim Morrison no curso de cinema da UCLA”, pontificava aliasmente o Ingo."

"Agora, ficar puxando saudade de mulher, amigos, lugares, não é comigo. Não guardo fotos de nada nem de ninguém. Por isso que o meu cinema só fala de coisas que não existem e, portanto, não deixarão saudades. Pega o Holisticofrenia, por exemplo. Só tem cenas e personagens sem referência a nenhuma realidade diferente da que somente elas e eles instauram na tela."

"Todas lhe oferecem fatias e nacos dos embutidos, que ele vai devorando nas mãos de cada uma delas com grande gula e prazer, compondo uma brilhante metáfora erótico-antropofágica até o freeze final da imagem."

"O magro cabeludo tinha na cara uns óculos escuros de playboy anos 50 que lhe davam uma tremenda pinta de gangster de cinema independente do leste europeu, ou merda assim."  

"Silencioso e furtivo como Arséne Lupin (o do cinema, interpretado na tela por Lionel Barrymore), de modo a não acordar minha hospedeira, catei a calça jeans e a camisa de listras azuis, dobradas, lavadas, passadas e acondicionadas numa sacola de loja."

"No final, plena manhã, a puta lambia a beirada suja de pó do meu cartão de crédito, enquanto me ouvia explicar todo o potencial anarconiilista da poética patética da minha cinematografia apatifada pós-sganzerliana com sua narrativa brechtianoholisticofrênica e seus personagens transapocalípticos, e o grandíssimo caralho cocainado a quatro."


"Porra, já pensou, véio? Eu ia virar o novo bandido da luz vermelha do cinema brésilien, herói dos cineclubes, campeão de acessos no Youtube, e o cacete."


Uma vez que Zeca é o narrador, ele vê o mundo como um cineasta cínico com uma câmara na mão, enquanto mantém a outra, livre para cafungar, bronhar ou estimular a líbido de alguma parceira. Zeca como narrador, tem que usar as palavras e embora ele tenha lido muito boa literatura, está constantemente a incorrer no vício de ver e descrever a sua realidade com os olhos de um cinéfilo.

"Uma das vantagens do cinema sobre a literatura é essa, a de desobrigar o autor de nomear as flores nos cenários. Por mim podiam ser armênias silvestres, jambronas do campo, rabos-de-babuíno-da-Tanzânia, lambrequinhas-da-serra e o cuflorido-a-quarto."

"(Na literatura)…Qualquer extensão de tempo, aliás, cabe num punhado de palavras. No cinema é mais complicado. Você seria obrigado a criar alguma metáfora visual forte pra denotar o significado de uma palavra densa como eternidade. Um anjo de cemitério contra um céu estrelado, por exemplo. Se funcionar, a imagem ganha da palavra."

"Eu me sentia naquela câmara secreta do solar dos Usher — na versão pro cinema mudo, de 1928, do Jean Epstein, assessorado pelo Buñuel —, prestes a transpor os portais de inconcebíveis dimensões transumanas. Os contornos dos corpos apenas se divisavam na obscuridade. Difícil dizer quem ali tinha se entregado de alma e pálpebras à iluminadora cegueira, e quem, como eu, filava solerte os arredores através da gelosia dos cílios, flagrando os formatos, volumes e as cores do famigerado mundo visível, tão enganador quão desprezível, segundo a Wyrna, mas ao qual eu tinha me afeiçoado tanto ao longo desta encarnação, a única que me lembro de ter vivido até agora. A mestra, como meu olhar sorrateiro registrava, mantinha bem abertos aqueles olhos negros dela, bundinha sempre assentada sobre o divino calcanhar."

"A falta que faz uma câmera pra mostrar essas manobras. Um story board já quebrava um galho. Descrever com palavras é foda, mesmo que sejam só rubricas num roteiro, nada que aspire à imortalidade literária."

"Sigo o conselho do Amo: não quero virar escritor. Mais do que talento, me faltam saco e coluna vertebral pro ofício. Meu negócio é cinema, a exemplo do Robert Bresson, que, por sinal, filmou em 1945 um trecho do Jacques no “Les Dames du Bois de Bologne”, filme delicioso. Cinema e buceta. Mais buceta que cinema. Fomos feitos um pro outro, eu e o cinema, digo, eu e as bucetas, digo, o cinema e as bucetas, redigo. E lá vai mais um poemelho pra sua coleção:
movies
1.
O olho mora
dentro
do momento
2.
O verbo é lento
perde o tempo
do movimento"

"Aliás, você já reparou — e se não tinha reparado, repare agora — que esse meu sestro haicaico vem do fato de que o haicai é um fotograma de filme, um instantâneo visual, o mais perto que a linguagem verbal consegue se aproximar do cinema. 
Portanto, tente conservar meus haicaizinhos no seu texto final, pelamordedeus."

"Dei uma zapeada. Filmes, propaganda, programas de auditório, de culinária, reprise de novela. Na TVE um crítico literário míope feito uma toupeira explicava pro entrevistador que “a literatura é uma velha arte que tá de saída”. Escritores e leitores vão virar um clubinho dos 500, sendo que, no final, tudo se resumirá a uns tantos escritores e poetas batalhando para serem lidos por outros escritores e poetas. O mesmo vai acabar acontecendo com o cinema não hollywoodiano, dizia o crítico. Que se fodam, escritores, poetas, críticos e cineastas não hollywoodianos, decretei eu, dando um zap no controle."  

E o que acha Zeca das adaptações de obras literárias ao cinema ?


"Não faz sentido escrever um filme. O cinema tem que nascer das imagens. Por isso torço o nariz pra adaptações de livros, se o adaptador não se chamar Hitchcock. Aliás, o Hitch só se valia de noveletas populares de segunda ou mesmo de quinta categoria, de onde tirava somente o plot básico e os personagens principais. No “Psicose”, por exemplo, ele mandou o studio comprar todas as cópias do livro do tal de Robert Bloch, autor da história, para que ninguém soubesse o final. Acho meio ridículo isso. Se o cara não tem a manha de criar uma história original evocada por imagens, vai caçá sapo, malandro. Cinema é “Zéro de Conduite”, “Cidadão Kane”, “Acossado”, “Todas as Mulheres do Mundo”, “Terra em Transe” — histórias que só existem dentro dos filmes que o Vigo, o Welles, o Godard, o Domingos de Oliveira e o Glauber rodaram com roteiros originais saídos da cabeça e dos olhos deles. Quer saber o que eu acho? Adaptação — leia-se avacalhação — de obras literárias é pirataria oportunista de subcineasta com palavrório na cabeça e uma câmera na mão. E fodam-se as centenas de filmes brilhantes extraídas de textos literários que alguém poderia me jogar na cara — Hitchcock incluso. Aquela manipulação nos peitos da Sossô, por exemplo, mão branca minha, mão preta do Melquíades, aquilo é que é cinema. E ponto final."

E atenção que já se fala de uma adaptação de "Pornopopéia" ao cinema ! Vai ser foda ! Essa tarefa, prevista para a segunda metade de 2013, tomou-a a cargo Arthur Fontes, um nome já com algum currículo no cinema brasileiro, sobretudo na área das curtas e do documentário, sendo autor, por exemplo, de  "Trancado (por dentro)", de 1988, primeiro filme brasileiro a ser selecionado para o Sundance, "Primeiro pecado", de 1998 (um dos três episódios do longa "Paixão", eleito o melhor filme do Festival de Huelva desse ano) e do documentário "Família Brás -Dois tempos" de 2000 e 2011, que realizou com a jornalista Dorrit Harazim, ao jeito do britânico "Up" sobre "a família brasileira média".
Como é que Fontes vai contornar ou sublimar a questão essencial, aqui colocada por Zeca ? Como é que Fontes vai fazer jorrar cinema da seguinte fonte narrativa ?

"Nem os maiores ejaculadores de cinema pornô que eu já vi em ação exibiram jamais tamanha exuberância espermática. Aquele filhadaputa devia ter uma terceira gônada escondida em algum lugar de sua vasta anatomia. Sossô, por sua vez, não largava o ejaculante troféu. Ela devia achar que o brinquedinho lhe pertencia agora por jus boqueteandi."

E muitas outras se poderiam citar...
Só nos resta esperar até ver o filme nas telas.

"Isso tudo vai ficar do grande caralho no meu filme. Porra, se não vai. As plateias dos cinemas de shopping sairão encantadas da sala, e não terão outro assunto durante o chope, a pizza ou o sushi pós-cinematográfico."

Até lá disfrutemos da boa literatura  que é Pornopopéia e da dávida do cinema que  vive dentro de si.





sábado, 26 de outubro de 2013

☑ MORANGO E CHOCOLATE, de Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío

Sabores e dissabores da revolução

"Fresa y chocolate" - Título original em castelhano.
"Morango e Chocolate" - Título em Portugal e no Brasil.
Origem: Cuba, México, Espanha e EUA. 
Ano: 1993. Linguagem: Castelhano.
Realização: Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío.
Argumento: Senel Paz (baseado no seu conto de 1990: "O lobo, a floresta e o homem novo") e Tomás Gutiérrez Alea.
Com: Jorge Perugorría, Vladimir Cruz, Mirta Ibarra, Francisco Gattorno e Marilyn Solaya.
Cinematografia: Mario Garcia Joya.
Música: José Maria Vitier.
Género: Comédia. Drama. Duração: 108 minutos. Cor.
Sinopse
Cuba, 1979. Diego um intelectual e artista homossexual, apaixona-se por um jovem heterossexual comunista, cheio de preconceitos e fortemente ortodoxo e doutrinado no aparelho comunista cubano. A princípio impõe-se a rejeição e a suspeita, mas pouco a pouco, fortalece-se um espírito de amizade que se sobrepõe a todos os rótulos e barreiras.
 
Tomás Gutiérrez Alea (1928-1996), foi o maior cineasta cubano e nessa área o rosto mais empenhado do regime de Fidel, tendo criado e dirigido o instituto que superintende o cinema cubano. O alinhamento com o regime, não o coibiu de algum criticismo sobre aspetos da revolução, como pode ser constatado no emblemático filme de 1960 "Memórias do subdesenvolvimento" e de forma mais subtil neste "Morango e chocolate".
Diego é o típico "maricon" com pretensões intelectuais e artísticas, que lê e cita Dostoevsky, enquanto toma chá francês: "Os personagens de Dostoevsky, sempre tomam chá." Ele tenta "engatar" David, o jovem marxista ortodoxo e heterossexual empedernido, ainda com estigmas de uma recente e traumática rejeição amorosa. E usa para tal todos os truques e seduções incluindo aqueles que tocam mais ao coração do jovem comunista, que apesar do seu empenhamento partidário revela uma ânsia incontida de conhecimento: o  imenso repertório cultural incluindo livros, discos de Maria Callas e obras de arte, vão seduzindo David mas não ao ponto pretendido por Diego. Mas rapidamente Diego percebe a impossibilidade da sua empreitada e sublima a sua paixão em amizade sincera, não faltando um inesperado suporte logístico para uma relação heterossexual do jovem comunista com uma vizinha, Nancy uma sensível e divertida comunista do aparelho, encarregue frequentemente de atividades de espionagem e controle, mas que no caso vertente foi toda canalizada para a região perineal do jovem.
O argumento desenvolve-se assim de forma divertida, expondo as contradições da sociedade cubana, às vezes de forma tão abertamente crítica que chega a surpreender, como no plano em que Diego à janela do seu apartamento, falando com David, reflete sobre o crescente empobrecimento e decadência da bela Havana. O suporte visual da narrativa é a um tempo só, sóbrio e impressivo, revelando as várias Havanas que coabitam numa fachada de monolitismo e que às claras, saboreiam misturam e partilham gostos tão diversificados como morango, chocolate, Marx, Fidel, Hemingway e Maria Callas.
Aqui  não há apenas  uma denúncia da intolerância e  da marginalização dos homossexuais dentro e fora do partido. Diego é como que um espelho da sociedade cubana, um exemplo  da diferença e da diversidade e das imensas potencialidade que encerra. Representa a resistência face à massificante doutrina oficial que tende a subalternizar o individuo à lógica do grupo. David, por sua vez, é o rosto "puro" de uma revolução, ainda por cumprir na plenitude.
 
 

☑ ESQUECIDO, de Joseph Kosinski

Esquecimento em curso
 
"Oblivion" - Título original em inglês.
"Esquecido" - Título em Portugal.
Origem: EUA. Ano: 2013.
Realização: Joseph Kosinski.
Argumento: Karl Gajdusek, Michael Arnd e Joseph Kosinski (Novela gráfica).
Com: Tom Cruise, Morgan Freeman, Olga Kurylenko e Andrea Riseborough.
Cinematografia: Claudio Miranda.
Género: Ação, sci-fi.
Sinopse
Num cenário pós-apocalíptico, resultado de uma guerra galáctica, a terra está devastada e em grande parte inabitável devido à radioactividade, encontrando-se o  remanescente da humanidade, presumivelmente numa lua de Júpiter, para onde é "sugada", por espectaculares meios tecnológicos a água do mar e outros recursos terrestres. Jack é um mecânico futurista, que com a sua colega Victoria, vivem numa estação espacial, que trata da logística desse procedimento de extração de recursos, cabendo-lhe a ele a específica função de controlar e reparar os drones, ou seja as máquinas voadoras armadas, que patrulham a terra e a livram de aparentes "Aliens" remanescentes, chamados sugestivamente "necrófagos", que vivem em catacumbas e que se opõem ao processo. Tanto Jack, como Victória e todos os humanos sobreviventes foram "desmemoriados", pela "Missão de controle", que governa tudo isto desde a "sede",  por supostas boas razões, para esquecer o pesadelo terrestre. Mas episódicas lembranças de uma mulher desconhecida persistem na cabeça de Jack, que além disso, com a missão a terminar, desenvolve uma estranha nostalgia pelas coisas da velha Terra e uma indecisão e mesmo renitência em a abandonar. Uma estranha descoberta - Uma mulher crio preservada numa nave encontrada despenhada na terra e a surpresa de verificar  que  a suposta organização de "Aliens terrestres", corresponde na realidade a um grupo de humanos, que alertam por sua vez Jack para outros aspectos técnicos da sua missão que ele desconhecia, levam-no a questionar-se sobre a natureza da sua missão e da veracidade de tudo o que  sabe.

 
Temos aqui um "Blockbuster", com caras conhecidas e deixando de lado os habituais preconceitos,  que enfermam do carácter pejorativo do rótulo e da oposição intelectualmente desonesta ao  cinema dito independente ou alternativo, discussão que tende a reduzir este tipo de filmes ditos "comerciais" a mero lixo, discutamos o que interessa: cinema e ideias. 
O argumento assenta muito no conceito de realidade e na função modeladora  que a memória nela exerce, num complexo jogo  de aparências e de essências, que trocam de papeis, num ponto culminante da narrativa, através do habitual "twist". Até aqui nada de novo. Aliás muitos outros filmes, têm idênticos desenvolvimentos, vindo-nos à memória:" Vanila Sky"/"Abre los ojos", "Desafio total", "O dia da independência" e  "O outro lado da lua", em que o expectador, identificado com um ou vários personagens, mergulha numa realidade sensível, que se vem a revelar alternativa ou ilusória.
Quanto à forma, que neste tipo de filmes é o que sobressai e que tenta relevar do conceito de espetacularidade, também não abunda a originalidade, evocando-nos a cada passo, outros universos visuais, que tornam penosa e entediante qualquer comparação, a começar pelo despautério de se lhe equiparar, seja sobre que pretexto for, o inspirado e mítico "2001- Odisseia no espaço" , que é como comparar  lata com ouro.
Os múltiplos clichés visuais que se sucedem numa lógica de submissão aos superiores interesses do entretenimento, passam ainda por cabotinas representações por parte de atores consagrados de Hollywood, que para além do mais, pela enésima vez, encarnam o herói americano salvador do mundo. Se o personagem de Tom Cruise ainda tem alguma complexidade psicológica, o de Morgan Freeman é meramente caricatural e unidimensional, infelizmente um traço da carreira deste dotado ator, cujo último trabalho decente talvez remonte ao longínquo "Tempo de glória" de 1989.
Então o que se safa neste filme ? Curiosamente para além de alguma nostalgia ecológica, que perpassa razoavelmente coerente em sugestivas imagens, ressalvo o impossivel triângulo amoroso, entre Jack, Victoria e Julia,  que lança uma inesperada ambivalência e profundidade emocional no enredo.
 

☑ O PASSADO, de Asghar Farhadi

O passado continua a ser uma terra estranha

"Le passé" - Título original em Francês.
"O passado" - Título em português.
Origem: França e Itália. Ano:  2013.
De: Asghar Farhadi (realização e argumento (com Massoumeh Lahidji)).
Com: Bérénice Bejo, Tahar Rahim, Ali Mosaffa, Pauline Burlet  e Sabrina Ouazani.
Fotografia: Mahmoud Kalari.
Género: Drama. 130 minutos. Cor.
Sinopse
Ahmad um Iraniano, volta a Paris 4 anos depois, após a sua separação da sua mulher, a Francesa Marie, com quem vai finalmente formalizar o divórcio. Após a sua chegada a sua ex, convida-o a ficar, durante esse processo, na casa que já fora de ambos e na qual habitam agora para além de duas filhas de Marie de uma anterior relação, um árabe de nome Samir com quem iniciara uma relação e o filho deste.
À medida que Ahmad se vai inteirando das transformações do tempo e se deparando com  surpresas atrás de surpresas, como a gravidez de Marie, é o passado de todos eles que acaba por dominar o  presente desta família.
 
Parti para este filme com expectativas bem altas. E isto porque me deram boas referências do trabalho anterior do Iraniano Asghar Farhadi, "Uma separação", de 2011 - que ainda não vi - a juntar a ter estado em competição em Cannes, onde Bérénice Bejo arrecadou o prémio da interpretação feminina e ainda  pelas críticas globalmente positivas, que tem recebido. E  finalmente, porque ainda não tinha visto um filme iraniano que fosse medíocre.
O início até que se revelou bem prometedor. Um belo plano de um reencontro, com um vidro de permeio e a mímica no lugar de palavras. Bem sugestivo e bonito. Depois a chuva diluviana que apareceu de repente, como que quebrando o encanto e apressando a narrativa para realidades  mais mundanas. E quando os dois já estão no carro e Marie inicia a marcha, é significativamente com uma marcha-atrás. E porque pressentiu a possibilidade de um choque nessa manobra, Ahmad gritou "cuidado !" e ambos olharam para trás pelo espelho. É preciso cuidado com o que está lá atrás, o passado é para levar a sério.
O que se segue até que é complexo e Farahdi é no início, subtil e cuidadoso a abordar as   ambiguidades e os equívocos, que as personagens vão semeando com as suas palavras e atitudes e a tensão que delas emana, demonstrando-se antes de mais que o passado é uma questão em aberto e que domina completamente a rotina desta família.
O problema aparece quando Farhadi resolve esgaravatar em vários terrenos, abrindo várias frentes de periclitante solidez, para um argumento que já por si mesmo era suficientemente complexo. O que resulta é um emaranhado  de linhas narrativas desconexas, a roçar o patético, metendo até a contribuição  estapafúrdia de uma trabalhadora ilegal, que subitamente adquire uma importância desmesurada no enredo, situação que é tratada com uma impressionante superficialidade e falta de senso social. Para já não falar do absurdo final, que bate em termos de pirosice todos os "the ends" melodramáticos de Hollywood juntos ! As pessoas têm depressões e por vezes tentam suicidar-se e quase sempre conseguem-no. Foi dito no filme. Farhadi escusava de tentar descobrir a pólvora neste caso concreto do seu filme.
Que Farhadi exibe um certo desconforto , porque é um Iraniano em terra ocidental, com a  cultura Iraniana  agarrada à sua câmara e com matizes ocidentais que não pode ignorar, sob pena de ninguém o levar a sério, é uma evidência. E tanto mais complexa é a situação, pois o filme trata muito desse encontro e coabitação dessas duas referências culturais, com pelo menos três personagens  árabes. E é preciso não esquecer que o argumento remete-nos essencialmente para questões amorosas. Sendo assim, onde está visível nas ações das personagens, o desejo, o ciúme e o rancor - já nem digo o sexo, que isso até se entende no contexto do filme - que são o sal do presente e do passado de qualquer relação amorosa ? Onde está um beijo ? Até um toque, que seja ? Onde está ? Estamos em França, no século XXI, presume-se, não no Irão...E a personagem principal feminina, do que sabemos dela, até gosta particularmente desses ingredientes...e há ali uma alusão de vingança em relação a Ahmad, que fica muito por explorar em termos emocionais e que seria, essa sim, uma interessante linha narrativa.
E este filme sendo tecnicamente bem feito, com uma cinematografia enxuta e visualmente atrativa, deixa muito a desejar em termos de consistência global das ideias que pretende veicular.
No fim sobra um evidente desconforto, porque este filme fica mal aos olhos ocidentais e dá uma imagem distorcida da grande riqueza do cinema Iraniano de Makkmalbaf, Panahi e Kiarostami, só para citar os mais célebres.
E nem por acaso, este filme com todos estes ingredientes, constituiu para Farhadi uma amarga lição e para nós  a evocação da  constatação que por outras razões, ficou famosa no livro do italiano Gianrico Carofiglio de 2004 e que foi adaptado em 2008, para o cinema pela sua compatriota  Daniele Vicari: "O passado é  uma terra estrangeira."

 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

☑ MATOU, de Fritz Lang

M de Marcante

"M" - Título original em alemão (e em inglês).
"Matou" - Título em Portugal.
"M - O vampiro de Dusseldorf" - Título no Brasil.
Origem: Alemanha (1931). Linguagem : Alemão.
Realização: Fritz Lang.
Argumento: Egon Jacobson (artigo), Thea von Harbou e Fritz Lang.
Com: Peter Lorre, Ellen Widmann, Otto Wernicke, Theodor Loos e Gustaf Grundgens.
Fotografia: Fritz Arno Wagner.
Género: Thriller psicológico. Drama. 99 minutos. Preto e branco.
Sinopse:
Um assassino de crianças espalha o terror em Dusseldorf. A "caçada" levada a cabo pela polícia é de tal magnitude que os ladrões sentem-se limitados nas suas actividades, e dada a ineficácia da polícia decidem tomar eles o encargo de capturar o criminoso.
Parece incrível, mas M é um filme de 1931. É importante frisar isto porque há coisas que estão aqui a nascer ou no período neonatal. Eram os anos de maturidade do expressionismo alemão e a vanguarda também se fazia notar em força na sétima arte. Mas o "ovo da serpente", já tinha eclodido e as suásticas começavam a projectar as suas tenebrosas e ameaçadoras sombras. Fritz Lang (1890-1976), não era já na altura, um cineasta qualquer, com a magnificência de Metropolis (1927) a servir de principal cartão de visita. Foi assim natural que Joseph Goebbels, lhe propusesse a superintendência do cinema alemão, que o realizador rejeitou não tão perentoriamente como se imagina, porque as más línguas aventam que ele teria aceite não fora o medo de se ver descoberto o seu sangue judeu, por parte da mãe. De qualquer das formas, Lang foi para Hollywood, onde consolidou a sua carreira com muitos títulos importantes de que se destacam  a título de exemplo, "Rancho Notorious" (1952), "Corrupção" (1953) e "Cidade nas trevas" (1956). Na América, não granjeou grande simpatia, ficando com a fama de ser sádico com os atores e atrizes. Lang não apreciava especialmente as típicas "fake scenes" de Hollywood, tendo ficado célebre o episódio de "Western Union" (1941) em que Randolph Scott, se debate verdadeiramente  aflito, preso nos pulsos por uma corda verdadeira e rodeado de chamas, verdadeiras é claro... Regressou por breves períodos à Europa, mas manteve sempre a base na Califórnia, onde morreu em 1976, com 85 anos. A última participação no ecran, foi como ator (!) fazendo de si próprio no memorável "Desprezo" (1963) de Jean-Luc Godard, já revisto neste blog(aqui).
Voltando ao filme M,  embora este não seja um dos  expoentes máximos do expressionismo alemão no cinema, a sua influência já se faz sentir,  começando a nível do argumento, onde se releva a componente emocional, através de uma temática inquietante, exibindo-se  a experiência individual do medo  e a sua expressão colectiva,  sob a forma de paranoia. Estas linhas do argumento reflectem-se numa cinematografia em que sobressai a típica deformação formal, com manipulação da luz e criação de sombras e abstrações simbólicas indutoras de sobressalto, temor e mesmo pânico. Na narrativa, são numerosos os planos em que é evidente esta estética emocional, citando-se logo no início a sombra do assassino projetada sobre os escaparates da imprensa em que  sobressaem as  manchetes dos assassínios. Determinados elementos simbólicos têm idênticas conotações, como se pôde constatar com o  balão  que a mãe de uma das crianças desaparecidas, não pode associar a esse evento ao contrário dos espectadores que o podem fazer. No trabalho dos atores, sobretudo no de Peter Lorre, é também visível o primado das emoções e tal expressividade chega a ser particularmente marcante na mímica de Lorre, onde os aspectos da anatomia facial, como os olhos esbugalhados espelham bem o seu sofrimento interior.
O argumento não fica isento de leituras políticas, numa altura em que o nazismo começava a instalar-se no coração da Alemanha. Forçando a nota, podemos considerar os nazis, mais perto do perfil dos ladrões, na medida em que  prevalecem em organização e eficácia sobre as forças detentoras da lei e da ordem. Não deixa de ser também curioso o pormenor da caça, que é uma espécie de premonição sobre a grande caça aos judeus que viria ocorrer anos mais tarde, também eles considerados pelo sistema "anormais" irredimíveis que tinham que ser obviamente eliminados, depois de "marcados", então com a estrela de David e não com M, como no filme, mas o espírito é estranhamente similar.
M é mesmo magistral e marcante.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

☑ TRILOGIA DO "ANTES DE...", de Richard Linklater

Antes que desça o pano...

"Before sunrise" - Título original em inglês.
"Antes do amanhecer" - Título em Português.
Origem: EUA (1995). Linguagem: Inglês.
De: Richard Linklater (realização e argumento).
Com: Ethan Hawke e Julie Delpy.
Fofografia: Lee Daniel.
Direção musical: Fred Frith.
Género: Drama. Romance. 105 minutos. Cor.
Sinopse:
O jovem turista americano Jesse e a estudante francesa Celine, encontram-se por acaso num comboio de Budapeste para Viena. Jesse convida Celine para passarem o dia juntos em Viena e ela aceita. O tempo vai passando antes do voo marcado para a manhã seguinte. E assim, se estabelece uma ligação especial entre dois estranhos, que sabem que essa será provavelmente  a única noite que passarão juntos.
"Before sunset" - Título original em inglês.
"Antes do anoitecer" - Título em Português.
Origem: EUA (2004). Linguagem: Inglês & francês.
De: Richard Linklater (realização e argumento (com Julie Delpy & Ethan Hawk)).
Com: Ethan Hawke e Julie Delpy.
Fofografia: Lee Daniel.
Género: Drama. Romance. 80 minutos. Cor.
Sinopse:
Afinal Jesse e Celine, voltam a encontra-se nove anos depois, não por acaso, pois ela procura-o numa livraria parisiense, onde ele, agora um escritor famoso, faz a apresentação do seu novo livro, curiosamente sobre o encontro de Viena. Muita coisa se passou, depois da emocionada despedida na estação de Viena, onde prometeram encontrar-se 6 meses depois, o que não aconteceu. Em vez disso, o que aconteceu foi o continuar da vida, com novas relações para ambos. Mas agora sentem-se de novo ligados e ambos desejam passar o dia juntos, em Paris, antes do voo do americano marcado para o fim da tarde. Juntos de novo, com muita coisa a dizer um ao outro, antes do anoitecer...
                                                                              

"Before midnight" - Título original em inglês.
"Antes da meia-noite" - Título em Português.
Origem: EUA (2013). Linguagem: Inglês, francês, grego.
De: Richard Linklater (realização e argumento (com Julie Delpy & Ethan Hawk)).
Com: Ethan Hawke e Julie Delpy.
Fofografia: Christos Voudouris.
Direção musical: Graham Reynolds.
Género: Drama. Romance. 109 minutos. Cor.
Sinopse:
Quase duas décadas depois do encontro de Jesse e Celine em Viena e nove anos depois do seu reencontro em Paris, descobrimo-los juntos, entradotes, mais gordos e com filhos, na Grécia. Afinal sempre ficaram juntos... E que descobrimos nós, num dia das suas vidas ? Que eles formam um casal normal, com direito a toda a rotina e os altos e baixos da praxe. Incluindo uma séria discussão, em que ambos põem seriamente em causa o seu casamento. Muita coisa pode mudar antes que aquele dia acabe. Tudo pode acabar ou recomeçar antes da meia-noite...
                                                           
Quando Richard Linklater escreveu e realizou "Before sunrise", em 1995, era suposto ser apenas mais um filme, narrado de uma forma que era particularmente do seu agrado, ou seja, utilizando predominantemente diálogos entre duas personagens, quase em real-time, técnica que viria a revisitar com o denso noir "Tape", de 2001.
E de facto, "Before sunrise", visto assim, livre da companhia dos seus sucessores, impõe-se como um fugaz e delicioso sopro  de uma juventude mentalmente inquieta e generosa nas emoções e no amor que experimenta. Nesta fase, o carácter espontâneo  dos diálogos, que fluem céleres e vivos das bocas das personagens, são uma expressão de vivências ainda naïves, tudo sendo vivido "sem problema", num processo acelerado de crescimento e amadurecimento, mas ainda bem longe do mundo de responsabilização que se exige aos adultos. E este clima de ingénua dádiva às ideias e à paixão, contagia quem já passou e sentiu o mesmo,  nesta fase tão especial da vida.
É por tudo isto, que "Antes de amanhecer", que mostra a doçura incomparável de quando se é jovem e a noite  ainda uma criança e se fala do futuro, porque o passado ainda não aconteceu, é um filme que se guarda no rol das nossas  gratificantes memórias. Em rigor, é um filme que vale por si mesmo, como um fogacho, de uma juventude em descoberta de si mesma e de um lugar no mundo, e que bom que seria se tudo isto ficasse sossegadamente em suspenso e em aberto e o futuro coubesse todinho naquela despedida...
Postas estas considerações, então o que justificaria uma "sequela"? Excluindo a pouco prosaica  mas nada inverossímil  mais-valia comercial, neste nosso mundo  contemporâneo que privilegia a produção em série, não é despiciendo no âmbito do audiovisual acrescentar o culto de um certo "voyeurismo" sociológico, uma espécie de equivalente ficcionado da série documental britânica "Up", de Michael Apted, que em  1964 começou a fazer entrevistas na altura a crianças de 7 anos e posteriormente, seguindo-as de 7 em 7 anos, indo já os "sobreviventes" nos 56 anos (no oitavo episódio - 56 Up- de 2012). Ora esta análise fará todo o sentido, no terreno do documentário sociológico, em que Apted se move, mas já é bastante discutível no âmbito de uma ficção com as características da obra dramática em discussão.
Nove anos depois, na sequela "Before sunset", de 2004, a Linklater, juntaram-se Delpy e Hawk, na escrita do argumento, como se ambos, quisessem partilhar alguma da sua experiência pessoal e profissional, porque ambos já se movimentavam então na escrita e na realização de filmes.Talvez isto explique alguma coisa sobre este segundo filme, rodado em Paris, a cidade por excelência dos reencontros românticos e "casa" de Julie Delpy.
Neste "Before sunset", são injectadas as primeiras doses de realismo cinéfilo. Afinal os jovens, tinham era garganta e a tesão de ocasião, não foi suficiente para se reencontrarem conforme o prometido, embora agora já como adultos vividos e carregados de sonsice já sejam peritos em encontrar justificações pertinentes. Claro que Jesse já tinha dado ares de ser um escritor em potência e agora enriquecido com a experiência de uma noite única em Viena, a coisa materializou-se num livro. O que mudou em Paris face a Viena? O que trouxeram estes nove anos de interregno ? Um passado comum. Ambos tinham agora um passado juntos e podiam falar dele, e quem sabe, servindo como uma mola para o futuro, mas o que interessava mais era aquele presente que era para ambos um presente dos céus. E céus, era como se a vida toda, tivesse que ser vivida num só dia ! Até ao  anoitecer...
Claro que em Paris, temos direito a vistas privilegiadas e muitos diálogos espirituosos, servidos com generosas doses de ironia e auto-convencimento, porque eles embora se saibam ouvir e argumentar, são duas primas donas de inchada personalidade narcísica. No intervalo das palavras, que muitas vezes se atropelam umas às outras, lá arranjam um tempinho para fazer amor, mas isso fica implícito, porque Linklater é  um realizador inteligente e arruma o assunto numa elipse bem forjada.
E depois? Agora já é lícito querer saber do futuro destes dois marmelos, que nós adotamos quase sem dar por isso. Pois bem, a noite está quase aí, mascarada de fotogénico "sunset", propenso a despedidas amorosas. "Talvez nos veremos de novo, quem sabe ?"...
(Longa elipse de nove anos).
Eis-nos chegados ao terceiro "Antes de...algum semáforo temporal qualquer ". E este já não é nenhuma surpresa, estávamos à espera de uma sequela manhosa daquele "rendez-vous" de 2004. Só não sabíamos onde. Grécia? Um pouco de amor e a força telúrica das palavras no berço do pensamento racional, porque não ?
Também não é surpresa nenhuma que estejam casados, senão a coisa ganharia inesperados contornos psiquiátricos. Apesar de tudo, a normalidade é um conceito estatístico e neste caso aritmético. É só juntar um mais uma. Porque eles puseram-se a jeito e estavam a pedi-las. E nós também.
Agora, em 2013, são ambos uns cotas gordos, com estilo de vida, burguês e alternativo, de que as férias na Grécia, na companhia de lúcidos intelectuais, são um perfeito espelho. E com filhos deles próprios e de outra relação anterior, no caso do filho de Jesse, para reforçar o clima  de contemporânea normalidade.
Eles continuam a falar muito entre eles. Não são os típicos fala-baratos, porque das suas bocas nunca se arrotam postas de pescada, apenas se exalam pérolas da sabedoria. Aliás, a ausência de modéstia, continua a ser um traço da personalidade deste casal, apesar de alguma honestidade  intelectual, parecendo que o cabotinismo, assentou definitivamente arraiais, naquele ambiente familiar.
Linklater, filma esta prosápia toda com contido distanciamento, porque entre marido e mulher, nunca metas a colher. Deixá-los lá falar e caminhar e falar e dizer de sua justiça. Enquanto se ouvirem e o caldo não entornar, a coisa vai andando, porque enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.
É um casal como muitos outros, agora a braços com responsabilidades e chatices domésticas, que os tesões de auroras e pôres-de-sol de antigamente, já não movem moinhos. Agora é que eles vêem o que é doce. Mas o que é doce nunca amargou, e eles lá vão  resolvendo os pequenos conflitos do dia a dia. Pelo menos até ao dia em que se passa o nosso filme, os outros para trás estão disponíveis como memória deles e resguardados da nossa curiosidade em inexoráveis elipses do celuloide.
Porque no dia do nosso filme, eis que uma grande tempestade  ameaça cair em cheio neste casamento. Quando eles se cansaram de falar e se dispuseram  a fazer amor, a coisa murchou subitamente - cuidado, desconfie-se sempre da lengalenga como afrodisíaca ! -  e a conversa degenerou de forma assaz maligna, falando-se  de fim do amor. "Acho que já não te amo". Com este negrume no horizonte, presume-se que antes da meia-noite, dê molho, porque do jeito que a coisa entortou, muito dificilmente, outra coisa dará...
Bem pelos vistos, antes da primeira badalada da meia-noite, não vamos saber mais novidades, se feitiços serão quebrados, se Jesse virará lobisomen ou Celine vampira.
Porque isso, é o que ficará por descobrir após a próxima elipse de nove anos.
Então até 2022 !