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segunda-feira, 8 de abril de 2013

JAN TROELL - UMA SAGA CONTEMPLATIVA

☑ OS EMIGRANTES
    The emigrants  (1971)


☑ A NOVA TERRA 
The new land aka The settlers  (1972)

Dois filmes do sueco Jan Troell, considerado um dos grandes realizadores suecos, ainda vivo (1931-    ).
Baseados nos livros do escritor sueco Vilhelm Moberg, uma saga em quatro partes, de um grupo de emigrantes suecos,  em busca do sonho americano, em pleno século XIX.
Uma narrativa linear, retratando primeiro, a vida dura dos agricultores na estratificada Suécia do Século XIX e na segunda parte, a colonização de uma região do Minnesota.
Um filme muito bem feito e com interpretações à altura da categoria de Liv Ulmann e de Max von Sydow. 
Um filme sem grandes mensagens ou filosofias, apenas mostrando a vida simples, de gente simples, com as suas dificuldades, sonhos, conquistas e reveses.
Um filme que se vê de uma forma contemplativa, em certo ponto, mais próximo da experiência televisiva. 
Um ponto importante é o seu respeito pela história, tanto no retrato da sociedade Sueca, como na abordagem que faz dos nativos americanos.

sábado, 6 de abril de 2013

THOMAS VINTERBERG: UM CINEMA QUE NÃO PERDE O NORTE




Thomas Vinterberg, nasceu em Copenhaga, em 19 de Maio de 1969.
Cresceu numa comunidade hippie, onde era habitual o nudismo.
O cinema foi uma escolha natural na sua vida, num país e numa região, com uma grande tradição cinematográfica, exemplificada nas grandes figuras do cinema escandinavo, como os  suecos Victor Sjostrom e Ingmar Bergman e o seu compatriota Carl Theodor Dreyer , as suas referências mais imediatas. Numa entrevista recente, Vinterberg confessa que revê sempre  Fanny e Alexandre de  Bergman, sempre que prepara um novo projecto.
Formou-se em cinema, pelo  National Film School of Denmark, tendo o  seu filme de graduação, Last Round (1993), merecido um aplauso unânime dos meios académicos e da crítica, facto que lhe serviu de decisiva rampa de lançamento no grande auditório global do cinema.
Em 1995, foi um dos "irmãos" mais entusiastas do Manifesto Dogma 95, que formou com o "patriarca" Lars Van Trier. Este conjunto de regras, visava valorizar a pureza do filme, expurgando-o dos artifícios técnicos estranhos à cena, como  a luz artificial e o som extrínseco incluia ainda outras bizarrias como a limitação do campo de ação e de certos usos das camaras, a proibição de filtros e a interdição da ação desnecessária ao enredo, como visualização de armas ou assassínios. E claro, numa demontração de suprema humildade, a roçar a  vaidade mais ostentatória, a proibição de figurar o nome do realizador nos créditos do filme !...
O seu  filme, A festa (1998), o primeiro segundo o novo cânone Dogma, foi um estrondoso sucesso, com montes de prémios, incluindo o prémio do júri do Festival de Cannes, na categoria de realizador. Sucesso da crítica mas também das audiências, atestado pelo seu 8.1 no IMDB.

 Realmente, uma lufada de ar fresco de puro cinema ! Um excelente argumento no qual colaborou activamente o próprio TV. Uma prestigiada família, reunida para celebrar os 60 anos do seu patriarca, vê-se confrontada, pouco a pouco, com o seu desmembramento apoteótico, ao serem reveladas as mentiras mais  perturbantes do seu passado e presente. TV, começa aqui a desenvolver um dos seus temas preferidos: a representação da vulnerabilidade individual face aos abusos do poder, neste caso de ordem afectiva e sexual. Sem dúvida o melhor filme Dogma. Mas TV, confessa hoje, que fez alguma batota, usando alguns artifícios "proibidos", tapando por exemplo a luz de uma janela. De qualquer forma o melhor do Dogma, está aqui, deixando a excelente narrativa valer-se por si própria.
Justo é também fazer uma referência ao grande exercício de representação, sobretudo de  Ulrich Thomsen.
(*****)

Perante os elogios generalizados, TV sentiu-se de certa forma, como um jogador de futebol, que tivesse marcado um golo genial, como ele descreveu recentemente numa entrevista ao Público (Ipsilon, 8 de Março de 2013). A fasquia estava realmente alta e TV, pronto a descer à terra e enfrentar a frieza e a decepção, com que foram recebidos os seus filmes seguintes. A um cineasta, tal como, de resto,  a um escritor,  que queira construir uma "obra" coerente, com várias temáticas e perspectivas distintas, mas unidas por fios condutores comuns, raramente lhe são perdoadas abordagens menos comprometidas e quiça mais superficiais de uma realidade em permanente mutação.
Após algumas experiências pouco reconhecidas na area da televisão, TV regressa ao grande ecran, com uma incursão americana, através do drama surrealista, passado num futuro caótico It´s all about Love ( O amor é tudo) (2003).
 
O argumento não é tão mau como o pintam, embora manifestamente estranho e pouco plausível. Mas isto não é cinema, onde é suposto, tudo ser possível ? 
Num futuro próximo, o mundo arrefece progressivamente. Não só o mundo exterior, mas também a humanidade enfrenta uma crescente frieza dos afectos. As pessoas começam a morrer súbitamente por falhas cardiacas inexplicáveis, mas na realidade não é o coração o símbolo dos afectos ? A solidão e a morte tornam-se sinónimos e ambas se ignoram. A identidade individual é usurpável e manipulável.
Um filme com alguns problemas na representação. Joaquin Phoenix, demonstra a falta de subtileza e de expressividade  que  é a sua  imagem de marca. Não é de estranhar, para quem não gosta da profissão que tem e dá galas desse facto.
TV, liberta-se aqui do espartilho DOGMA 95 e faz um filme mais ao gosto americano, com bela fotografia de New York.
Que não chega, no entanto para tirar o filme das baixas temperaturas, para onde ele insiste em apontar. 
(**)

A América é novamente revisitada no Dear Wendy (2005), mas com a ajuda do Americanófobo assumido, Lars Von Trier, que escreveu o argumento.



 E claro que LVT, tinha que se meter com os americanos e a sua história de relação íntima com as armas, através de um Western moderno, que partindo de premissas infantis, de um pacifismo com armas (um auto-retrato da América), desemboca num banho de sangue (um retrato da américa e da sua história, segundo LVT).
Descontando a paranóia inerente ao argumento, o filme suscita questões importantes e bem actuais, sobre o mundo em que vivemos e a sociedade americana, em particular.
E TV, lá fez o seu Western alternativo, com eficiência e estilo... 
(**) 

Submarino, de 2010, de novo na Escandinávia, é uma incursão no drama das dependências de drogas e na ruptura familiar que lhe está frequentemente associada.

Uma narrativa realista, uma direção sóbria e competente, interpretações razoáveis, mas um filme feito mais de fora para dentro, deixando a visão  "interior", do mundo   dos personagens, para segundo plano, numa abordagem algo panfletária e superficial.
(**) 

The hunt - A caça (2012), traz-nos de novo TV ao seu melhor cinema. 
 
 TV, conta que após A festa, alguém lhe sugeriu que abordasse o tema dos abusos sexuais nas crianças, sob um outro prisma. E se as crianças mentirem ? Será lícito pensar que as crianças nunca mentem ? Quais as implicações que tais mentiras têm na vida dos acusados, das suas famílias e comunidades ?
O filme é interessante porque aborda todas estas questões de forma inteligente. Um educador que é falsamente acusado por uma mentira de uma criança, torna-se definitiva e irreversivelmente, um proscrito de uma comunidade, que antes o venerava .
Como Mads Mikkelsen, o ator que faz de Lucas, o professor do filme, refere na entrevista ao Ipsilon de 8-3-2013, aquilo que os outros difundem como verdade sobre uma pessoa, torna-se na própria identidade dessa pessoa.
Neste filme, sente-se que não há hipótese de reversão dessa lógica terrível, como é de resto, bem explícito no fim, só aparentemente de reconciliação. Na realidade do filme e da vida, a caça, continua...
Ao argumento sólido, juntam-se  interpretações convincentes, sobretudo de Mads Mikkelsen que ganhou o prémio de melhor ator em Cannes, mas também é de aplaudir a criança, que dir-se-ia uma veterana(!) na arte da representação (?).
E TV, embala tudo isto, bem ao seu estilo, num exercício irrepreensível de bom cinema. 
(****) 
 


CINEMATOGRAFIA 
     
     Sneblind (1990)
     Last  round (curta) (1993) 
     Slaget Pa Tasken (TV) (1993)
     The Boy Who Walked Backwards (1995)
     The biggest heroes (1996)
 ☑ The celebration (A festa) (1998)
     The third lie (1998)
     D-dag - Niels-Henning (TV) (2000)
     D- dag (TV) (2000)
     The best of blur - No distance left to run (video)(2000)
     D-dag - Den faerdige film (TV) (2001)
 It's all about Love (2003)
 Dear Wendy (2005)
     When a man comes home (2007)
     Metallica: The day that never comes (curta) (2008)
 Submarino (2010)
 The hunt (2012)





sexta-feira, 29 de março de 2013

23 de Julho e 31 de Agosto: a chama de um só dia

"Fogo fátuo" de Louis Malle e "Oslo, 31 de Agosto", de Joachim Trier.
Paris, 23 de Julho.
Oslo, 31 de Agosto.
Dois lugares e duas datas diferentes, mas o mesmo dia e um único destino. 
Dois olhares cruzados, sobre a chama efémera de uma vida.

☑ FOGO FÁTUO, de Louis Malle

MALLE DE VIVRE




FICHA
Título em português: Fogo fátuo
Título original em francês: Le feu follet
Ano: 1963
Origem: França
Linguagem: Francês
Duração: 108 minutos
Género: Drama
"Mood": Tristeza, angústia, depressão, dependências, suicídio.
Música: Erik Satie 
Cinematografia: Ghislain Cloquet
Argumento: Louis Malle, baseado no romance de Pierre Drieu La Rochelle, "Le feu follet", de 1931. E também inspirado pelo livro de Scott Fitzgerald "Babylon revisited", de 1930-1931.
Realização: Louis Malle
Intérpretes: Maurice Ronet, Jeanne Moreau, Alexandra Stewart, René Dupuis, Léna Skerla. 

SINOPSE
Após um tratamento de alcoolismo numa clínica privada, Alain Leroy, tenta definir um sentido para a sua vida. Retoma o contacto com o círculo de velhos amigos, que o acolhem e tentam ajudar. Mas isso é suficiente, para Alain ?
  
TRECHO
 


CRÍTICA 
Este filme de 1963,  adota o mesmo título do romance do escritor francês Pierre  Drieu La Rochelle,  de 1931, que lhe serve de argumento. Na realidade, " Fogo fátuo" remete-nos para o âmago da existência humana e para as grandes questões que lhe estão associadas. 

No argumento não encontramos respostas, só perguntas.
Não há explicações científicas ou outras, para os problemas existenciais do protagonista. Apenas nos é  permitido, a nós espectadores, entrar ao de leve na mente de Alain, pelo filtro das lentes da câmara de Malle, captar-lhe a angústia nas expressões e nas palavras debitadas nos seus monólogos. E dessa forma, deparamos também com o abismo existencial que o separa das vidas "normalizadas" e aparentemente felizes dos seus velhos  amigos.
Embora o "texto" deste filme diga muito deste "mal de vivre", o essencial é-nos contado pela inteligência e subtileza de Malle, emergindo a essência do filme, no intervalo decisivo entre as palavras, numa inesquecivel visita guiada à alma humana, só possível pela primorosa cinematografia de Ghislain Cloquet e pela inesquecivel performance de  Maurice Ronet.

Um filme sobre estados de alma limite, que não é fácil recomendar, em tempos dominados por um pragmatismo emocional que só valoriza, "a boa onda", de resto exemplarmente retratada  na elite burguesa que rodeia Alain. Ao fim e ao cabo, esse é o nosso contraponto "normal", o caminho que nós escolhemos e que outros recusam.
Fazer da breve chama, um longo fogo... 

Nota: ****

☑ OSLO, 31 DE AGOSTO, de Joachim Trier

É POSSIVEL SER FELIZ AQUI ?



FICHA
Título em português: Oslo, 31 de Agosto
Título em Inglês: Oslo, 31. august
Ano: 2012
Origem: Noruega
Linguagem: Norueguês e Inglês
Duração: 95 minutos
Género: Drama
"Mood": Tristeza, angústia, depressão, dependências, suicídio.
Argumento: Joachim Trier, baseado no livro de Pierre Drieu La Rochelle, "Le feu follet", de 1931.
Cinematografia: Jakob Lhre.
Realização: Joachim Trier
Intérpretes; Anders Danielsen Lie, Hans Olav Brenner, Ingrid Olava.

SINOPSE
Um dia na vida de Anders, um jovem em tratamento de recuperação, da dependência de drogas. A pretexto de uma entrevista de emprego, ele deixa a clínica e viaja para Oslo, onde reencontra  velhos  amigos e se questiona sobre o sentido da sua vida.

TRAILER
 


CRÍTICA
O mesmo tema intemporal da procura falhada do sentido da vida, sob um prisma mais contemporâneo, do que o belo "Le feu follet", de Louis Malle.
Nesta segunda longa-metragem, do norueguês (nascido na Dinamarca) Joachin Trier, que anteriormente já tinha dado um ar da sua graça, com o refrescante "Reprise", de 2006, a cidade de Oslo, substitui a  Paris de Louis Malle e o uso  das drogas pesadas, junta-se ao álcool, num coctail, mais actual. 
 
No início, a cidade de Oslo, com as suas ruas bonitas mas semi-vazias, é-nos mostrada como a personagem inaugural do filme, nas vozes off dos habitantes, que a descrevem. Na Paris, do filme de Malle,  a solidão do protagonista, encontra o contraste marcante na cidade fervilhante de gente. Aqui, Oslo é uma cidade algo espectral e mais cúmplice da solidão de Anders.
No essencial, o argumento adaptado do livro de "La Rochelle" deixa emergir  o mesmo "mood" de solidão e angústia, as mesmas perguntas sem resposta e o idêntico confronto com a "normalidade" burguesa reinante. Interessantes são os diálogos de Anders com o amigo  Thomas, que o quer ajudar e que revela uma vida de aparente sucesso material e emocional, mas no fundo medíocre e despida de sentido, fazendo análises literárias "de livros que ninguém lê", nas palavras de Anders e jogando PlayStation com a mulher, para matar o tédio...
Significativa do contraste com a normalidade instituida, é a cena da esplanada em que nos deixamos guiar pelos sentidos apuradíssimos de Anders, nos meandros existenciais, feitos de sonhos ocos  dos ocupantes das mesas ao redor, sobretudo da rapariga que dizia querer  "plantar uma árvore, nadar com golfinhos, e escrever um livro".
Ao contrário do filme de Malle, Trier insiste mais na busca de uma certa causalidade, para a deriva existencial de Anders, expressa na  sua fixação nas relações falhadas, em especial nos constantes apelos à sua ex namorada, fazendo-nos quase acreditar que dali viria a sua cura.
A cinematografia deste filme, cumpre plenamente a missão de mostrar o património emocional de Anders, no confronto com os outros e com o cenário fantasmagórico envolvente. Mas não é tão rica de pormenores como a do filme a preto e branco de Louis Malle.
Brilhante interpretação de Anders Danielsen Lie, ele que nas palavras do realizador deste filme, "é um homem da renascença", sendo "apenas" actor, músico e escritor em part-time, já que é médico de profissão...
Oslo, 31 de Agosto.
Oslo, como cenário de  um "road movie" existencial. Um filme a não perder.
 
Nota:****
 

domingo, 24 de março de 2013

☑ A LISTA DE SCHINDLER, de Steven Spielberg

 
Na lista dos inesquecíveis
 


FICHA
Título: A Lista de Schindler ( original em inglês: "Schindler´s list")
Ano: 1993
Origem: EUA
Linguagem: Inglês
Duração: 195 minutos
Género: Drama, Biografia, História, Guerra
Argumento: Steven Zaillian, baseado no livro de Thomas Keneally "Schindler's Ark", de 1982(baseado por sua vez no relato de um judeu sobrevivente: Poldek Pfefferberg).
Realização: Steven Spielberg
Intérpretes: Liam Neeson, Ben Kingsley, Ralph Fiennes
 
SINOPSE
Oskar Schindler, um industrial alemão, não era própriamente uma boa pessoa, quando se moveu para Cracóvia, durante a II guerra, a fim de ganhar dinheiro com a mão de obra barata dos Judeus e com o contrabando. No entanto, o confronto com a barbaridade do Nazismo a que pertencia, despertou nele um surpreendente senso de humanidade, que o fez gastar todas as suas energias e dinheiro para salvar um grande número de Judeus.
 
TRAILER 
  


CRÍTICA
Filmes que abordam temáticas fortemente emotivas, como o holocausto nazi, ou o terrorismo, que embora sejam  obras de ficção, invariávelmente têm por base reconhecidos factos históricos  e que por outro lado, pela enorme violência física e emocional inerente aos  assuntos que abordam, concitam o consenso do mundo civilizado, são de análise objectiva muito problemática.
Este filme é um bom exemplo, desta dificuldade, e  decerto o seu "ranking" popular, não deixa de reflectir essa dualidade, não se sabendo ao certo onde começa o mérito cinematográfico e acaba o unanimismo sentimental que o impregna.
Certamente que não haverá uma pessoa normal, que não fique tocada, com a avalanche de injustiça, maldade e desprezo absoluto pela vida humana, que é a tónica dominante deste filme e por outro lado que não se identifique e anime com a justiça, a bondade e a defesa da vida, que é tomada em mãos por um só homem, no meio da barbárie dominante. Poder-se-á dizer que o filme é sobre essa luta, quase sempre desigual e solitária, onde o lema é "salvar uma vida é salvar o mundo inteiro".
De certa forma, o filme arriscava-se a ficar  refém desta  premissa maniqueista e redutora da luta entre o bem e o mal, não fora o desenho mais cuidado e realista das personagens, sobretudo  da de Schindler (Liam Neeson), que nos é apresentado no início como um homem vaidoso, ganancioso e mulherengo, traindo repetidamente a mulher e que não hesitou em servir-se do trabalho "escravo" dos judeus. Mesmo, a sua posterior "conversão" interior, não o transformou num anjo, uma vez que foi pactuando pragmática e friamente com o regime, pois só assim poderia levar avante o seu desígnio.
Amon Goeth (Ralph Fiennes), por outro lado, não é o estereótipo do oficial Nazi, fortemente ideologizado e  "que cumpre ordens". Na verdade, ele apresenta-se como o poder absoluto, que não depende de ordens, mas apenas da sua vontade e humores. A este respeito, curiosa é a sua conversa com Schindler sobre poder e perdão e como tentou sem êxito, usar o perdão como instrumento de poder.
Em suma, estas duas personagens, encarnam as duas faces do poder, uma a nivel material, a outra de âmbito espiritual.
Mérito de Spielberg, em intercalar   esta história de poder, entre as muitas histórias dramáticas de impotência deste filme.
 
A fotografia a preto e branco, procura provocar o necessário afastamento e enquadramento histórico. A introdução furtiva de cor nalgumas personagens e objectos, não são meras pinceladas artísticas, e pretendem  acentuar a unidade narrativa, por exemplo no caso da menina de vestido vermelho, que é vista por Schlinder    caminhando ao acaso entre a matança e mais tarde, é fácilmente identificada morta num monte de cadáveres, como se tivéssemos seguido uma personagem numa mini-narrativa à parte.
Por fim, um  sóbrio equilíbrio da luz e da sombra, confere autenticidade  ao  curso dramático do filme.
Grandes desempenhos de Ralph Fiennes e de Liam Neeson. E uma palavra de apreço por Spielberg, que filmando com o coração, teve neste filme um justo reconhecimento. 
Em suma, um filme que consegue sobreviver a si mesmo, na medida em que proporciona muito mais do que a catarse emocional que desencadeia.
E por tudo isso, é um filme nada fácil de esquecer.

Nota:****