Pesquisar

sábado, 12 de outubro de 2013

REFN: O QUE FAZER COM A MEMÓRIA DO CINEMA ?



Nicolas Winding Refn (N-1970) e Lars Von Trier (N- 1956), dinamarqueses,  o primeiro tendo crescido e formando-se nos Estados Unidos, o segundo não morrendo de amores pela América, são seguramente, dos cineastas  mais provocadores e polarizadores da actualidade, atraindo as vaias mais estridentes  e os aplausos mais vigorosos do sensível espectro de opiniões dos cinéfilos. Este assunto da crítica nos extremos é em si mesmo um campo fascinante de análise, mas deixemos os devaneios metalinguísticos para núpcias mais excitantes. A talho de foice,  direi apenas dos detratores exacerbados, que pulverizam baba e ranho por causa de um simples filme, como se este fosse mais perigoso que a própria peste  e dos aduladores pueris que estão sempre prontos para ver clarões de génio onde apenas faíscam tímidos fogachos, que tais opiniões embora à partida legítimas, tornam-se suspeitas pela forma metódica com que acentuam  putativos  vícios  ou  declaradas  virtudes,  exorbitando a importância da própria crítica e parecendo ter mais a ver com um problema discinético na descarga dos humores orgânicos do escriba, do que com o cinema própriamente dito.
A bolinha do péssimo,  um  clássico  de  algumas  publicações  como   o   jornal "Público" que é sempre  servida como guloseima e com  catraia alegria pelo  crítico de serviço, como não podia deixar de ser, foi exibida ao último filme de Refn. Pavlov explicou o fenómeno com cachorrinhos há quase 100 anos, mas a essas questões voltaremos mais tarde. Em relação ao cineasta em discussão e contra a corrente , elogiemos o injustamente vilipendiado "meio-termo" (encarado de forma redutora como apologia das "meias-tintas" ou de sinónimo de "uma no cravo, outra na ferradura" e de outras tibiezas do género) que nos parece ajustado ao seu perfil e  fiquemo-nos com uma visita guiada à sua obra, construída de forma coerente, na recriação de uma certa memória do cinema, muito diferente da excessiva colagem ou mesmo plágio de que é injustamente  acusado. É que são tantos os nomes que vêm à baila neste apontar de dedo, desde os  badalados Quentin Tarantino, David Lynch e Stanley Kubrick, até outros menos óbvios como Peter Yates, Michael Mann, Walter Hill e Jean Pierre-Melville, cineastas tão díspares na forma e no conteúdo, que só um génio, poderia sintetizar e tecer de forma consistente, contribuições artísticas tão variegadas.   Cineasta com um perfil  maneirista, de cunho neoclássico, assume as referências como influências ao invés de fingir que vive noutro planeta ou que é desmemoriado e que é possível ignorar a memória do cinema. Memória revivida, tanto no estilo como na substância. Memória de uma certa marginalidade, exibida sem pudores e servida sem rodeios ou explicações, com doses generosas de violência gráfica e muito longe do  lema redutor, "sexo, drogas e Rock & Roll". O seu trabalho revela improviso, instinto e partilha, porque concede aos participantes dos seus projectos, liberdade creativa q.b. Calculisticamente hermético e niilista, provocador e polémico, conscientemente longe do génio e da banalidade,  eis o meu retrato pessoal de  Nicolas Winding Refn.

TRILOGIA PUSHER (1996-2005)
☑ PUSHER (1996)
"Pusher".
Dinamarca(1996); Linguagem: Dinamarquês.
De: Nicolas Winding Refn (argumento e realização). Fotografia: Morten Soborg.
Com: Kim Bodnia, Zlatko Buric, Laura Drasbaek e Mads Mikkelsen.
Crime, Thriller. 105 minutos.Cor.

Sinopse:
No submundo de Copenhaga, Frank (Kim Bodnia) um  dealer local, é apanhado num clima de altas pressões para pagar a enorme dívida contraída a um cruel e implacável barão da droga.

 
Neste filme  de estreia de Refn, que também escreveu o argumento a meias com Jens Dahl, começa a desenhar-se a visão cinematográfica de Refn, as suas obsessões, o seu estilo e as suas influências. Refn, nesta altura sem qualquer experiência académica e profissional no cinema, abarcou-se ele próprio, à escrita de um argumento  linear, tratando com o já de si muito pesado, desagradável e pouco original mundo do consumo e tráfego de drogas. Com os seus verdes 26 anos, cumpriu a preceito a tarefa, com um filme crú, de ritmo vertiginoso e de emoções à flôr da pele. Não tendo o lado negro e asfixiante de "Trainspointing", nem o caos paródico de "Pulp Fiction", "Pusher" impõe-se no entanto pela energia naive, do primeiro olhar de Refn . A cinematografia  artesanal, em grande parte apoiada em câmaras de mão que acompanham a frenética ação nas ruas e nos interiores, comunga deste desprendido e impiedoso olhar do realizador pelo submundo de Copenhaga, resultando em imagens "granitadas", matizadas pelas cores fortes que virão a marcar o cinema deste realizador. 
A música com uma batida grave, obsessiva e claustrofóbica, reforça o lado negro e depressivo, que percorre este filme de ponta a ponta, sem glória, nem esperança. 

☑ PUSHER II
"Pusher II"
Dinamarca (2004). Linguagem: Dinamarquês.
De: Nicolas Winding Refn (realização e argumento).
Com: Mads Mikkelsen, Leif Sylvester e Anne Sorensen.
Drama. 100 minutos. Cor.

Sinopse:
Tony (Mads Mikkelsen) é um habitué do crime e das prisões, que agora em liberdade enfrenta as dificuldades de adaptação e reinserção num quotidiano marcado pelo desprezo do seu pai e pela desconfiança do seu círculo de relações.

 
Tony (Mads Mikkelsen), que no filme anterior da saga tinha denunciado o seu amigo Frank à polícia, surge-nos nesta sequela, como um ex-presidiário que enfrenta a resignação e a solidão do regresso forçado a uma vida de marginalidade, desta vez, encoberta na aparente normalidade de uma respeitável família e comunidade local. Talvez não o mesmo "respeito", que Tony apregoa num icónico  tatoo no seu couro cabeludo.
Com perspicácia e inteligência, Refn, alarga as temáticas da delinquência, às complexas interações familiares e sociais, através do retrato da relação  entre  Tony e o seu pai, um mafioso com reconhecida influência social e com queda para abandonar as companheiras à sua sorte, como fora no passado com a mãe de Tony e agora com uma jovem, de quem tinha uma criança. Desta forma, emerge uma inesperada dimensão humana  num quotidiano marcado pelos negócios obscuros, o materialismo e a vacuidade das relações afectivas, fazendo deste filme uma obra merecedora da atenção dos amantes de cinema.

☑ PUSHER III
"Pusher III"
Dinamarca (2005); Linguagem: Dinamarquês.
De: Nicolas Winding Refn  (argumento e realização).
Com: Zlatko Buric, Marinela Dekic e Slako Labovic.
Drama. 90 minutos. Cor.

Sinopse:
Neste fecho de trilogia, reencontramos Milo (Zlatko Buric), o sérvio barão da droga do primeiro filme, como um respeitável homem de negócios, preocupado com a logística da festa do 25º aniversário da sua filha. Mas o negócio da droga, está-lhe no sangue e os seus problemas agudizam-se com uma operação de venda de ectasy que corre mal. Para novos males, velhos remédios e uma ajuda de um velho "companhon de route" é sempre bem vinda.

Este filme até que começa bem, ao mostrar-nos Milo, o sérvio barão da droga, agora como um sexagenário, com aparência de aposentado e sensível chefe de família, preocupado com a festa do 25º aniversário da sua filha Milena e encarregando-se ele próprio, com os seus dotes de cozinheiro, da balcânica ementa. Isto é claro, ao mesmo tempo que trata dos negócios, adivinhem quais... 
Antevia-se assim o regresso de uma dimensão humana que fizera do segundo fime da saga, o auge da trilogia, agora apimentado com as inevitáveis referências cinéfilas de Refn, no caso, ao "padrinho" de Coppola. Isto seria mais ou menos natural, se não passase a colagem obsessiva e quase exclusiva de paisagens visuais de outros universos cinéfilos, não faltando a figura do "cleaner", decalcada do "Pulp Fiction", de Tarantino, mas sem a dose de excesso paródico e entretenimento visceral que perpassa pelas obras do americano. Resulta assim um produto híbrido e algo inconsequente, como se Refn, a certa altura perdesse o pé e se socorresse das  boias salvíficas da sua memória cinéfila.

☑ BLEEDER
"Bleeder"
Dinamarca (1999); Linguagem: Dinamarquês. 
De: Nicolas Winding Refn (argumento e realização).
Com: Kim Bodnia, Mads Mikkelsen, Levino Jensen  e Rikke Louise Andersson.
Drama. 98minutos. Cor.

Sinopse:
Leo e Louise são um jovem casal de Copenhaga. Leo sai frequentemente com um grupo de amigos cinéfilos, enquanto Louise fica em casa. Quando Louise, revela que está grávida, Leo não gosta e a tensão crescente eclode em violência.


Neste filme, Refn aborda outros temas relacionados com gente jovem em processo de crescimento, incluindo os problemas da relação de um jovem casal, uma  visão  diferenciada da maternidade e da paternidade e a violência conjugal. Outros assuntos focados no filme incluem algumas opiniões avulsas dos intérpretes sobre a violência e o uso de armas e a sua postura em relação às ameaças da SIDA, não nos devendo esquecer que estamos em 1999. O realizador não teve a preocupação de abordar qualquer um destes temas em particular, apresentando-nos um quadro geral dos problemas de uma geração na mudança do milénio em Copenhaga.É curioso que um dos polos de interesse dos jovens deste filme, gire em torno do cinema, mais concretamente o mundo dos VHS domésticos e a sua suposta influência no quotidiano desta gente.
Globalmente, o filme é um pouco desiquilibrado e aqui e ali perpassa a ideia de uma certa superficialidade, que deriva do quadro social demasiado genérico e abrangente. A forma como é abordada a ameaça da SIDA  e a sua conexão ao título do filme é demasiado grosseira e panfletária para ser levada a sério.
Mesmo assim, o filme revela aspetos positivos que derivam também da excelente interpretação dos atores, e que  justificam uma visualização descomprometida.


☑ FEAR X
"Fear X" (Original em Inglês)
"Fear X : O medo" (Portugal)
EUA (2003). Linguagem: Inglês
De: Nicolas Winding Refn (realização e argumento- com Hubert Selby Jr. )
Com: John Turturro, Deborah Kara Unger e Stephen Eric McIntyre.
Drama, Thriller psicológico. 91 minutos. Cor.
Fotografia: Larry Smith. Música: Brian Eno.

Sinopse: 
Harry (John Turturro) é um segurança de um Shopping Centre no Wisconsin, em cujo parque de estacionamento a sua mulher fora morta por um disparo de um desconhecido. Harry vive obcecado em descobrir a verdade, visionando horas e horas dos videos de segurança, no sentido de descobrir alguma pista sobre o ocorrido.
  
Primeiro filme "americano" e em Inglês, da carreira de Refn. A aventura americana contou com a colaboração de nomes prestigiados como o escritor e argumentista americano  Hubert Selby Jr ( "A última Saída para Brooklin", "A vida não é um sonho") e  Larry Smith, um colaborador de Stanley Kubrik ( "The Shining") que assina a fotografia, para além  de Brian Eno, que deu uns toques na banda sonora. Uma experiência, que diga-se de passagem, não correu como Refn esperava, o filme foi recebido friamente pela crítica e público, e financeiramente foi um desastre, deixando falido o realizador, que foi para  Londres com uma mão à frente e outra atrás, disposto até a fazer episódios de "Miss Marple" para a TV.
Mais do que um desejo de vingança, é a expiação da culpa e a resistência a um medo indefinido que leva Harry, o protagonista a dedicar longas horas do dia a visualizar infindáveis fitas de segurança para descortinar um motivo que seja para a morte da sua mulher, em circunstâncias trágicas. E forçando  a leitura, a expressão colectiva da paranoia da América do pós 11 de Setembro, serve de fundo sociológico a este drama pessoal, apresentado do ponto de vista formal, como um thriller psicológico, embora Refn esteja menos interessado  na contaminação do medo ao espectador do que no choque psicológico e moral que os temas da perda e da culpa suscitam.
Em alguns aspetos Refn não resiste a uma reiterada reverência aos seus autores de culto, o que para alguns se lê como uma expressão eufemística para a queda para o plágio que segundo eles  o Dinamarquês  tem exibido proficuamente, com maior ou menor habilidade, desde que se meteu nestas coisas do cinema. Para mim, acentuo apenas, que recriar um ambiente "Kubrikiano" ou "Lynchiano", como nas cenas do Hotel, deve ser encarado como um elogio - a memória do cinema servirá para alguma coisa e aqui falamos em "recriar", certo ? - e além disso a presença de Larry Smith na fotografia, poderá explicar alguma coisa. Se Refn, consegue passar para nós público uma atmosfera psicológica que não ressoe a "deja vue" é o que faz a diferença e para nós, neste teste, Refn passou com distinção.
Um bom filme também  implica boas interpretações  e essas, sobretudo a de um convincente John Turturro, estão lá .


☑ BRONSON
"Bronson"
Reino Unido (2008). Linguagem: Inglês.
De: Nicolas Winding Refn (Realização e argumento - com Brock Norman Brock)
Com: Tom Hardy, Kelly Adams, Luing Andrews e Katy Barker.
Director de fotografia: Larry Smith.
Biografia. Ação. Crime. 92 minutos. Cor. Musica: New Order, Pet Shop Boys, Glass Candy.

Sinopse:
 Baseado na história verídica de um célebre prisioneiro inglês. Um  delinquente passa trinta anos confinado à solitária em várias prisões do Reino Unido e durante esse processo a sua personalidade irascível e violenta coabita com o seu alter ego, Charles Bronson.

Depois da incursão americana, "Bronson" representa uma aposta na história verídica do mais violento prisioneiro inglês, que passou 30 anos na solitária. Rodado no reino unido e com o versátil ator britânico Tom Hardy ("RocknRolla", "Oliver Twist", "Wuthering Heighst") como protagonista, este filme continua com a direção de fotografia de Larry Smith, que recorreu a uma palete de  cores hiper-saturadas para ilustrar uma história de inusitada violência  auto-destrutiva,  furtando-se Refn de forma inteligente  às  leituras ou lógicas causais  que frequentemente se invocam a propósito de comportamentos tão bizarros. Em vez disso, o realizador opta por misturar elementos de um clássico "biopic", com a realidade alternativa  associada ao alter ego do protagonista, significativamente chamado "Charlie Bronson", que acrescenta para além do óbvio, um toque de ironia à história do homem que apenas queria ser "famoso". A música adquire grande importância no desenrolar da narrativa, já que Refn via este filme como uma "Ópera". "A música é como uma droga, que nos reconecta com os nossos instintos mais profundos", assumiu o cineasta.
Globalmente o filme é dominado pela exemplar performance de Hardy e de certa forma para memória futura, este é mais um filme de "ator" do que de "autor". No entanto, a mão de Refn e para sermos justos as mãozinhas de Smith e do co-argumentista Bock Norman Brock,  dotam este filme de uma atmosfera algo experimental e de uma inegável  complexidade dramática, que o tornam notado no conjunto da obra do autor dinamarquês.

☑ VALHALLA RISING - DESTINO DE SANGUE
"Valhalla Rising"  (Dinamarca & Reino Unido -  2009). Linguagem: Inglês.
"Valhalla Rising - Destino de sangue" (Portugal). 
De: Nicolas Winding Refn (realização e argumento com Roy Jacobsen e Matthew Read)
Com: Mads Mikkelsen, Alexander Morton, Stewart Porter, Maarten Stevenson, Gary Lewis e Jamie Sives.
Aventura. Drama; Thriller sobrenatural.
93 minutos. Cor. 
Direção de fotografia: Morten Soborg. Música de Peter Kyed e Peter Peter.

Sinopse:
Na era medieval, "One Eye", um guerreiro mudo e invencível,  é feito prisioneiro de um clã nórdico. Conseguindo escapar, "One Eye" embarca num barco de Vikings cruzados, rumo à terra santa. O barco  é logo  envolvido por denso nevoeiro e mantem-se à deriva durante muito tempo até que por fim aporta a uma terra desconhecida. E é aí, no "novo mundo", cheio de segredos e armadilhas, que aqueles homens são confrontados com o seu terrível destino de sangue e "One Eye" descobre a  verdade da sua vida.


Ver este filme é acima de tudo participar de uma experiência sensorial, onde mais que as palavras, são as imagens, os sons e os silêncios, que contam a história e através das emoções e das cognições que essas técnicas em nós despertam, somos de certa forma, compelidos a fazer parte dela. 
É por este efeito visceral,  de emersão na matéria fílmica,  por esta recusa da linearidade e das regras narrativas convencionais que este filme, é tão mal compreendido e tão sujeito a equívocos, ampliados  de resto,  pela etiquetagem forçada no género "Aventuras" e pelos chamarizes que os adereços Vikings e a mitologia nórdica, possam constituir para os sequiosos de ação ou conhecimento lúdico, coisas de que este filme passa deliberadamente ao lado.
Neste filme o elemento relacional está focado no protagonista caolho (Mads Mikkelsen), e essa singularidade anatómica, poderá não ser acidental, pois de certa forma é através da sua visão monocolar que nos é "permitido" ver o filme e  da sua relação com os outros personagens, da sua postura face ao espaço envolvente e a  um tempo elusivo, extrair as coordenadas da história.
O filme é uma viagem à deriva num espaço físico e num universo mental sem coordenadas pré-estabelecidas, em que se questiona permanentemente  o sonho de transcendência do ser humano e a sua importância na história. Uma jornada só aparentemente colectiva, porque como se constata no filme, as crenças só unem à superfície e no âmago da condição humana subsistem territórios que não se conformam às ideologias vigentes. E de resto, o filme espelha esta contradição absoluta entre a colectivação legitimada pelo poder político e pelas crenças religiosas e o desafio pessoal de liberdade e de  superação  que se transfiguram em  violência visceral.
Toda esta experiência de imbebição cinematográfica só é possível com uma fotografia evocadora de uma atmosfera sobrenatural, alucinatória e pujante de significados simbólicos a que se associa uma banda sonora de intensidade visceral, pontuando os ritmos da narrativa. E contando ainda, é claro, com  a irrepreensivel performance de Mads Mikkelsen,  Refn soube  tecer uma unidade  fílmica coerente, que lhe deixaria marcas e pontes para o futuro, como haveremos de comprovar.

☑ DRIVE
"Drive" (EUA). "Drive - Risco duplo" (Portugal).
EUA (2011). Linguagem: Inglês.
De: Nicolas Winding Refn.
Argumento: Hossein Amini e James Sallis (livro: "Drive", de 2005)
Com: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston e Albert Brooks.
Cinematografia: Newton Thomas Sigel.
Música: Cliff Martinez.
Drama. Crime. 100 minutos. Cor.

Sinopse
Um misterioso duplo de Hollywwod, mecânico e condutor (Ryan Gosling), entra em sarilhos quando a sua vida se cruza com a família do apartamento vizinho, onde vive um homem com ligações ao mundo do crime, a sua bela companheira e um menino, filho de ambos.

Drive é um filme bem feito, como aliás foi reconhecido com o prémio de realização do festival de Cannes de 2011, valendo  o que vale esta distinção.
Do argumento baseado numa novela de James Sallis, não se esperava que fosse particularmente inovador, contando-nos pela enésima vez uma história de encarniçada vingança, motivada por motivos passionais. A singularidade e a complexidade da história, resulta da ausência de qualquer moralidade sugerida ou imposta e da  recusa de qualquer redenção ou expectativa,  inevitavelmente associadas aos "clichés" do amor romântico. Esta é antes de mais, uma história de solidão e de verdades e mentiras, vividas e assumidas. O nosso condutor, guia-nos ora lenta ora velozmente, por ínvios caminhos e não há GPS que nos valha, temos apenas o instinto cinéfilo. Refn conta-nos esta história de contornos niilistas, com o seu cunho maneirista muito pessoal, assente no rigor clássico de enquadramentos desenhados a régua e esquadro e numa   composição indirecta dos caracteres, apoiados num propositado "score" musical eletrónico, que ajuda a criar a atmosfera de ameaça e tensão que percorre a narrativa,  evocando dessa forma iniludíveis referências cinéfilas dos anos 80 ("Driver" de Walter Hill, à cabeça, não esquecido por Refn nas dedicatórias da praxe), mas mantendo sempre a sua identidade, não  se deixando  diluir ou  cristalizar nessa memória. Os diálogos estão reduzidos ao mínimo indispensável, sabendo-se que interessa a Refn, mais a expressão gráfica da vitalidade diferenciada dos espaços, dos rostos e dos gestos e da ressonância dos sons e dos silêncios que lhes estão associados, do que a volatilidade das palavras. É do reflexo  dessas imagens que nascem as impressões sensitivas e cognitivas que dão vida ao filme, dessa forma  desenhando-se o intrincado mapa mental por onde somos conduzidos.
Ryan Gosling veste a pele do "lobo solitário", do "herói sem nome", como se fora uma versão moderna de Steve McQueen ou de Clint Eastwood. E de resto, o cinema  é o personagem omnipresente deste filme, uma vez que o nosso protagonista, um duplo de Hollywood,   é alguém que representa num plano invisível, tirando de resto, proveito disso em esquemas ilegais. Está habituado a fazer calado  o mais difícil e até o impossível aos nossos olhos que nem sequer o vêm, escondido que está atrás dos efeitos que cria. De certa forma, esta ilusão prolonga-se para dentro do nosso filme fazendo desse homem o nosso duplo. É através dele que contornamos e iludimos a lei, amamos e fazemos filantropia e exercemos a justa vingança, sem que nos magoemos ou sujemos as mãos. Porque isto é apenas cinema.

☑ SÓ DEUS PERDOA
"Only God forgives" (2013). (EUA, França, Tailândia, Suécia). Linguagem: Inglês.
"Só Deus perdoa" (Portugal)
De: Nicolas Winding Refn (argumento e realização)
Com: Ryan Gosling, Kristin Scott Thomas, Vithaya Pansringarm.
Cinematografia: Larry Smith.
Musica: Cliff Martinez.
Crime. Drama. Thriller.90 minutos.Cor.
Sinopse
Julian (Ryan Gosling) é um jovem ocidental que vive em Banguecoque com o seu irmão, gerindo um clube de Boxe, que serve na realidade de fachada para o negócio da droga.   Pelo seu carácter solitário e impassível ele, esconde os traumas do passado, onde figura o assassínio  de um homem, 10 anos antes em circunstâncias brutais, mas que não são esclarecidas no filme. Quando o seu irmão mata uma prostituta, entra em cena Chang (Vithaya Pansringarm), um temível polícia reformado que age como um "anjo da vingança", instando o pai da moça a matar o assassino e por fim sendo-lhe amputado um braço. Crystal (Kristin Scott Thomas), a mãe de Julian e Gordon e líder da organização criminosa, chega a Banguecoque para levar o corpo do seu filho e encarregar Julian da sua vingança.

Este filme não é uma sequela de "Drive", como à partida se esperaria, mas era inevitável a comparação com o filme anterior e de certa forma também esperada a histeria divisionista do "ama-me ou odeia-me", resultado do veneno que o realizador já tinha injectado  nos filmes precedentes e que atingiu em Cannes  o climax de uma autêntica reação em cadeia. Fenómeno estudado por Refn com a  perfídia de um "marketing" subliminar ? Talvez... O que é certo é que o realizador tem sempre a resposta politicamente correta na ponta da língua: sinal de que o filme acerta em cheio no alvo e não deixa ninguém indiferente. A primeira verdade revelada por este filme, de certa forma em consonância com uma estrutura religiosa que se vislumbra de uma narrativa  hermeticamente escondida em símbolos, liturgias  e parábolas visuais, onde o mais importante - como o autor não se cansa de repetir - é o que não se  vê e o que não se ouve, nem o que tem explicação, ou seja, os pressupostos de uma  crença.   Os temas centrais - a culpa e o castigo - mais do que um pretexto para leituras psicanalistas, com Édipos e o diabo a quatro à mistura, tentação difícil de resistir, tanto para quem cria como para quem "interpreta", são deixados ao Deus dará, numa terra de ninguém, não por acaso nessa fronteira do Oriente e do Ocidente, onde qualquer moral tem dificuldade em se ancorar. Habilidade indiscutível, esta de Refn, de chutar para um conveniente canto metafísico estes  monos linguísticos, em prol de uma narrativa mais primária, visceral e sanguinolenta, ao fim e ao cabo a matéria orgânica  foi sempre o âmago dos filmes de Refn e não a alma...  
Matéria mesmo a jeito para um filme  inteiramente nocturno, numa cidade de Banguecoque, cuja luz é mais forte de noite. E para os instintos primários à flôr da pele, lá estão as cores primárias da cinematografia  e a linearidade da música de Karaoke Tailandesa, a balizar os pontos de "check point", ou de transição da narrativa.
Com todos estes elementos, não se esperaria que um personagem como Julian falasse muito ou expressasse muitas emoções, como muita gente desvairadamente reclama. Não neste filme, como é óbvio...
Muita desta dinâmica emocional é veiculada e preenchida por  uma cinematografia que não ignora antes honra as referências (vê-se a razão de  Larry Smith ter trabalhado com Kubrick),    e por um "score" musical a preceito (de Cliff Martinez).
Quanto a ressonâncias de filmes anteriores do realizador, "Valhalla Rising" e "Drive" têm uma estrutura idêntica, como refere Refn e eu concordo.
E que dizer do  pecado capital apontado por muitos críticos da "ripagem"  de referências cinéfilas, de Lynch a Kubrick, passando por Tarantino ?
Bem...elas (influências e não ripagens) estão lá, como se descobre a qualquer cineasta minimamente capaz e com memória, mesmo aqueles supracitados. Refn diz e bem, que a sua tarefa entre filmes é desconstruir e recriar. De olhos bem abertos. Sem aspas. E faz bem.

sábado, 28 de setembro de 2013

☑ O GOSTO DO SAKÉ, de Yasujirô Ozu

O gosto especial da despedida
"Sanma no aji" - Japão (1962).
"An Autumn afternoon" (Inglês).
"O gosto do Saké" (Portugal).
De: Yasujirô Ozu ( realização e argumento - com Kôgo Noda)
Com: Chishu Ryû, Shima Iwashita, Keiji Sada, Noburo Nakamura e Ryûji Kita.
Japonês. Drama. "Comédia". 112 minutos. Cor.
Direção de fotografia: Yûharu Atsuta.
Musica: Takanobu Saito.
 
Sinopse
No início dos anos 60, em Tóquio, o viúvo idoso Hirayama, antigo capitão da marinha e actual gerente de uma empresa, tem três filhos que em graus diferentes dependem de si. Ele vive com os dois filhos mais novos, uma rapariga  (Michiko)  de 24 anos e um teenager (Kazuo), uma vez que o seu filho mais velho (Koichi), já tinha casado. Hirayama, encontra-se muitas vezes com os seus velhos amigos Kawai e Horie, e ocasionalmente com o velho mestre escola Sakuma, para beber e conversar. Sakuma vive com a sua filha que sacrificou o seu casamento para cuidar do velho. Este facto e uma proposta de casamento para  Michiko, faz Hirayama empenhar-se mais no futuro da sua filha...
 

O "Gosto do Saké", é uma despedida memorável de um dos grandes mestres do cinema.
Antes, tínhamos sido deslumbrados  com " Viagem a Tóquio" de 1953, se não o melhor, pelo menos um  dos melhores filmes de sempre, e é bom que se intua essa frase no seu sentido pleno, porque este não é um filme que se extinga no fim do seu visionamento. É um filme que fica permanentemente em exibição, num loop sempre cativante e surpreendente, no cantinho mais nobre das nossas memórias, impondo-se como um tratado imperecível  sobre  os mistérios da alma humana, o amor, a família, a perda e a solidão, num mundo em constante transformação.
Neste último fôlego da sua vasta e memorável obra, Ozu brinda-nos com uma breve e singela elegia que pode ser entendida como mais um capítulo da dinâmica da família japonesa no pós guerra, agora numa cidade de Tóquio, que resplandescente de néons,  se afirma pujante de alegria e de um burburinho de crescente progresso. Com o mesmo senso de contenção e de rigor estético, que se desenhava magnificamente em "A viagem a Tóquio", este filme percorre de forma lenta e pacificante,  subtil e comovente, os labirintos da tradição e da honra familiar, do envelhecimento, do amor, da perda e da solidão.
Os diálogos sobrevoam  com indisfarçável ironia as pequenas conquistas, mas também, as dificuldades e os sonhos desfeitos de um quotidiano ordinário. Mas mais do que as palavras são os rostos e as emoções que deles se desprendem que são o grande triunfo deste filme.
O gosto forte e particular do Saké, une as personagens em torno das pequenas-grandes  questões do dia a dia e por artes mágicas de Ozu, tudo isto também nos  embriaga,  às vezes tendo o mesmo efeito que nos convivas do filme, fazendo-nos sair do nosso centro de gravidade ou da tal  "zona de conforto", como agora se diz, fazendo-nos ver como as coisas progridem, muitas vezes de forma  cambaleante.
Ozu, capta tudo isto com sublime contenção e intimidade, com uma câmara pouco móvel, afastada e  perto do chão, permitindo uma fluência mais natural das cenas nos espaços diversificados  onde ocorrem. Os planos  e respectivos enquadramentos são sóbrios e rigorosos, permitindo-nos comungar verdadeiramente do espírito da narrativa.
Em suma, uma obra prima, que sem pretensões pode mudar algo dentro de quem tem o privilégio de a ver e viver.

domingo, 4 de agosto de 2013

ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA ? - DE CAIO ABREU A GUILHERME PRADO E VICE-VERSA

A propósito de um livro e de um filme com o mesmo título, que se descobriram um após o outro, questionam-se uma vez mais as relações entre literatura e cinema.
 
À partida, os campos estariam bem balizados. Literatura é literatura, cinema é cinema. Duas linguagens distintas, duas formas singulares de ver e interpretar o mundo. O mesmo objecto, diferentes visões.
A realidade é no entanto, um pouco mais complexa, uma vez que no livro de Caio Abreu, não só abundam as referências ao cinema, a propósito do mais corriqueiro episódio do quotidiano, como a sua estrutura narrativa está embebida de uma visão cinematográfica, desde a composição das personagens até ao desenrolar da  ação, como se as teclas que o autor digita, manobrassem ao mesmo tempo uma câmara oculta.
E o filme de Prado, embora se esforce por vincar uma autonomia da forma e do conteúdo, até pelas soluções díspares que concebe para as personagens e para o enredo, deixa-se também  seduzir pelos elementos literários, plasmando o processo de criação literária e jornalística, na própria narrativa cinematográfica. De modo que ao ler-se o livro de Caio Abreu, para além do saborear do texto nas suas inúmeras facetas, prazer intrinsecamente literário e insubstituível por qualquer outra forma de comunicação, somos também colocados perante uma tela  de cinema e não podemos fechar os olhos, o filme está ali, as palavras e as frases, transmutam-se em sons e imagens e nós para além de leitores somos também audiência, não fazemos parte do "cast", como num livro mais tradicional, onde podemos atrever-nos a ser diretores de fotografia , neste livro quanto muito podemos ser auxiliares da iluminação, porque de tudo o resto Caio Abreu cuida ! 
Mas apesar dos "raids" que cada um faz no "território" do outro, para além das pontes entre linguagens tão díspares, as especificidades do livro e do filme acabam por se impor, resultando em obras auto-referenciáveis que se podem (e devem !) ler/ver de forma  autónoma. De modo que é legítimo admitir que o filme que Prado  nos oferece, não é aquele que passa na tela de Caio e que os caminhos que levam à Dulce Veiga que todos procuramos, não são os mesmos. E como corolário, será que é a mesma mulher que vamos encontrar ?
Por isso, vamos por partes. Primeiro:
Dulce Veiga, o livro...
                               
                                              Outra coisa... 


"Onde andará Dulce Veiga ?"
De Caio Fernando Abreu, 1990.
Edição Portuguesa da Quetzal (2012).
Nº de páginas: 280.

"Seu estilo é uma lição de como as feridas tristes podem ser tratadas num texto esplêndido."
Segundo Caderno

"Próximo do filme negro, e adaptado ao cinema em 2008, "Onde Andará Dulce Veiga?" (um romance B) tem como personagens principais uma mulher fatal - a atriz e cantora que provocara um curto furor e que desaparecera nos anos 1960 - e um homem em decadência, moralmente ambíguo - o jornalista e narrador da história - que é incumbido de investigar o misterioso desaparecimento da diva, nos anos 80. A estes junte-se ainda a filha de Dulce Veiga, uma roqueira underground lésbica. Na demanda, que é também uma exploração interior do narrador, descemos ao submundo da música, das drogas, da homossexualidade e da prostituição, e percorremos o Brasil até à floresta amazónica, numa travessia tão violenta quanto poética."

 Caio Fernando de Abreu, escritor e jornalista  Brasileiro, homossexual assumido, morreu em 1996,  vítima de SIDA. Reconhecidamente um dos maiores expoentes da moderna literatura Brasileira, admirador confesso de Clarice Lispector, da qual bebeu o culto da diferença radical, publicou mais de uma dezena de livros entre romances, contos e peças de teatro, para além de numerosas crónicas em jornais e revistas.

Publicado em 1990, Onde andará Dulce Veiga ? é um romance que se impõe pela diferença na forma e no conteúdo. Numa intriga desenhada assumidamente ao jeito de um "film noir" e com uma escrita efervescente e mutante, Caio Abreu mostra-nos um certo "underground" musical, com drogas e homossexualidade à mistura com um mistério que cresce e se adensa, à medida que lemos o seu esplêndido  texto. No fim, na deriva das respostas sobram as perguntas e  fica-nos um quadro de ambiguidade moral  e filosófica, sempre com a música em fundo,que antes embalara as visões oníricas de uma realidade em fuga e agora no fim permanece a mesma, apesar de mudar o cenário... Aliás este é um livro de palavras escritas que se deixam metamorfosear  em notas musicais, logo desde o início: "Eu deveria cantar", abre o livro como um desejo e uma promessa que se materializa na última frase: "E eu comecei a cantar".
Como leitor heterossexual, por muito que os preconceitos sejam intelectualmente metidos em "camisas de forças" e agrilhoados às margens do texto, não me deixa de causar estranheza e desconforto as descrições nuas e cruas do dia a dia de homossexuais e ainda para mais no auge da grande consciência da ameaça da SIDA, que já vitimara intelectuais como Foucault e apesar da simpatia que as personagens possam suscitar, a identificação é um processo problemático ou se quisermos revela-se como na fotografia, em negativo.
Porém o  transporte de situações pessoais para a ficção, acaba por tornar o livro "outra coisa", à imagem da pureza e simplicidade procuradas por Dulce Veiga e desta forma torna a escrita mais profundamente humana, realista e apelativa e o estilo vibrante  dotado de uma  clareza e de um humor notáveis, completa o processo de aderência ao livro, tornando a leitura um acto de puro prazer. 
 

Dulce Veiga, o filme...

O tudo, o nada e o mais além...

"Onde Andará Dulce Veiga  ? "
Brasil (2008)
De Guilherme de Almeida Prado (roteiro e direção)
Com: Maitê Proença, Eriberto Leão, Carolina Dieckmann, Nuno Leal Maia, Christiane Torloni, Cacá Rosset, Oscar Magrini, Julia Lemmertz, Carmo Dalla Vechia e Maíra Chasseraux.
Fotografia de: Adrian Teijido.
Música: Hermelino Neder, Newton Carneiro e Mário Manga. Músicas originais de Tom Jobim e outros.
Drama, "film-noir", mistério, Musical. 135 minutos. Cor.
 
Sinopse:
Nos anos de 1980, um jornalista decide descobrir o paradeiro de Dulce Veiga, uma atriz e cantora que desapareceu misteriosamente nos anos 1960. O que ele não sabe é o quanto terá que descobrir sobre si mesmo antes de encontrá-la. Nesta busca, atravessa o Brasil, do Rio de Janeiro à Floresta Amazónica, e fica cada vez mais obcecado pela personalidade intrigante da filha de Dulce, uma famosa roqueira lésbica.

 
Guilherme Prado não é um cineasta qualquer. Amigo de Caio Abreu, a quem ele dedica a película, esforça-se por fazer um filme que a um só tempo, faça justiça ao génio do escritor e preserve a identidade do seu cinema.
O cinema de Prado é à imagem  do seu alter ego erudito Júlio Bressane,  um caso de problemática classificação, porque dificilmente enquadrável em qualquer dos géneros clássicos. E há quem brinque com isso, inclusive no próprio filme  e etiquete a geração de Prado, surgida em São Paulo nos anos 80, com o rótulo "néon-realismo", ou seja uma mistura de onirismo, nihilismo e realismo, moldados pelo maneirismo e pela cultura Pop e  abrangendo a descodificação das linguagens, o pós-moderno e o pós-tudo...
Os 20 anos que demoraram a encontrar a ficcionada figura de  Dulce Veiga,  parecem ter contagiado  a procura de Guilherme Prado pelo seu filme, como os 6 anos da sua génese comprovam. Guilherme Prado tem fama de perfeccionista e de não poupar tempo nos seus projectos.
Os filmes de Prado são talvez por isso, reconhecidamente complexos  mas dotados de elegância,  e marcados por um primor técnico, que não desmerece as múltiplas referências cinéfilas que neles exibe.
O filme começa com um acto de escrita numa máquina de escrever das antigas que tecla o espaço e o tempo da ação: São Paulo, 198... remetendo-nos ao mesmo tempo para o objecto fílmico: a literatura e o jornalismo.
É a preocupação de Prado em manter as referências do seu cinema e da sua autoralidade, que emerge antes de tudo.
As obsessões de Prado continuam vivas neste Onde Andará Dulce Veiga ?, com o foco dramático concitado sempre nas mulheres, apesar da condução da trama pertencer ao carismático narrador masculino.
Os seus filmes são  habitados sobretudo por personagens femininas fortes e este filme não foge à regra. Não é por acaso que figuras como Maitê Proença, Christiane Torloni e Julia Lemmertz, fazem parte do elenco, e não somente por razões simbólicas, já que  todas elas foram  "heroínas" em filmes anteriores do diretor e no caso de Lemmertz, ensaiando uma "reprise" do seu  filme anterior (A hora mágica, de 1999) na emblemática cena de abertura deste Onde andará Dulce Veiga ?.
Em jeito de "film noir", carregado de mistério, o filme está cheio de cenas de excelente recorte técnico,  nomeadamente os planos inclinados dos corredores  quando o repórter procurava Dulce  ou o "terceiro homem", uma referência mais que intencional ao filme de Carol Reed, transmitindo-nos com esse artíficio todo um senso de desorientação comum ao filme referência. E as referências ao grande cinema, não se ficam por aqui, como comprova a grande clivagem e consequente mutação  que as cenas finais na Amazónia revelam, com todo o seu realismo bucólico encerrando de vez,  os capítulos do artificialismo poluído e decadente de São Paulo, das primeiras fases do filme e que o autor julgou pertinente ilustrar ao jeito de um musical tipo Os chapéus de chuva de Cherburgo, de Jacques Demy. Emoldurada com a chuva da bela Amazónia e com a "Meditação", de Tom Jobim, em fundo...
Talvez o pecado maior deste filme seja curiosamente a demasiada atenção aos pormenores que retirou força ao conjunto, revelando-se aqui e ali, um guião algo titubeante e inconsistente. Na sua adaptação pessoal do livro de Caio Abreu, Prado retirou conscientemente uma  homossexualidade interiorizada ao repórter, tendo-o dotado de uma  maior ambiguidade, que funciona melhor com o restante da matéria fílmica. Assim se explicam as soluções mais politicamente corretas que engendrou para o filme, como a possibilidade de uma relação  entre o repórter e Márcia Felácio das vaginas dentadas ( ***** para os nomes!), coisa nem sonhada no livro. Aqueles que gostariam de ver uma Dulce Veiga - afinal o "leit-motiv" da narrativa - composta com mais densidade psicológica  e menos  de ícone pop decorativa, talvez tenham alguma razão, mas um filme também vale pelo que não mostra e apenas sugere ou deixa antever...


 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

ANDREI TARKOVSKY E WOODY ALLEN

“O espelho”, de Andrei Tarkovsky e “Os dias da Rádio”, de Woody Allen.
Duas formas de fazer cinema.

"O espelho", de Andrei Tarkovsky

 "Zerkalo" (URSS, 1975)
"The mirror" (Inglês); O Espelho (Portugal e Brasil).
De Andrei Tarkovsky, com Margarita Terekhova, Oleg Yankovskiy, Filipp Yankovskiy, Ignat Daniltsev e Nikolay Grinko.
Biografia. Drama. Russo. 108 minutos. Cor.

Sinopse
Às portas da morte, um homem quarentão evoca as memórias do seu passado. A sua infância, a sua mãe, a guerra. Embora as lembranças sejam muito pessoais, é também a memória da nação Russa que vem à tona...







"Os dias da Rádio", de Woody Allen

"Radio Days" (EUA, 1977)
"Os dias da Rádio" (Portugal). "A era do Rádio" (Brasil).
De Woody Allen, com Mike Starr, Paul Herman, Don Pardo, Dianne Wiest, Mia Farrow e Julie Kavner.
Comédia. Inglês. 88 minutos. Cor.

Sinopse
Evocação nostálgica da era dourada da rádio, em 1942 em Rockaway, New York, através de uma série de histórias de personalidades deste meio de comunicação, interligadas com aspetos da vida de uma família de trabalhadores da cidade.








Não creio que haja uma diferença muito grande entre os dois no respeito ao Cinema e aos seus mestres.
São igualmente pessoas com alguma obsessão sobre os porquês do Homem e seus limites. Um profundamente religioso, o outro tocado pela angústia dos que não têm fé.
Os filmes tratam sobretudo da MEMÓRIA.
Em Woody Allen (WA), as recordações ancoram-se na realidade mais ou menos histórica. Realidade objectiva e comum a um grupo, em determinada época. Por acaso a mesma de Andrei Tarkovsky (AT). 
Em AT é uma memória individual, filtrada e exposta tal e qual. Onírica, como são muitas vezes os factos que recordamos, sobretudo quando acarretam lembranças mais ou menos traumáticas, como divórcios  paternos, guerra e conflitos próximos. Só na medida em que é humana é também comum a uma comunidade com um contexto muito diferente do de WA.
A utilização da cor em WA, remete-no para a ilustração (brilhante) de um “glamour” e sublinha a harmonia de um tempo que se recorda quase sempre feliz.
Em AT, serve para tentar descrever estados de espírito que vivem apenas no autor.
O ritmo e o encadeamento das sequências em WA, tentam tornar credível o relato e os atores procuram ser quase figuras "históricas". Transportam-nos para um mundo real, já vivido e credível.
AT não procura contar uma história ou relacionar de forma consistente os factos. Eles existem enquanto são contados. Eles existem para o narrador que os recorda. Não para o espectador.
WA tenta falar com o espectador, fazê-lo viver consigo uma lembrança.
AT fala consigo próprio e apenas tenta colocar em ordem a sua vida passada.
A única questão importante deste meu arrazoado confuso, tentarei explicitar assim:  Porquê estas obras que são tão diferentes como tentei provar, são igualmente dignas da admiração dos amantes de cinema? Eu acho que a chave será a aproximação a qualquer destes filmes com a mesma expectativa e curiosidade com que nos aproximamos de uma outra forma de arte ou assim considerada. Poderemos então perceber que as suas diferenças de forma e conteúdo não são defeitos de um ou de outro. Não devemos recusar um filme como “Os Dias da Rádio” em nome da arte e nunca um filme como “O Espelho” em nome do entretenimento.
Os filmes que aborrecem algumas pessoas não são os mesmos que aborrecem outras.

domingo, 21 de julho de 2013

☑ O SALÃO DE MÚSICA, de Satyajit Ray

Música para o coração 
 
"Jalsaghar" (bengali); "The music room" (Inglês).
Índia (1958).
De Satyajit Ray, com Chhabi Biswas, Sardar Akhtar, Gangapada Basu  e  Padmadevi.
Drama psicológico. Música. 100 minutos. Preto e branco.
 
Sinopse:
Biswambhar Roy é um aristocrata e o último do seu reino. Com o tempo, este outrora grande senhor feudal, foi perdendo dinheiro e poder até ficar à beira da ruína. Mas ele é orgulhoso e acha que deve manter o estilo de vida da sua linhagem. A ostentação é mais visível na maior e sumptuosa divisão do seu palácio: o salão de música. Ele contrata os mais reputados músicos e dançarinas e  convida as pessoas mais importantes da região, para as suas "soirées". A sua mulher tenta controlar os gastos, mas a festa de iniciação religiosa do seu filho adolescente, acarreta a perda das últimas jóias da família. Atingido pela tragédia, ele manda encerrar o salão de música e entra em depressão e letargia, até que numa última "soirée", o resto da fortuna familiar será consumida...

 

Enquanto esperava por financiamento para completar a "trilogia de Apu", Ray teve ainda talento e meios para nos brindar com outra obra prima, que em termos de notoriedade é ofuscada por aquela, mas na realidade trata-se de um dos grandes filmes de sempre, não sendo por acaso que consta no vigésimo lugar na lista dos 100 melhores filmes de sempre do "Cahiers de cinema".
Este "salão de música", tem muito de pessoal  ou não fossem as origens do realizador similares às da aristocrática personagem do filme. E isso nota-se na atenção que Ray concede aos ínfimos pormenores do cenário e da encenação.
A história de um velho aristocrata arruinado, perseguido por dolorosas recordações e consumido pela culpa do trágico fim dos seus únicos familiares, é retratada com a mesma serenidade espiritual e complexidade emocional e com idêntica riqueza gráfica, já aparente nas duas obras precedentes, "Pather Panchali" e "Aparajito".
O ator Chhabi Biswas, que representa o "zamindar" arruinado Huzur Biswambhar, tem uma comovente "performance", neste drama psicológico, sendo inesquecíveis os close-ups das suas expressões, reveladoras da profundidade das suas emoções. E Ray ficou tão devastado com a sua morte em 1962, que nunca mais retratou personagens masculinas maduras nos seus guiões.
Roy, outrora incontestável senhor da região é nestes tempos ultrapassado por um novo rico, sem sensibilidade e sem cultura e não passa então de uma caricatura de poder,  apenas passando para os outros  a imagem imutável  de um trágico orgulho. E qual rei Lear, desperta em nós a mesma empatia, doravante a vertiginosa fuga à realidade. O seu último reduto é o magnificente salão de música e os  dispendiosos concertos que nele patrocina. 
O salão de música, com todo o luxo que ostenta, os retratos da linhagem aristocrática nas suas paredes, o candelabro e o enorme espelho que reflecte a pose orgulhosa do seu proprietário, é ele próprio uma extensão  física e espiritual de Roy e um personagem animado que se exprime tanto pelo silêncio em contraste metafísico com  a eloquente música das "soirées", como por transformações subtis, como oscilações no candelabro e variações de luminosidade que reflectem os humores e as expectativas do seu dono.
Por tudo isto, as sequências dos concertos são um bálsamo para os sentidos.
Mas este filme é sobretudo um fascinante retrato psicológico, de um homem na terceira idade da vida, que tudo teve e tudo perdeu, menos o seu espírito indomável que nele sobrevive. Estamos perante uma imponente obra de arte, um legado impressionante de beleza e espírito. 
 
 

sábado, 20 de julho de 2013

☑ LORE, de Cate Shortland

Uma história para além da inocência

"Lore"
Austrália, Alemanha e UK (2012).
De Cate Shortland, com Saskia Rosendahl, Nele Trebs, Ursina Lardi e Kai-Peter Malina. 
Argumento de Cate Shortland e Robin Mukherjee, baseado no romance de Rachel Seiffert "The drak room" (2001).
Drama. Thriler. Guerra. 109 minutos. Cor.
Sinopse: 
Lore, filha de oficiais das SS entretanto presos, atravessa uma Alemanha derrotada e ocupada pelos aliados, desde a Floresta negra até Hamburgo, casa da sua avó. Responsável pelos seus quatro irmãos menores e na companhia de um estranho, em quem tem que confiar apesar da sua pessoa significar à partida ódio e desprezo, enfrenta uma longa caminhada exterior a par de uma não menos penosa  viagem interior, num doloroso processo de amadurecimento.

 
Já em "Salto mortal", o seu primeiro filme, realizado em 2004, Cate Shortland, ensaiara um problemático processo de amadurecimento de uma "teenager", que abandona a casa dos seus pais em busca de uma vida autónoma.
Neste seu segundo registo, a realizadora Australiana, volta ao de leve ao tema, mas torna o processo de emancipação muito mais complexo e doloroso. Neste filme estamos perante uma "teenager", que forçada pelas circunstâncias tem que rever toda a sua vida e os seus valores  para amadurecer rápidamente e sob a sua égide guiar o processo de crescimento dos seus irmãos mais pequenos.
Cate Shortland, de origem judia, volta a um tema quase tabu e a um terreno deveras pantanoso que ainda desperta mais emoção que razão e em que se torna difícil pisar solo firme, fora  da "verdade" oficial e socialmente aceite. É por isso, que conceder aos nazis derrotados, invadidos e humilhados, a possibilidade de exporem o seu  ponto de vista, sem que isso signifique a defesa do negacionismo, é algo que com o perfil desta realizadora e com esta escala de visibilidade é novo e importa realçar, mesmo que se percebam as razões pelas quais  tal abordagem provoque a fúria e o repúdio do alinhamento crítico mais tradicional.
Na verdade, Cate usa apenas a Alemanha destroçada e a sua ideologia em ruínas como um pretexto e um mapa para ilustrar uma história de crescimento e de superação, de perda da inocência  e de transição para a idade adulta, que poderia ser uma metáfora da própria Alemanha, se a realizadora  não se furtasse inteligente e conscientemente ao fundo da questão política e não se refugiasse no essencial das questões humanas, permidindo-se apenas inquietar-nos com um jogo de afetos baralhados por preconceitos. E mais ainda, subvertendo os papeis tradicionais atribuidos nas fábulas  do mundo infantil, tão repetidamente vindas à baila, na narrativa. Nesta história o "capuchinho vermelho" que se desloca a casa da avozinha, não é tão linearmente indefeso ou um exemplo de suprema bondade, nem o "lobo mau" que a persegue, tão radicalmente perigoso, como as aparências sugerem. E para baralhar, não sabemos realmente quem é aquela rapariga que chegou a casa da avó e quem a espera. Em todo o caso a perda da inocência infantil e o processo de superação e crescimento são  assinalados simbolicamente pela quebra dos pequenos animais da floresta, em cerâmica...
O filme é de certa forma um duplo "road movie", a um só tempo, interior no processo de cicatrização das feridas e na superação dos traumas e exterior na descrição factual de uma longa viagem num país destroçado pela guerra e dividido pelos vencedores.
E Cate Shortland entra a matar nos rostos dos personagens em rigorosos enquadramentos e oportunos close-ups que revelam o que não parece visivel e passivel de explicação por palavras, como na cena de grande tensão e conflito interior, em que Lore, uma excelente Saskia Rosendahl, usa o alegado judeu para a sua  masturbação.
Por tudo isto um filme importante e imperdível, uma das gratas surpresas da colheita cinéfila de 2012.


ENTREVISTA DE CATE SHORTLAND



Publicada por Pilar de Paranhos




IMPRESSÃO DO FAROL DE LEÇA SOBRE O FILME LORE

Um filme muito interessante.
O tema não é muito comum: O colapso na Alemanha.
O drama dos vencidos e principalmente dos que pouco estavam envolvidos (pela sua condição) no dia a dia do conflito.
O exodo de uma familia através da terra ocupada e cheia de armadilhas, enfrentando a sua própria visão dos outros, construida por anos de doutrina.
Um filme que consegue manter a distância e a ambiguidade própria das situações em que a moral e os principios éticos estão submetidos a uma pressão externa que os faz por vezes derreter. 


Publicada por O Farol de Leça

☑ A TRILOGIA DE APU, de Satyajit Ray

Três vezes cinema em estado puro

Em 1955, Satyajit Ray, dá-se a conhecer ao mundo com um trabalho  gigantesco, fazendo juz ao seu imponente porte físico de quase dois metros. Sem qualquer experiência prévia  nas artes cinematográficas e munido apenas de boas ideias, de uma delicada sensibilidade humana e de um apurado sentido estético, atreveu-se a realizar uma das obras mais marcantes do cinema. Com a dose habitual de exagero que inspiram as figuras superlativas, mas genuinamente impressionado, Akira Kurosawa, disse uma vez que alguém que nunca viu um filme de Ray equivalia a  ter vivido sem ter visto a lua e o sol.

Os três filmes da trilogia, que se completou apenas em 1959, com a ajuda de um subsídio estatal e com outros trabalhos de permeio, como o fantástico "A sala de música" de 1958, podem ser vistos individualmente como obras singulares e plenas, mas é no seu conjunto que mais sobressai  a delicadeza do retrato das grandezas, fragilidades e limites do ser humano .
Admirável obra de arte, marcada ainda por uma fotografia prodigiosa de Subrata Mitra e pela música inspiradora de Ravi Shankar.


☑ O LAMENTO DA VEREDA

"Pather Panchali"
India (1955). Linguagem: Bengali.
De Satyajit Ray, com Kanu Bannerjee, Karuna Bannerjee e Chunibala Devi.
Drama. 119 minutos. Preto e branco.
Argumento de Satyajit Ray a partir do romance de Bibhutibhushan Bandopadhyay (Banerjee) 
Sinopse:
No início do século XX, Apu é um rapaz nascido de uma pobre família bramanica, numa aldeia em Bengala na Índia.O pai é um sacerdote e poeta, que não ganha o suficiente para sustentar a família. Durga, a irmã de Apu, rouba fruta dos pomares dos vizinhos para alimentar uma tia idosa, mas este é apenas um dos muitos problemas que a mãe das crianças tem para assegurar a sobrevivência da família.

 
Antes de mais, este é um filme sobre a contingência e a vulnerabilidade da condição humana, reveladas pela perspectiva dos seus extremos etários: Durga é a menina que rouba fruta, para a sua pobre familiar idosa, a quem observa atentamente enquanto esta se alimenta. A velha, por sua vez é a companhia privilegiada da menina, a quem conta histórias de embalar.
Este é também por isso, um filme sobre a prevalência da solidariedade humana sobre os preceitos morais encarados de um ponto de vista formal e abstrato.
Apu, o irmão mais novo, assiste a tudo isto com a inocência e a cumplicidade do seu olhar infantil. Ele estende essa natural curiosidade a outros aspectos da dinâmica do lar e da comunidade, apercebendo-se do trabalho precário e mal pago do pai, do significado das suas ausências e comungando dos seus sonhos e frustrações, reflectidos nas condições de penúria da família. Pather Panchali, é a este respeito, um  retrato de sobrevivência e tenacidade humana no contexto de uma  extrema pobreza.
Com a irmã, Apu aventura-se na descoberta do mundo desconhecido que se abre para além dos limites da comunidade, explorando as florestas e os prados, cortados pelo  caminho do ferro, que abre horizontes ainda mais longínquos do que o olhar permite.
Este é também um notável filme sobre a infância, o crescimento e a descoberta do mundo, que Ray com uma cinematografia bela e irrepreensível partilha connosco.
Quando a irmã morre, Apu depara-se pela primeira vez com a ausência irreversível de alguém que ama. E logo trata de extrair a primeira consequência dessa perda dolorosa, protegendo a memória da irmã, ao fazer desaparecer para sempre o colar que ela roubou e que mantinha escondido. Mais do que a consciência da perda irreparável, este  filme valoriza o papel da memória e da proteção devidas a quem se ama.
A morte solitária da idosa, na sua pungente solidão e comunhão com os elementos é o contraponto natural da morte precoce e inesperada da menina, em imagens que marcam pela sua lógica orgânica.
Ao contemplar e se deter nos ínfimos pormenores dos corpos e nos seus irrepetíveis movimentos e ao  reflectir neles a radical autonomia e inquietante indiferença do meio físico, Ray opera o milagre da revelação do espírito secreto  das pessoas, dos objectos e da natureza. 
Uma serena contemplação de um mundo em  vital  mutação  e uma tocante meditação sobre o crescimento, e a consciência da fragilidade e dos limites da espécie humana. 


☑ O INVENCÍVEL
"Aparajito"
India (1956). Linguagem: Bengali.
De Satyajit Ray, com Kamala Adhikari, Lalchand  Banerjee e Kali Bannerjee. 
Argumento de Satyajit Ray a partir do romance de Bibhutibhushan Bandopadhyay (Banerjee)
Drama. 110 minutos. Preto e branco.
Sinopse:
Apu vive em Benares, onde o seu pai é sacerdote. Após a morte deste, a família move-se para uma aldeia Bengali, onde é ajudada por um tio. Apu esforça-se para entrar na escola local e logo se destaca, ganhando uma bolsa para estudar em Calcutá. Isso implica deixar a sua mãe já doente, sozinha e ainda trabalhar árduamente em Calcutá para ajudar a pagar os estudos.


Este filme inicia-se como a sequência final da viagem iniciada em Pather Panchali, da aldeia bangali até à cidade santa dos Hindús, Benares (Varanasi), nas margens do Ganges, onde o pai de Apu conseguira um emprego como sacerdote.A primeira parte deste filme passa-se, portanto, em Benares e retrata o quotidiano de Apu e da sua família num cortiço da velha cidade, mostrado com a mestria e a simplidade que Ray empresta à sua obra, sobressaindo a bela fotografia realista da velha cidade Hindú e dos seus rituais.Um quotidiano ordinário de uma família pobre mas remediada, até que Apu é de novo confrontado com a perda, agora do pai, o que  precipita  nova mudança para outro ponto da região de Bengala, sob a proteção de um tio. É aqui, nesta segunda fase do filme, que o adolescente Apu começa a lutar por um futuro melhor, esforçando-se nos estudos, que o levariam na terceira parte do filme a Calcutá, onde inicia estudos universitários, em condições particularmente dificeis. É  nesta fase realista, que o filme mergulha nas questões mais marcadamente sociais, como as condições de habitabilidade e de emprego na populosa e pobre Calcutá dos anos 20.  Mas é curiosamente  nesta fase que o filme emerge como um retrato poético e pungente das relações entre mãe e filho, trazendo de volta o melhor do mundo humano revelado em "Pather Panchali".
Uma vez mais, um prodígio de sensibilidade e de admirável simplicidade nos retratos humanos.Uma visão a um tempo realista e poética do sofrimento humano, da saudade e da perda. Um hino à tenacidade dos que perseguem o rasto dos sonhos.
Imagens que jamais se deixam apagar na lenta erosão das nossas memórias.








☑ O MUNDO DE APU

"Apu Sansar"
India (1959). Linguagem: Bengali.
De Satyajit Ray, com Soumitra Chatterjee, Sharmila Tagore e Alok Chakravarty.
Argumento de Satyajit Ray a partir do romance de Bibhutibhushan Bandopadhyay (Banerjee)
Drama. 105 minutos. Preto e branco.
Sinopse:
Apu acabou os estudos, sem o bacharelato e não tem trabalho fixo, vivendo de biscates e acalentando o sonho de ser escritor.Um velho amigo dos estudos convida-o para um casamento na sua terra natal e Apu viaja com ele, acabando por ser ele a substituir o noivo, que se revelou incapaz. Um casamento de circunstância que se viria a revelar uma grande história de amor com um fim trágico, quando Aparna a sua mulher morre no parto, atirando Apu para um enorme sofrimento e desespero.


O fecho desta trilogia, traz-nos Apu na idade adulta, embrenhado na luta pela sobrevivência em condições de sub-empregabilidade e de pobreza. A visita de um velho amigo de estudos, melhor sucedido do que ele, constitui um renovado impulso ao velho sonho de ser escritor, adormecido e subjugado pela lógica  da dura realidade do dia a dia. Este facto e a circunstância de um casamento inesperado, projectam este filme para a dinâmica e imprevisibilidade afectiva das relações inter-pessoais, especialmente amorosas e não se resume à mera implementação de um guião romântico, uma vez que Ray não perde de vista as referências sociais que se impõem pelos olhos adentro e não cai no sentimentalismo lamechas.
Um filme que não destoa da tónica dominante da trilogia, mas na realidade, está um furo abaixo dos dois precedentes.
Não obstante, trata-se de uma  meditação intimista sobre a validade e a adequação dos sonhos à realidade quotidiana. Mais uma vez um retrato pungente e sublime sobre a perda e a hipótese de um recomeço.