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terça-feira, 22 de outubro de 2013

☑ O GANGUE DE HOLLYWOOD, de Sofia Coppola

Os donos do vazio


"The bling ring" - título original em inglês.
"O gangue de Hollywood" - Título  em Português.
Origem: EUA (2013). Linguagem : Inglês.
Realização: Sofia Coppola.
Argumento: Sofia Coppola & Nancy Jo Sales (baseado no artigo desta na Vanity Fair : "The suspect wore Louboutins" ).
Com: Katie Chang, Israel Broussard, Emma Watson, Claire Julien & Taissa Farmiga.
Cinematografia: Christopher Blauvelt & Harris Savides. Direção Musical: Daniel Lopatin & Brian Reitzell. Género: Biografia. Crime. Drama. 90 minutos. Cor.
Sinopse: Inspirado em factos reais. Um grupo de adolescentes, dos arredores de Los Angeles, obcecados com a fama, usam a internet para seguir celebridades, a fim de lhes roubar as suas mansões.


"Eu quero um dia  liderar um país". - Nicky, a filha.
" ...e assim é. Whooo..." -  frase com que Laurie, a mãe, finaliza as suas balelas espirituais, sobre "O segredo".

O argumento assenta num tripé manco: os adolescentes, os pais e os famosos. Neste filme, os adolescentes, não têm nada na cabeça a não ser a obsessão pela fama (e o proveito) dos famosos.
Os famosos, são escolhidos a dedo: todos são jovens, ricos, bonitos e com uma vida supostamente cheia e divertida.
Dos pais, apenas nos é permitido conhecer superficialmente uma das mães, a loira burra seguidora fiel do "segredo", os outros estão ausentes  da narrativa, uma conveniente metáfora do isolamento real a que são submetidos os filhos. Daí, este ser um tripé manco. 
Com estes pressupostos, a partir de uma história real, ocorrida entre 2008 e 2009 e relatada num artigo da Vanity Fair , por Nancy Jo Sales, co-argumentista deste filme, Sofia Coppola, construi uma narrativa consistente e carregada de sarcasmo em relação a um tema  bem contemporâneo, o fascínio e o seguidismo dos jovens em relação ao mundo dos famosos. E  esta cultura pós-pop da celebridade, deve muito a fenómenos relativamente emergentes como a Internet, as redes sociais, os smartphones e os "reality shows" da TV, por isso, na apresentação em Cannes, Sofia não podia ser mais clara, este filme não faria sentido há 10 anos atrás.
De forma perspicaz, a realizadora segue o modelo narrativo dos "reality-shows", sempre a partir de um ponto de vista exterior, com base nos corpos e nos seus gestos, ou seja nas aparências, sem perder tempo a explorar e a questionar a interioridade das personagens, olhar que apesar de algum afastamento, nunca revela frieza ou indiferença. Não faltam mesmo as poses, os close-ups e os "slow-motions", embalados com música pop, para o caso de estarmos distraídos e não saber onde estamos.
O mundo das celebridades e a sua relação com este "submundo" de aspirantes a famosos, realidades que se cruzam e perpetuam num feroz mutualismo e comensalismo mediáticos,  é também um alvo do olhar indiscreto e impiedoso de Sofia,  que  expõe a opulência e a frivolidade, deste modelo de vida.
Embora como efeito secundário, o filme  não resiste a um jogo provocador, insinuando-se como tentação e parecendo incitar um "olhar voyeur" sobre os objectos de desejo dos adolescentes - as casas, os carros, a decoração, a moda , as festas - espaços de beleza e sofisticação, que não são  habitados no filme, a não ser de passagem, pelos jovens, que se apropriam dos objectos como se fossem eles os donos.  Os donos do vazio. É como se os jovens nos fizessem uma visita guiada ao vazio, habitado temporariamente por eles.


domingo, 20 de outubro de 2013

☑ A PARTE DOS ANJOS, de Ken Loach

Oportunidade e redenção

"The Angels' Share" - Título original em inglês.
"A parte dos anjos" - Portugal & Brasil.
Origem: UK, França, Bélgica & Itália.
Realização: Ken Loach.
Com: Paul Brannigan, John Henshaw, Roger Allam, Siobhan Reilly, Gary Maitland & William Ruane.
Argumento: Paul Laverty.
Cinematografia: Robbie Ryan.
Direção musical: George Fenton. A banda sonora inclui o hit "I´m Gonna Be (500 Miles), by The Proclaimers.
Comédia. Drama. Crime. 101 minutos. Cor.
Prémio especial do Júri do Festival de Cannes - 2102.
Sinopse:
A história passa-se nos dias de hoje em Glasgow e segue o trajeto de cinco jovens  julgados por pequenos crimes, que são condenados a trabalho comunitário. Robbie, o mais carismático e esperto do grupo, com uma história de violência, drogas e álcool, sente o desejo de mudar agora que é pai, mas confirma diariamente como é difícil abandonar o mundo do crime, como o pai e os irmãos da namorada, lhe lembram constantemente, querendo vê-lo bem longe da sua família. Robbie estava longe de pensar que continuar a beber e a roubar e com uma pequena ajuda dos anjos, constituiria a oportunidade de redenção e do início de uma nova vida.
                                                     
Ken Loach continua um militante activo do Trotskismo e defensor da IV Internacional, contra todos os ventos e marés, mas o inconformismo e o realismo mais impertigados, que marcaram o cinema britânico, nestas quatro épocas de carreira do realizador, já não são o que eram. Claro que os temas da pobreza e da injustiça, da desigualdade social e da exploração capitalista, lá acabam por aparecer mas mais timidamente, revestidos com nuances de  desenraizamento e delinquência urbana. E para este dinossauro que não rejeita a etiqueta de  "realismo social britânico", com que se carimba os seus filmes, apesar das novas vestes de benevolência cinematográfica, o lema continua a ser "lutar, amar e sobreviver".
Este filme é interessante como mostra acurada  de uma corrente de violência, mas não se detém a analisar as suas causas e muito menos a adiantar soluções. É um Loach socialmente cínico, com costela homeopática, que sugere curar os males com o próprio veneno. Mas o optimismo final, expresso naquele happy-end moralista, acaba por ser forçado e uma nota dissonante no cinema interventivo do autor.
Pelo meio sobressai a ironia   de um argumento,  muito por mérito do whisky e da sua espiritualidade,  que tornam o filme agradável de se ver mas com um  cheiro e paladar que se reconhecem como de uma colheita mediana. 

sábado, 19 de outubro de 2013

☑ CREPÚSCULO DOS DEUSES, de Billy Wilder

It's a wild world, isn't it ?  It's wilder than life !

"Sunset Blvd." - título original em inglês.
"Sunset Boulevard" - Título alternativo em inglês.
"Crepúsculo dos Deuses" - Portugal & Brasil.
EUA (1950).
De: Billy Wilder (Realização e argumento (com Charles Brackett e D. M. Marshman Jr.)).
Com: William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson, Cecil B. DeMille, Hedda Hopper, Buster Keaton, Anna Q. Nilsson & H. B. Warner.
Fotografia: John F. Seitz.
Música: Franz Waxman.
Drama. Film-noir. 110 minutos. Preto e branco.
Sinopse
Joe Gillis, um argumentista de Hollywood, arruinado e sem trabalho, vê-se na contingência de fugir do fisco,  que lhe quer penhorar o seu carro e  acaba, por acaso, por encontrar refúgio na mansão de Norma Desmond, uma antiga estrela do cinema mudo, desde há muito votada ao ostracismo pela indústria cinematográfica. Ela vive isolada do mundo, na sua mansão de Sunset Blvd, apenas com o seu mordomo,  não aceitando  o seu declínio e  e delirando  por um regresso em glória aos filmes. A atriz, vê no escritor a oportunidade de reentrar no meio e convida-o para trabalhar no guião do filme que imaginava materializar esse desejo. Renitente a princípio, Joe acaba por aceder e torna-se uma espécie de gigolo da antiga diva, acabando a relação por agravar até ao limite a crescente loucura de Norma.
                                

"- You're Norma Desmond. You used to be in silent pictures. You used to be big.
- I am big. It´s the pictures that got small."

"- We didn´t need dialogue. We had faces !"

"- The stars are ageless, aren't they ?"

Bem-vindo aos anos de ouro de Hollywood ! 
Duas décadas antes, por alturas da transição do cinema mudo para o falado, Hitler tinha contribuído involuntariamente para enriquecer o cinema de Hollywood com uma fornada impressionante de artistas da sétima arte, escorraçados do velho continente, que traziam consigo um acervo de sabedoria e sofisticação técnica que a indústria abraçou agradecida. Entre eles destacava-se Billy Wilder (1906-2002), na altura apenas um argumentista,  que se destacava pelo carácter cínico, mordaz e misantropo dos seus trabalhos, facto que não era alheio às agruras da sua juventude, ele que perdera os seus pais, em Auschwitz. Os guiões  de Wilder eram famosos  pela caterva de pormenores, que ultrapassavam em muito o desenho dos diálogos e da "mise-en-scène", incluindo  imagine-se, as posições da câmara e o tipo de planos indicados ! E facto importante, roteiro de Wilder não admitia revisões ou improvisações, as falas eram para seguir, letra por letra, virgula por vírgula, do que estava escrito !
Estava-se mesmo a ver que Wilder não se aguentaria muito tempo apenas como argumentista e à primeira ocasião lá estava ele a convencer a Paramount, de que só ele poderia transformar os seus textos em verdadeiro cinema !
E assim com uma carreira que cresceu verdadeiramente a partir das bases, Billy Wilder venceu e convenceu em Hollywood, ganhando o respeito e admiração do meio e do  público, de certa forma, o "sistema"  ia aceitando  os traços "subversivos" do seu cinema, desculpabilizados pelo seu primor técnico e por uma história pessoal de vida, que era uma lição para a América . E assim chegamos a este filme de 1950, o nono de uma carreira  já com alguns sucessos, destacando-se  os filmes,  "Pagos a dobrar" (Double indemnity), de 1944 e "O farrapo humano" (The lost weekend), de 1945.
E esta introdução que se faz ao filme "Sunset Boulevard", ganha sentido quando se compreende, que só Wilder poderia fazer um filme que ousava discutir as próprias idiossincrasias de Hollywood, pondo a nú o modo como nela se constrói e destrói uma carreira, como se reciclam e desempoeiram guiões, como se guindam  aos pedestais da fama e como se descartam as estrelas  em declínio. Tudo coisas que Hollywood preferiria não ter que revelar em público numa salinha escura, com as ferramentas e o pessoal da casa...
Talvez por isso, este filme tenha perdido grande parte das suas nomeações no  23rd Academy  Awards de 1951 (referente a filmes de 1950),  nomeadamente para "Eva" (All about Eva) de Joseph  L. Mankiewicz, incluindo os de melhor filme e melhor realização e Gloria Swanson tenha visto a estatueta de melhor performance principal feminina, ir parar às mãos de Judy Holliday, em " Nascida ontem".
Também seria condescendência demais por parte de Hollywood, galardoar essa auto-crítica corrosiva ao  modelo do seu próprio "show business", que  "Sunset Boulevard", simbolizava na perfeição !
Este filme encarna na plenitude o que é um clássico, na medida em que transporta continuamente para o presente e futuro as luzes e as sombras do passado de Hollywood, essa enorme máquina registadora e espelho quantas vezes  deformador das grandezas e misérias humanas. 
O tema da fama e do seu carácter efémero é bem simbolizado na figura de Norma Desmond, uma antiga rainha do cinema mudo, votada ao ostracismo e que supostamente, com o avançar inexorável da idade,  não se adaptou aos paradigmas emergentes, dominados pelos novos donos da  nova tecnologia "sonora". E esse papel de diva em declínio e em negação demencial estava mesmo "feito" à medida de uma Gloria Swanson, também ela uma importante atriz do cinema mudo, posta na prateleira, durante muitos anos, até que chegou a este filme como 3ª ou 4ª escolha. E as coincidências felizes não ficam por aqui, porquanto  o seu mordomo,  que na prática mantem de pé a logística infernal da loucura de Norma, é representado de forma assaz realista por Erich von Stroheim, grande ator e realizador do cinema mudo, discípulo de D.W. Griffith e autor dessa obra prima absoluta chamada "Cobiça" (Greed), de 1924 e que curiosamente dirigira Gloria Swanson em "The Queen Kelly", de 1929, filme cujas imagens passam a certa altura em "Sunset blvd.", para mostrar ao recém chegado argumentista de Hollywood, o passado glorioso de Norma. Mais tarde, aquando da visualização  de mais um curioso evento do cinema-dentro-do-cinema, com a espantosa sequência da visita de Norma aos estúdios da Paramount para visitar Cecil B. DeMille, o mordomo acha curial revelar um pouco mais do seu e do passado de Norma, devendando tratar-se de facto de Max von Mayerling, o realizador do cinema mudo, que descobrira Norma aos 16 anos e seu primeiro marido ! Para além do comentário implícito sobre a ascenção e queda de mais um simbolo de Hollywood, expresso na eloquente frase "Nesse tempo, havia três grandes diretores: D.W. Griffith, Cecil B. DeMille e Max von Mayerling", este facto revela-nos até que ponto pode ir a lealdade de uma pessoa face a alguém que idolatra em absoluto e que atinge a máxima expressão no eloquente final.
Há quem fale no tema do oportunismo, para descrever o papel de Joe Gillis, o argumentista "looser", brilhantemente representado por William Holden, mas  esta asserção é injusta e falha o alvo. Joe aceita a contragosto  o papel de gigolo e manifesta-o frequentemente, não sendo portanto o típico oportunista. É mais lógico que tal personagem encarne   um exemplo de alguém a bater à porta, lutando por entrar na máquina de sonhos, mas cuja  mediocridade ou no mínimo inadaptação aos tempos que correm em Hollywood, fazem dele apenas o papalvo apanhado no sítio e à hora erradas.
O filme é todo ele feito de imagens,  planos, sequências e cenas  inesquecíveis, desde a alucinante abertura até ao espantoso clímax final. Que dizer também da presença de Norma no "Stage" 18 onde DeMille rodava "Sansão e Dalila"? E da cena das "figuras de cera" , na expressão de Joe Gillis para descrever os parceiros de Norma no jogo de Bridge, todos eles figuras de proa do cinema mudo como Buster Keaton e remetidos à mudez e insignificância ? Numa obra-prima absoluta como esta, talvez não seja excessivo dizer que cada fotograma do filme tem muito que dizer.
O score musical de Franz Waxman é todo ele uma peça na engrenagem que não se dissocia da narrativa, está ali porque é preciso, estávamos ainda no tempo em que  aquela música clássica de fundo era um imperativo e não o enjoo em que se transformaria mais tarde.
Um verdadeiro "must", ainda pelos extras que mostram as cenas cortadas como o início alternativo, com Joe e os outros mortos da morgue a falarem das suas mortes e que foi retirado por causar gargalhadas no "preview. O "making -of" mostra-nos ainda a mestria e o engenho  de Wilder, por exemplo  na conceção da cena inicial com o corpo na piscina.
Dos melhores filmes de sempre para vários Institutos e associações de críticos, mas de forma mais incisiva um filme muito importante  para mim, que apenas agora o descobri. Se calhar, no momento certo, na curiosa interseção de ocasos  da vida, mas que pela minha parte se pretende bem diferente do representado no filme.

"You see, this is my life! It always will be! Nothing else! Just us, the cameras, and those wonderful people out there in the dark!...
All right, Mr. DeMille, I'm ready for my close-up." 


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

☑ HANNAH ARENDT, de Margarethe von Trotta

Destas ideias se faz o cinema

"Hannah Arendt" (Alemanha, Luxemburgo & França - 2012).
Linguagem: Alemão, Inglês, Francês, Hebraico e Latim.
De. Margarethe von Trotta ( realização e argumento (com Pam Katz)).
Com: Barbara Sukowa, Axel Milberg, Janet McTeer, Julia Jentsch, Klaus Pohl, Ulrich Noethen, Michael Degen & Nicholas Woodeson.
Cinematografia: Caroline Champetier.
Direção Musical: André Mergenthaler.
Drama. Biografia. Documentário. 113 minutos. Cor.
Sinopse
O filme reporta-se ao período de  1961-1965, mas evoca também trechos do passado de Hannah Arendt, a reputada filósofa alemã, de origem judaica, exilada nos EUA e outrora presa num campo de concentração pelos nazis, quando esta se oferece à revista "The New Yorker" para fazer a cobertura "jornalística" do julgamento de Adolf Eichmann,  capturado pela "Mossad" na Argentina. Hannah Arendt escreveu uma série de cinco artigos para a revista, os quais resultaram, mais tarde, no livro "Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal". 
                                                           

Filmes sobre figuras importantes da História, no caso vertente ainda mais, ao abordar temas  com forte conteúdo emocional, cruzando o nazismo, o antissemitismo, o holocausto e a Filosofia, são muitas vezes um problema para o filme e para quem o analisa.  Porque, ou se dá relevo à figura histórica e o filme aproxima-se do documental (sabendo-se ainda que os factos não são 100% conhecidos ou aceites), e como tal perdendo força  a magia e a inventividade da matéria ficcionada ou se concede demasiado enfase a esta última e o filme arrisca-se a ser factualmente impreciso. O  justo equilíbrio, que satisfaça quem gosta de cinema e não desagrade a quem se interessa sobretudo pela figura histórica é o que procura neste filme, Margarethe von Trotta, e a julgar pelas críticas  e comentários do Ípsilon online ( ler aqui), a matéria está longe de ser pacífica. Que Johanna Arendt (1906-1975) foi uma pensadora de grande importância no mundo contemporâneo, é um facto indiscutível, como comprova a sua monumental obra e a grande repercussão que tem tido em diversas Ciências Sociais. Que se tratou de uma rica e complexa figura humana, apaixonada, lutadora e corajosa é também atestado pelos inúmeros relatos dos seus amigos e concidadãos. Agora a um  filme, embora use e agradeça tão rica matéria prima, exige-se que vá além do simples retrato, terá que ser revelador de outras dimensões, que transcendam a realidade que pretende retratar. E esta é a vertente que importa relevar na análise dos putativos méritos e deméritos do filme.
Para começar, Margarethe von Trotta seria à priori  a pessoa ideal para fazer a abordagem que se impunha de Hannah Arendt, ou não compartilhasse com esta, raízes geográficas e culturais comuns. E acrescentando o nome da grande atriz alemã Barbara Sukowa, dir-se-ia estarmos perante a combinação virtuosa, que impeliria o filme para os patamares exigidos. E em boa parte, os objetivos são atingidos, sendo comovente a Hannah Arendt, composta por uma magnífica Barbara  Sukowa.  A defesa das suas ideias, num meio nem sempre propício e até frequentemente hostil,  convidava ao politicamente correto, mas Hannah era igual a si mesma, uma livre pensadora, com uma surpreendente dimensão humana. A sua defesa de que Eichmann era antes de mais um homem medíocre, que tinha abdicado de pensar e de uma vontade própria em nome de uma autoridade que o transcendia e que não ousava discutir, apenas cumprindo ordens, é notável como análise acurada desse facto histórico em si mesmo, mas vai mais além e estabelece pontes com outros comportamentos  do mundo contemporâneo, tão propenso à relativização, à desculpabilização e ao justicialismo puro e simples. E é assim que ela subtilmente  estende essa banalização do mal aos próprios comportamentos dominantes ao redor do holocausto, por parte das elites nazis e judaicas e também ao próprio julgamento de Eichmann.
Se esta é a ideia central do filme, diga-se que ela passou muito à custa de um certo empobrecimento de certos aspetos da narrativa. Dir-se-á que aqui havia muito pano (assuntos) para curta roupa (filme) . Havia a relação de Hannah com Heidegger na juventude, que foi subalternizada a uns mornos flash-backs de circunstância,  perdendo-se muito da tensão existencial e porque não dizer, erogénea do filme. Agravando a situação, as memórias do campo de concentração colam mal com a vivência quotidiana da protagonista, passando desajeitadamente como exemplo de vida à medida de uma heroína, coisa que não casa nada com Hannah . A referência ao colaboracionismo dos chefes judaicos, foi por diversas vezes abordada, mas não explorada, ficando assim como uma espécie de calúnia imputada a Hannah, o que é antes de mais cruel e injusta.
Como filme de época, o meio americano e sobretudo Nova-Iorquino dos anos 60 é razoavelmente pintado. A cinematografia de Caroline Champetier cumpre minimamente,  mas quanto a mim, estabelecendo um paralelo com o filme "No", de Pablo Larraín, a utilização de imagens de arquivo e a sua transição para as imagens "actuais", revela-se demasiado artificial, transportando  muito pouco da tensão do julgamento histórico, para as imagens do próprio filme.
Em suma, um filme importante, com rosto humano, sobre a força do livre pensamento.  Trotta e Sukowa, cada uma a seu jeito, conseguem fazer sua e nossa  esta causa, não obstante alguns "handicaps",  que não estragam demasiado a experência fílmica.



terça-feira, 15 de outubro de 2013

LIKE SOMEONE IN LOVE, de Abbas Kiarostami

            Como alguém apaixonado pelo cinema



"Like Someone in love" (Japão, França - 2012).
Linguagem: Japonês.
De: Abbas Kiarostami (Argumento e Realização).
Com: Rin Takanashi, Tadashi Okuno, Ryo Kase, Denden e Reiko Mori.
Cinematografia: Katsumi Yanagijima.
Soundtrack: Duke Ellington, John Coltrane, Ella Fitzgerald.
Drama. 109 minutos. Cor.
Sinopse
Em Tóquio uma rapariga, estudante universitária de dia e prostituta à noite, tenta levar a sua vida para a frente, por entre a desconfiança e ameaças crescentes do noivo, quando estabelece uma inesperada conexão com um cliente, um velho  professor universitário.





"Quando se sabe que a resposta é uma mentira, é melhor não perguntar nada."
(O professor, em diálogo como o noivo)

Abbas Kiarostami, é talvez, o mais universal dos cineastas vivos e não seria preciso este filme rodado em Tóquio, nem o anterior em Itália, para o demonstrar. Tampouco a sua gloriosa fase Iraniana, retira o sentido pleno a esta asserção, porquanto o que confere amplitude à sua obra, não é o espaço físico (que é também muito importante)   mas sim a matéria humana e  a extrema delicadeza e perspicácia com que aborda o mais simples episódio do quotidiano, fazendo sobressair dele as dimensões e  os significados que se escondem nas aparências.
Por isso, ver um filme de Kiarostami é o mesmo que saborear um rebuçadinho, especial e saboroso , com efeitos imediatos nas papilas gustativas e um pouco mais lentos mas mais duradouros  a nível do córtex cerebral, esta última ação, como se sabe ausente ou manifestando-se de forma assaz perniciosa  em numerosos  "rebuçados" em circulação.
Neste filme, Kiarostami serve-se de uma história de contornos simples - uma rapariga estudante de dia e prostituta à noite, com dificuldades em  conciliar esta vida dupla - e com a  sensibilidade que lhe é característica, passa ao lado da sordidez e dos moralismos fáceis e induz-nos a ver a realidade  de outros pontos de vista. E o que nós vemos é antes de mais imagens de rostos e as suas expressões, porque como Kiarostami referiu numa entrevista recente (Público-Ípsilon, 27 de Setembro de 2013) a sua medida de representação não é o diálogo mas sim a expressão facial e ele não tolera especialmente o "overacting", como se viu quando resolveu dispensar dois atores profissionais (para os papeis do professor e da prostituta) em detrimento de dois outros amadores (o do professor entregue a um figurante profissional, que acabou o filme a pensar que apenas fazia um pequeno papel, pois Kiarostami não entrega o argumento completo aos seus atores e atrizes, apenas as partes necessárias do guião).
Por consequência, estamos perante um filme caracteristicamente orientado pelas personagens e tudo o que é possível decifrar resulta das suas ações, expressões e interações. Os diálogos são importantes, mas mais importante e muitas vezes constituindo  a chave da narrativa é o modo como os diálogos se adequam ou não às expressões de quem fala, ou não fosse Kiarostami um mestre na ocultação e na subversão do real, através da ambiguidade manifestada   pelos seus personagens.
E diga-se em abono da verdade, que a escolha dos atores e atrizes revelou-se certeira, porque eles são extraordinários na forma como expressam os  estados de alma das suas personagens, nada parece falso, tudo natural e sentido.
A cinematografia é uma das assinaturas que permitem reconhecer Kiarostami e embora este filme conte com o Japonês Katsumi Yanagijima na direção de fotografia, é o dedo invisível do Iraniano que aponta o caminho. Kiarostami tem uma especial predileção por planos, sequências e cenas, concebidas utilizando carros, geralmente em viagens, servindo-se de câmaras montadas no "tabelier" ou no exterior do veículo, fixas ou em "travelling". Assim temos acesso a um verdadeiro "palco teatral", onde as expressões dos personagens sobressaiem em magníficos close-ups e os planos-contraplanos se sucedem com a dinâmica dos  diálogos.  E Kiarostami permite-se ainda  brindar-nos com excelentes projeções dos espaços envolventes - edifícios, sinais de trânsitos, luzes - nos vidros dos carros, não meramente como casual acessório estético, mas muitas vezes como medida de enquadramento/desenquadramento espacial ou de  contraponto emocional às próprias cenas. E de forma similar para os sons da envolvência.
São magistrais os planos de abertura do filme no bar. A personagem principal é nos apresentada com a sua voz ao telefone, ela que está fora do plano e só entra quando convidada por outros, como se desde logo se definisse pela sua fragilidade e dependência.
Densa  e comovente, é a sequência da viagem noturna da rapariga no táxi,   enquanto ouvia as mensagens da avó e a procurava com o olhar. A avó, outra personagem projetada para fora do plano, mas insistentemente querendo entrar no núcleo da história. Tal como a vizinha do velho professor, que numa primeira instância é nos revelada pela voz, numa segunda pela presença virtual atrás da cortina, através da qual vê (vemos) a moça ferida e por fim à janela, corpo e voz, trazendo mais achas de um quotidiano ordinário e umas quantas frases misteriosas, para a fogueira do filme.
Filme de (meias) verdades e mentiras, de equívocos e aparências em que os papéis se subvertem facilmente. O professor idoso, que ainda se julga com energia para aventuras, transmuta-se no avô solícito, enquanto que a rapariga da vida dupla,  no início prestadora de um serviço sexual, assume por fim o papel de neta de ocasião, recebendo do velho, o auxílio esperado de um avô.
Kiarostami recusa-se e bem a ser explicativo, excluindo algum didatismo de circunstância, e mesmo assim não inocente, de algumas referências, como a célebre pintura da rapariga que ensina o papagaio a falar e também algumas interessantes  questões sociais e filosóficas, aquando da conversa entre o velho professor e o noivo da rapariga. Os espaços em branco ou em tons de cinzento, se quisermos, deixados por Kiarostami nas suas famosas elipses, principalmente naquela após a noite do velho com a rapariga, são para preencher com a nossa vivência da vida que se cruza com a(s) vida(s) deste filme, e como Kiarostami frisou bem nessa entrevista citada anteriormente,  o filme não é mais dele, sendo nosso a partir do momento em que o vemos.
Por mim, refastelo-me lá nessas nuvens cinzentas, como se fora o sofá onde vi o filme, enquanto  me delicio de novo com a excelente  música oferecida por ele. 

"Ultimamente vejo-me a contemplar as estrelas, ouvindo guitarras como alguém apaixonado; Às vezes, as coisas que faço surpreendem-me, principalmente quando tu estás perto de mim. "
(Ella Fitzgerald, na canção que dá título ao filme)

P.S

É criminoso usar um trailer para este filme.

sábado, 12 de outubro de 2013

REFN: O QUE FAZER COM A MEMÓRIA DO CINEMA ?



Nicolas Winding Refn (N-1970) e Lars Von Trier (N- 1956), dinamarqueses,  o primeiro tendo crescido e formando-se nos Estados Unidos, o segundo não morrendo de amores pela América, são seguramente, dos cineastas  mais provocadores e polarizadores da actualidade, atraindo as vaias mais estridentes  e os aplausos mais vigorosos do sensível espectro de opiniões dos cinéfilos. Este assunto da crítica nos extremos é em si mesmo um campo fascinante de análise, mas deixemos os devaneios metalinguísticos para núpcias mais excitantes. A talho de foice,  direi apenas dos detratores exacerbados, que pulverizam baba e ranho por causa de um simples filme, como se este fosse mais perigoso que a própria peste  e dos aduladores pueris que estão sempre prontos para ver clarões de génio onde apenas faíscam tímidos fogachos, que tais opiniões embora à partida legítimas, tornam-se suspeitas pela forma metódica com que acentuam  putativos  vícios  ou  declaradas  virtudes,  exorbitando a importância da própria crítica e parecendo ter mais a ver com um problema discinético na descarga dos humores orgânicos do escriba, do que com o cinema própriamente dito.
A bolinha do péssimo,  um  clássico  de  algumas  publicações  como   o   jornal "Público" que é sempre  servida como guloseima e com  catraia alegria pelo  crítico de serviço, como não podia deixar de ser, foi exibida ao último filme de Refn. Pavlov explicou o fenómeno com cachorrinhos há quase 100 anos, mas a essas questões voltaremos mais tarde. Em relação ao cineasta em discussão e contra a corrente , elogiemos o injustamente vilipendiado "meio-termo" (encarado de forma redutora como apologia das "meias-tintas" ou de sinónimo de "uma no cravo, outra na ferradura" e de outras tibiezas do género) que nos parece ajustado ao seu perfil e  fiquemo-nos com uma visita guiada à sua obra, construída de forma coerente, na recriação de uma certa memória do cinema, muito diferente da excessiva colagem ou mesmo plágio de que é injustamente  acusado. É que são tantos os nomes que vêm à baila neste apontar de dedo, desde os  badalados Quentin Tarantino, David Lynch e Stanley Kubrick, até outros menos óbvios como Peter Yates, Michael Mann, Walter Hill e Jean Pierre-Melville, cineastas tão díspares na forma e no conteúdo, que só um génio, poderia sintetizar e tecer de forma consistente, contribuições artísticas tão variegadas.   Cineasta com um perfil  maneirista, de cunho neoclássico, assume as referências como influências ao invés de fingir que vive noutro planeta ou que é desmemoriado e que é possível ignorar a memória do cinema. Memória revivida, tanto no estilo como na substância. Memória de uma certa marginalidade, exibida sem pudores e servida sem rodeios ou explicações, com doses generosas de violência gráfica e muito longe do  lema redutor, "sexo, drogas e Rock & Roll". O seu trabalho revela improviso, instinto e partilha, porque concede aos participantes dos seus projectos, liberdade creativa q.b. Calculisticamente hermético e niilista, provocador e polémico, conscientemente longe do génio e da banalidade,  eis o meu retrato pessoal de  Nicolas Winding Refn.

TRILOGIA PUSHER (1996-2005)
☑ PUSHER (1996)
"Pusher".
Dinamarca(1996); Linguagem: Dinamarquês.
De: Nicolas Winding Refn (argumento e realização). Fotografia: Morten Soborg.
Com: Kim Bodnia, Zlatko Buric, Laura Drasbaek e Mads Mikkelsen.
Crime, Thriller. 105 minutos.Cor.

Sinopse:
No submundo de Copenhaga, Frank (Kim Bodnia) um  dealer local, é apanhado num clima de altas pressões para pagar a enorme dívida contraída a um cruel e implacável barão da droga.

 
Neste filme  de estreia de Refn, que também escreveu o argumento a meias com Jens Dahl, começa a desenhar-se a visão cinematográfica de Refn, as suas obsessões, o seu estilo e as suas influências. Refn, nesta altura sem qualquer experiência académica e profissional no cinema, abarcou-se ele próprio, à escrita de um argumento  linear, tratando com o já de si muito pesado, desagradável e pouco original mundo do consumo e tráfego de drogas. Com os seus verdes 26 anos, cumpriu a preceito a tarefa, com um filme crú, de ritmo vertiginoso e de emoções à flôr da pele. Não tendo o lado negro e asfixiante de "Trainspointing", nem o caos paródico de "Pulp Fiction", "Pusher" impõe-se no entanto pela energia naive, do primeiro olhar de Refn . A cinematografia  artesanal, em grande parte apoiada em câmaras de mão que acompanham a frenética ação nas ruas e nos interiores, comunga deste desprendido e impiedoso olhar do realizador pelo submundo de Copenhaga, resultando em imagens "granitadas", matizadas pelas cores fortes que virão a marcar o cinema deste realizador. 
A música com uma batida grave, obsessiva e claustrofóbica, reforça o lado negro e depressivo, que percorre este filme de ponta a ponta, sem glória, nem esperança. 

☑ PUSHER II
"Pusher II"
Dinamarca (2004). Linguagem: Dinamarquês.
De: Nicolas Winding Refn (realização e argumento).
Com: Mads Mikkelsen, Leif Sylvester e Anne Sorensen.
Drama. 100 minutos. Cor.

Sinopse:
Tony (Mads Mikkelsen) é um habitué do crime e das prisões, que agora em liberdade enfrenta as dificuldades de adaptação e reinserção num quotidiano marcado pelo desprezo do seu pai e pela desconfiança do seu círculo de relações.

 
Tony (Mads Mikkelsen), que no filme anterior da saga tinha denunciado o seu amigo Frank à polícia, surge-nos nesta sequela, como um ex-presidiário que enfrenta a resignação e a solidão do regresso forçado a uma vida de marginalidade, desta vez, encoberta na aparente normalidade de uma respeitável família e comunidade local. Talvez não o mesmo "respeito", que Tony apregoa num icónico  tatoo no seu couro cabeludo.
Com perspicácia e inteligência, Refn, alarga as temáticas da delinquência, às complexas interações familiares e sociais, através do retrato da relação  entre  Tony e o seu pai, um mafioso com reconhecida influência social e com queda para abandonar as companheiras à sua sorte, como fora no passado com a mãe de Tony e agora com uma jovem, de quem tinha uma criança. Desta forma, emerge uma inesperada dimensão humana  num quotidiano marcado pelos negócios obscuros, o materialismo e a vacuidade das relações afectivas, fazendo deste filme uma obra merecedora da atenção dos amantes de cinema.

☑ PUSHER III
"Pusher III"
Dinamarca (2005); Linguagem: Dinamarquês.
De: Nicolas Winding Refn  (argumento e realização).
Com: Zlatko Buric, Marinela Dekic e Slako Labovic.
Drama. 90 minutos. Cor.

Sinopse:
Neste fecho de trilogia, reencontramos Milo (Zlatko Buric), o sérvio barão da droga do primeiro filme, como um respeitável homem de negócios, preocupado com a logística da festa do 25º aniversário da sua filha. Mas o negócio da droga, está-lhe no sangue e os seus problemas agudizam-se com uma operação de venda de ectasy que corre mal. Para novos males, velhos remédios e uma ajuda de um velho "companhon de route" é sempre bem vinda.

Este filme até que começa bem, ao mostrar-nos Milo, o sérvio barão da droga, agora como um sexagenário, com aparência de aposentado e sensível chefe de família, preocupado com a festa do 25º aniversário da sua filha Milena e encarregando-se ele próprio, com os seus dotes de cozinheiro, da balcânica ementa. Isto é claro, ao mesmo tempo que trata dos negócios, adivinhem quais... 
Antevia-se assim o regresso de uma dimensão humana que fizera do segundo fime da saga, o auge da trilogia, agora apimentado com as inevitáveis referências cinéfilas de Refn, no caso, ao "padrinho" de Coppola. Isto seria mais ou menos natural, se não passase a colagem obsessiva e quase exclusiva de paisagens visuais de outros universos cinéfilos, não faltando a figura do "cleaner", decalcada do "Pulp Fiction", de Tarantino, mas sem a dose de excesso paródico e entretenimento visceral que perpassa pelas obras do americano. Resulta assim um produto híbrido e algo inconsequente, como se Refn, a certa altura perdesse o pé e se socorresse das  boias salvíficas da sua memória cinéfila.

☑ BLEEDER
"Bleeder"
Dinamarca (1999); Linguagem: Dinamarquês. 
De: Nicolas Winding Refn (argumento e realização).
Com: Kim Bodnia, Mads Mikkelsen, Levino Jensen  e Rikke Louise Andersson.
Drama. 98minutos. Cor.

Sinopse:
Leo e Louise são um jovem casal de Copenhaga. Leo sai frequentemente com um grupo de amigos cinéfilos, enquanto Louise fica em casa. Quando Louise, revela que está grávida, Leo não gosta e a tensão crescente eclode em violência.


Neste filme, Refn aborda outros temas relacionados com gente jovem em processo de crescimento, incluindo os problemas da relação de um jovem casal, uma  visão  diferenciada da maternidade e da paternidade e a violência conjugal. Outros assuntos focados no filme incluem algumas opiniões avulsas dos intérpretes sobre a violência e o uso de armas e a sua postura em relação às ameaças da SIDA, não nos devendo esquecer que estamos em 1999. O realizador não teve a preocupação de abordar qualquer um destes temas em particular, apresentando-nos um quadro geral dos problemas de uma geração na mudança do milénio em Copenhaga.É curioso que um dos polos de interesse dos jovens deste filme, gire em torno do cinema, mais concretamente o mundo dos VHS domésticos e a sua suposta influência no quotidiano desta gente.
Globalmente, o filme é um pouco desiquilibrado e aqui e ali perpassa a ideia de uma certa superficialidade, que deriva do quadro social demasiado genérico e abrangente. A forma como é abordada a ameaça da SIDA  e a sua conexão ao título do filme é demasiado grosseira e panfletária para ser levada a sério.
Mesmo assim, o filme revela aspetos positivos que derivam também da excelente interpretação dos atores, e que  justificam uma visualização descomprometida.


☑ FEAR X
"Fear X" (Original em Inglês)
"Fear X : O medo" (Portugal)
EUA (2003). Linguagem: Inglês
De: Nicolas Winding Refn (realização e argumento- com Hubert Selby Jr. )
Com: John Turturro, Deborah Kara Unger e Stephen Eric McIntyre.
Drama, Thriller psicológico. 91 minutos. Cor.
Fotografia: Larry Smith. Música: Brian Eno.

Sinopse: 
Harry (John Turturro) é um segurança de um Shopping Centre no Wisconsin, em cujo parque de estacionamento a sua mulher fora morta por um disparo de um desconhecido. Harry vive obcecado em descobrir a verdade, visionando horas e horas dos videos de segurança, no sentido de descobrir alguma pista sobre o ocorrido.
  
Primeiro filme "americano" e em Inglês, da carreira de Refn. A aventura americana contou com a colaboração de nomes prestigiados como o escritor e argumentista americano  Hubert Selby Jr ( "A última Saída para Brooklin", "A vida não é um sonho") e  Larry Smith, um colaborador de Stanley Kubrik ( "The Shining") que assina a fotografia, para além  de Brian Eno, que deu uns toques na banda sonora. Uma experiência, que diga-se de passagem, não correu como Refn esperava, o filme foi recebido friamente pela crítica e público, e financeiramente foi um desastre, deixando falido o realizador, que foi para  Londres com uma mão à frente e outra atrás, disposto até a fazer episódios de "Miss Marple" para a TV.
Mais do que um desejo de vingança, é a expiação da culpa e a resistência a um medo indefinido que leva Harry, o protagonista a dedicar longas horas do dia a visualizar infindáveis fitas de segurança para descortinar um motivo que seja para a morte da sua mulher, em circunstâncias trágicas. E forçando  a leitura, a expressão colectiva da paranoia da América do pós 11 de Setembro, serve de fundo sociológico a este drama pessoal, apresentado do ponto de vista formal, como um thriller psicológico, embora Refn esteja menos interessado  na contaminação do medo ao espectador do que no choque psicológico e moral que os temas da perda e da culpa suscitam.
Em alguns aspetos Refn não resiste a uma reiterada reverência aos seus autores de culto, o que para alguns se lê como uma expressão eufemística para a queda para o plágio que segundo eles  o Dinamarquês  tem exibido proficuamente, com maior ou menor habilidade, desde que se meteu nestas coisas do cinema. Para mim, acentuo apenas, que recriar um ambiente "Kubrikiano" ou "Lynchiano", como nas cenas do Hotel, deve ser encarado como um elogio - a memória do cinema servirá para alguma coisa e aqui falamos em "recriar", certo ? - e além disso a presença de Larry Smith na fotografia, poderá explicar alguma coisa. Se Refn, consegue passar para nós público uma atmosfera psicológica que não ressoe a "deja vue" é o que faz a diferença e para nós, neste teste, Refn passou com distinção.
Um bom filme também  implica boas interpretações  e essas, sobretudo a de um convincente John Turturro, estão lá .


☑ BRONSON
"Bronson"
Reino Unido (2008). Linguagem: Inglês.
De: Nicolas Winding Refn (Realização e argumento - com Brock Norman Brock)
Com: Tom Hardy, Kelly Adams, Luing Andrews e Katy Barker.
Director de fotografia: Larry Smith.
Biografia. Ação. Crime. 92 minutos. Cor. Musica: New Order, Pet Shop Boys, Glass Candy.

Sinopse:
 Baseado na história verídica de um célebre prisioneiro inglês. Um  delinquente passa trinta anos confinado à solitária em várias prisões do Reino Unido e durante esse processo a sua personalidade irascível e violenta coabita com o seu alter ego, Charles Bronson.

Depois da incursão americana, "Bronson" representa uma aposta na história verídica do mais violento prisioneiro inglês, que passou 30 anos na solitária. Rodado no reino unido e com o versátil ator britânico Tom Hardy ("RocknRolla", "Oliver Twist", "Wuthering Heighst") como protagonista, este filme continua com a direção de fotografia de Larry Smith, que recorreu a uma palete de  cores hiper-saturadas para ilustrar uma história de inusitada violência  auto-destrutiva,  furtando-se Refn de forma inteligente  às  leituras ou lógicas causais  que frequentemente se invocam a propósito de comportamentos tão bizarros. Em vez disso, o realizador opta por misturar elementos de um clássico "biopic", com a realidade alternativa  associada ao alter ego do protagonista, significativamente chamado "Charlie Bronson", que acrescenta para além do óbvio, um toque de ironia à história do homem que apenas queria ser "famoso". A música adquire grande importância no desenrolar da narrativa, já que Refn via este filme como uma "Ópera". "A música é como uma droga, que nos reconecta com os nossos instintos mais profundos", assumiu o cineasta.
Globalmente o filme é dominado pela exemplar performance de Hardy e de certa forma para memória futura, este é mais um filme de "ator" do que de "autor". No entanto, a mão de Refn e para sermos justos as mãozinhas de Smith e do co-argumentista Bock Norman Brock,  dotam este filme de uma atmosfera algo experimental e de uma inegável  complexidade dramática, que o tornam notado no conjunto da obra do autor dinamarquês.

☑ VALHALLA RISING - DESTINO DE SANGUE
"Valhalla Rising"  (Dinamarca & Reino Unido -  2009). Linguagem: Inglês.
"Valhalla Rising - Destino de sangue" (Portugal). 
De: Nicolas Winding Refn (realização e argumento com Roy Jacobsen e Matthew Read)
Com: Mads Mikkelsen, Alexander Morton, Stewart Porter, Maarten Stevenson, Gary Lewis e Jamie Sives.
Aventura. Drama; Thriller sobrenatural.
93 minutos. Cor. 
Direção de fotografia: Morten Soborg. Música de Peter Kyed e Peter Peter.

Sinopse:
Na era medieval, "One Eye", um guerreiro mudo e invencível,  é feito prisioneiro de um clã nórdico. Conseguindo escapar, "One Eye" embarca num barco de Vikings cruzados, rumo à terra santa. O barco  é logo  envolvido por denso nevoeiro e mantem-se à deriva durante muito tempo até que por fim aporta a uma terra desconhecida. E é aí, no "novo mundo", cheio de segredos e armadilhas, que aqueles homens são confrontados com o seu terrível destino de sangue e "One Eye" descobre a  verdade da sua vida.


Ver este filme é acima de tudo participar de uma experiência sensorial, onde mais que as palavras, são as imagens, os sons e os silêncios, que contam a história e através das emoções e das cognições que essas técnicas em nós despertam, somos de certa forma, compelidos a fazer parte dela. 
É por este efeito visceral,  de emersão na matéria fílmica,  por esta recusa da linearidade e das regras narrativas convencionais que este filme, é tão mal compreendido e tão sujeito a equívocos, ampliados  de resto,  pela etiquetagem forçada no género "Aventuras" e pelos chamarizes que os adereços Vikings e a mitologia nórdica, possam constituir para os sequiosos de ação ou conhecimento lúdico, coisas de que este filme passa deliberadamente ao lado.
Neste filme o elemento relacional está focado no protagonista caolho (Mads Mikkelsen), e essa singularidade anatómica, poderá não ser acidental, pois de certa forma é através da sua visão monocolar que nos é "permitido" ver o filme e  da sua relação com os outros personagens, da sua postura face ao espaço envolvente e a  um tempo elusivo, extrair as coordenadas da história.
O filme é uma viagem à deriva num espaço físico e num universo mental sem coordenadas pré-estabelecidas, em que se questiona permanentemente  o sonho de transcendência do ser humano e a sua importância na história. Uma jornada só aparentemente colectiva, porque como se constata no filme, as crenças só unem à superfície e no âmago da condição humana subsistem territórios que não se conformam às ideologias vigentes. E de resto, o filme espelha esta contradição absoluta entre a colectivação legitimada pelo poder político e pelas crenças religiosas e o desafio pessoal de liberdade e de  superação  que se transfiguram em  violência visceral.
Toda esta experiência de imbebição cinematográfica só é possível com uma fotografia evocadora de uma atmosfera sobrenatural, alucinatória e pujante de significados simbólicos a que se associa uma banda sonora de intensidade visceral, pontuando os ritmos da narrativa. E contando ainda, é claro, com  a irrepreensivel performance de Mads Mikkelsen,  Refn soube  tecer uma unidade  fílmica coerente, que lhe deixaria marcas e pontes para o futuro, como haveremos de comprovar.

☑ DRIVE
"Drive" (EUA). "Drive - Risco duplo" (Portugal).
EUA (2011). Linguagem: Inglês.
De: Nicolas Winding Refn.
Argumento: Hossein Amini e James Sallis (livro: "Drive", de 2005)
Com: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston e Albert Brooks.
Cinematografia: Newton Thomas Sigel.
Música: Cliff Martinez.
Drama. Crime. 100 minutos. Cor.

Sinopse
Um misterioso duplo de Hollywwod, mecânico e condutor (Ryan Gosling), entra em sarilhos quando a sua vida se cruza com a família do apartamento vizinho, onde vive um homem com ligações ao mundo do crime, a sua bela companheira e um menino, filho de ambos.

Drive é um filme bem feito, como aliás foi reconhecido com o prémio de realização do festival de Cannes de 2011, valendo  o que vale esta distinção.
Do argumento baseado numa novela de James Sallis, não se esperava que fosse particularmente inovador, contando-nos pela enésima vez uma história de encarniçada vingança, motivada por motivos passionais. A singularidade e a complexidade da história, resulta da ausência de qualquer moralidade sugerida ou imposta e da  recusa de qualquer redenção ou expectativa,  inevitavelmente associadas aos "clichés" do amor romântico. Esta é antes de mais, uma história de solidão e de verdades e mentiras, vividas e assumidas. O nosso condutor, guia-nos ora lenta ora velozmente, por ínvios caminhos e não há GPS que nos valha, temos apenas o instinto cinéfilo. Refn conta-nos esta história de contornos niilistas, com o seu cunho maneirista muito pessoal, assente no rigor clássico de enquadramentos desenhados a régua e esquadro e numa   composição indirecta dos caracteres, apoiados num propositado "score" musical eletrónico, que ajuda a criar a atmosfera de ameaça e tensão que percorre a narrativa,  evocando dessa forma iniludíveis referências cinéfilas dos anos 80 ("Driver" de Walter Hill, à cabeça, não esquecido por Refn nas dedicatórias da praxe), mas mantendo sempre a sua identidade, não  se deixando  diluir ou  cristalizar nessa memória. Os diálogos estão reduzidos ao mínimo indispensável, sabendo-se que interessa a Refn, mais a expressão gráfica da vitalidade diferenciada dos espaços, dos rostos e dos gestos e da ressonância dos sons e dos silêncios que lhes estão associados, do que a volatilidade das palavras. É do reflexo  dessas imagens que nascem as impressões sensitivas e cognitivas que dão vida ao filme, dessa forma  desenhando-se o intrincado mapa mental por onde somos conduzidos.
Ryan Gosling veste a pele do "lobo solitário", do "herói sem nome", como se fora uma versão moderna de Steve McQueen ou de Clint Eastwood. E de resto, o cinema  é o personagem omnipresente deste filme, uma vez que o nosso protagonista, um duplo de Hollywood,   é alguém que representa num plano invisível, tirando de resto, proveito disso em esquemas ilegais. Está habituado a fazer calado  o mais difícil e até o impossível aos nossos olhos que nem sequer o vêm, escondido que está atrás dos efeitos que cria. De certa forma, esta ilusão prolonga-se para dentro do nosso filme fazendo desse homem o nosso duplo. É através dele que contornamos e iludimos a lei, amamos e fazemos filantropia e exercemos a justa vingança, sem que nos magoemos ou sujemos as mãos. Porque isto é apenas cinema.

☑ SÓ DEUS PERDOA
"Only God forgives" (2013). (EUA, França, Tailândia, Suécia). Linguagem: Inglês.
"Só Deus perdoa" (Portugal)
De: Nicolas Winding Refn (argumento e realização)
Com: Ryan Gosling, Kristin Scott Thomas, Vithaya Pansringarm.
Cinematografia: Larry Smith.
Musica: Cliff Martinez.
Crime. Drama. Thriller.90 minutos.Cor.
Sinopse
Julian (Ryan Gosling) é um jovem ocidental que vive em Banguecoque com o seu irmão, gerindo um clube de Boxe, que serve na realidade de fachada para o negócio da droga.   Pelo seu carácter solitário e impassível ele, esconde os traumas do passado, onde figura o assassínio  de um homem, 10 anos antes em circunstâncias brutais, mas que não são esclarecidas no filme. Quando o seu irmão mata uma prostituta, entra em cena Chang (Vithaya Pansringarm), um temível polícia reformado que age como um "anjo da vingança", instando o pai da moça a matar o assassino e por fim sendo-lhe amputado um braço. Crystal (Kristin Scott Thomas), a mãe de Julian e Gordon e líder da organização criminosa, chega a Banguecoque para levar o corpo do seu filho e encarregar Julian da sua vingança.

Este filme não é uma sequela de "Drive", como à partida se esperaria, mas era inevitável a comparação com o filme anterior e de certa forma também esperada a histeria divisionista do "ama-me ou odeia-me", resultado do veneno que o realizador já tinha injectado  nos filmes precedentes e que atingiu em Cannes  o climax de uma autêntica reação em cadeia. Fenómeno estudado por Refn com a  perfídia de um "marketing" subliminar ? Talvez... O que é certo é que o realizador tem sempre a resposta politicamente correta na ponta da língua: sinal de que o filme acerta em cheio no alvo e não deixa ninguém indiferente. A primeira verdade revelada por este filme, de certa forma em consonância com uma estrutura religiosa que se vislumbra de uma narrativa  hermeticamente escondida em símbolos, liturgias  e parábolas visuais, onde o mais importante - como o autor não se cansa de repetir - é o que não se  vê e o que não se ouve, nem o que tem explicação, ou seja, os pressupostos de uma  crença.   Os temas centrais - a culpa e o castigo - mais do que um pretexto para leituras psicanalistas, com Édipos e o diabo a quatro à mistura, tentação difícil de resistir, tanto para quem cria como para quem "interpreta", são deixados ao Deus dará, numa terra de ninguém, não por acaso nessa fronteira do Oriente e do Ocidente, onde qualquer moral tem dificuldade em se ancorar. Habilidade indiscutível, esta de Refn, de chutar para um conveniente canto metafísico estes  monos linguísticos, em prol de uma narrativa mais primária, visceral e sanguinolenta, ao fim e ao cabo a matéria orgânica  foi sempre o âmago dos filmes de Refn e não a alma...  
Matéria mesmo a jeito para um filme  inteiramente nocturno, numa cidade de Banguecoque, cuja luz é mais forte de noite. E para os instintos primários à flôr da pele, lá estão as cores primárias da cinematografia  e a linearidade da música de Karaoke Tailandesa, a balizar os pontos de "check point", ou de transição da narrativa.
Com todos estes elementos, não se esperaria que um personagem como Julian falasse muito ou expressasse muitas emoções, como muita gente desvairadamente reclama. Não neste filme, como é óbvio...
Muita desta dinâmica emocional é veiculada e preenchida por  uma cinematografia que não ignora antes honra as referências (vê-se a razão de  Larry Smith ter trabalhado com Kubrick),    e por um "score" musical a preceito (de Cliff Martinez).
Quanto a ressonâncias de filmes anteriores do realizador, "Valhalla Rising" e "Drive" têm uma estrutura idêntica, como refere Refn e eu concordo.
E que dizer do  pecado capital apontado por muitos críticos da "ripagem"  de referências cinéfilas, de Lynch a Kubrick, passando por Tarantino ?
Bem...elas (influências e não ripagens) estão lá, como se descobre a qualquer cineasta minimamente capaz e com memória, mesmo aqueles supracitados. Refn diz e bem, que a sua tarefa entre filmes é desconstruir e recriar. De olhos bem abertos. Sem aspas. E faz bem.