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sábado, 28 de setembro de 2013

☑ O GOSTO DO SAKÉ, de Yasujirô Ozu

O gosto especial da despedida
"Sanma no aji" - Japão (1962).
"An Autumn afternoon" (Inglês).
"O gosto do Saké" (Portugal).
De: Yasujirô Ozu ( realização e argumento - com Kôgo Noda)
Com: Chishu Ryû, Shima Iwashita, Keiji Sada, Noburo Nakamura e Ryûji Kita.
Japonês. Drama. "Comédia". 112 minutos. Cor.
Direção de fotografia: Yûharu Atsuta.
Musica: Takanobu Saito.
 
Sinopse
No início dos anos 60, em Tóquio, o viúvo idoso Hirayama, antigo capitão da marinha e actual gerente de uma empresa, tem três filhos que em graus diferentes dependem de si. Ele vive com os dois filhos mais novos, uma rapariga  (Michiko)  de 24 anos e um teenager (Kazuo), uma vez que o seu filho mais velho (Koichi), já tinha casado. Hirayama, encontra-se muitas vezes com os seus velhos amigos Kawai e Horie, e ocasionalmente com o velho mestre escola Sakuma, para beber e conversar. Sakuma vive com a sua filha que sacrificou o seu casamento para cuidar do velho. Este facto e uma proposta de casamento para  Michiko, faz Hirayama empenhar-se mais no futuro da sua filha...
 

O "Gosto do Saké", é uma despedida memorável de um dos grandes mestres do cinema.
Antes, tínhamos sido deslumbrados  com " Viagem a Tóquio" de 1953, se não o melhor, pelo menos um  dos melhores filmes de sempre, e é bom que se intua essa frase no seu sentido pleno, porque este não é um filme que se extinga no fim do seu visionamento. É um filme que fica permanentemente em exibição, num loop sempre cativante e surpreendente, no cantinho mais nobre das nossas memórias, impondo-se como um tratado imperecível  sobre  os mistérios da alma humana, o amor, a família, a perda e a solidão, num mundo em constante transformação.
Neste último fôlego da sua vasta e memorável obra, Ozu brinda-nos com uma breve e singela elegia que pode ser entendida como mais um capítulo da dinâmica da família japonesa no pós guerra, agora numa cidade de Tóquio, que resplandescente de néons,  se afirma pujante de alegria e de um burburinho de crescente progresso. Com o mesmo senso de contenção e de rigor estético, que se desenhava magnificamente em "A viagem a Tóquio", este filme percorre de forma lenta e pacificante,  subtil e comovente, os labirintos da tradição e da honra familiar, do envelhecimento, do amor, da perda e da solidão.
Os diálogos sobrevoam  com indisfarçável ironia as pequenas conquistas, mas também, as dificuldades e os sonhos desfeitos de um quotidiano ordinário. Mas mais do que as palavras são os rostos e as emoções que deles se desprendem que são o grande triunfo deste filme.
O gosto forte e particular do Saké, une as personagens em torno das pequenas-grandes  questões do dia a dia e por artes mágicas de Ozu, tudo isto também nos  embriaga,  às vezes tendo o mesmo efeito que nos convivas do filme, fazendo-nos sair do nosso centro de gravidade ou da tal  "zona de conforto", como agora se diz, fazendo-nos ver como as coisas progridem, muitas vezes de forma  cambaleante.
Ozu, capta tudo isto com sublime contenção e intimidade, com uma câmara pouco móvel, afastada e  perto do chão, permitindo uma fluência mais natural das cenas nos espaços diversificados  onde ocorrem. Os planos  e respectivos enquadramentos são sóbrios e rigorosos, permitindo-nos comungar verdadeiramente do espírito da narrativa.
Em suma, uma obra prima, que sem pretensões pode mudar algo dentro de quem tem o privilégio de a ver e viver.

domingo, 4 de agosto de 2013

ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA ? - DE CAIO ABREU A GUILHERME PRADO E VICE-VERSA

A propósito de um livro e de um filme com o mesmo título, que se descobriram um após o outro, questionam-se uma vez mais as relações entre literatura e cinema.
 
À partida, os campos estariam bem balizados. Literatura é literatura, cinema é cinema. Duas linguagens distintas, duas formas singulares de ver e interpretar o mundo. O mesmo objecto, diferentes visões.
A realidade é no entanto, um pouco mais complexa, uma vez que no livro de Caio Abreu, não só abundam as referências ao cinema, a propósito do mais corriqueiro episódio do quotidiano, como a sua estrutura narrativa está embebida de uma visão cinematográfica, desde a composição das personagens até ao desenrolar da  ação, como se as teclas que o autor digita, manobrassem ao mesmo tempo uma câmara oculta.
E o filme de Prado, embora se esforce por vincar uma autonomia da forma e do conteúdo, até pelas soluções díspares que concebe para as personagens e para o enredo, deixa-se também  seduzir pelos elementos literários, plasmando o processo de criação literária e jornalística, na própria narrativa cinematográfica. De modo que ao ler-se o livro de Caio Abreu, para além do saborear do texto nas suas inúmeras facetas, prazer intrinsecamente literário e insubstituível por qualquer outra forma de comunicação, somos também colocados perante uma tela  de cinema e não podemos fechar os olhos, o filme está ali, as palavras e as frases, transmutam-se em sons e imagens e nós para além de leitores somos também audiência, não fazemos parte do "cast", como num livro mais tradicional, onde podemos atrever-nos a ser diretores de fotografia , neste livro quanto muito podemos ser auxiliares da iluminação, porque de tudo o resto Caio Abreu cuida ! 
Mas apesar dos "raids" que cada um faz no "território" do outro, para além das pontes entre linguagens tão díspares, as especificidades do livro e do filme acabam por se impor, resultando em obras auto-referenciáveis que se podem (e devem !) ler/ver de forma  autónoma. De modo que é legítimo admitir que o filme que Prado  nos oferece, não é aquele que passa na tela de Caio e que os caminhos que levam à Dulce Veiga que todos procuramos, não são os mesmos. E como corolário, será que é a mesma mulher que vamos encontrar ?
Por isso, vamos por partes. Primeiro:
Dulce Veiga, o livro...
                               
                                              Outra coisa... 


"Onde andará Dulce Veiga ?"
De Caio Fernando Abreu, 1990.
Edição Portuguesa da Quetzal (2012).
Nº de páginas: 280.

"Seu estilo é uma lição de como as feridas tristes podem ser tratadas num texto esplêndido."
Segundo Caderno

"Próximo do filme negro, e adaptado ao cinema em 2008, "Onde Andará Dulce Veiga?" (um romance B) tem como personagens principais uma mulher fatal - a atriz e cantora que provocara um curto furor e que desaparecera nos anos 1960 - e um homem em decadência, moralmente ambíguo - o jornalista e narrador da história - que é incumbido de investigar o misterioso desaparecimento da diva, nos anos 80. A estes junte-se ainda a filha de Dulce Veiga, uma roqueira underground lésbica. Na demanda, que é também uma exploração interior do narrador, descemos ao submundo da música, das drogas, da homossexualidade e da prostituição, e percorremos o Brasil até à floresta amazónica, numa travessia tão violenta quanto poética."

 Caio Fernando de Abreu, escritor e jornalista  Brasileiro, homossexual assumido, morreu em 1996,  vítima de SIDA. Reconhecidamente um dos maiores expoentes da moderna literatura Brasileira, admirador confesso de Clarice Lispector, da qual bebeu o culto da diferença radical, publicou mais de uma dezena de livros entre romances, contos e peças de teatro, para além de numerosas crónicas em jornais e revistas.

Publicado em 1990, Onde andará Dulce Veiga ? é um romance que se impõe pela diferença na forma e no conteúdo. Numa intriga desenhada assumidamente ao jeito de um "film noir" e com uma escrita efervescente e mutante, Caio Abreu mostra-nos um certo "underground" musical, com drogas e homossexualidade à mistura com um mistério que cresce e se adensa, à medida que lemos o seu esplêndido  texto. No fim, na deriva das respostas sobram as perguntas e  fica-nos um quadro de ambiguidade moral  e filosófica, sempre com a música em fundo,que antes embalara as visões oníricas de uma realidade em fuga e agora no fim permanece a mesma, apesar de mudar o cenário... Aliás este é um livro de palavras escritas que se deixam metamorfosear  em notas musicais, logo desde o início: "Eu deveria cantar", abre o livro como um desejo e uma promessa que se materializa na última frase: "E eu comecei a cantar".
Como leitor heterossexual, por muito que os preconceitos sejam intelectualmente metidos em "camisas de forças" e agrilhoados às margens do texto, não me deixa de causar estranheza e desconforto as descrições nuas e cruas do dia a dia de homossexuais e ainda para mais no auge da grande consciência da ameaça da SIDA, que já vitimara intelectuais como Foucault e apesar da simpatia que as personagens possam suscitar, a identificação é um processo problemático ou se quisermos revela-se como na fotografia, em negativo.
Porém o  transporte de situações pessoais para a ficção, acaba por tornar o livro "outra coisa", à imagem da pureza e simplicidade procuradas por Dulce Veiga e desta forma torna a escrita mais profundamente humana, realista e apelativa e o estilo vibrante  dotado de uma  clareza e de um humor notáveis, completa o processo de aderência ao livro, tornando a leitura um acto de puro prazer. 
 

Dulce Veiga, o filme...

O tudo, o nada e o mais além...

"Onde Andará Dulce Veiga  ? "
Brasil (2008)
De Guilherme de Almeida Prado (roteiro e direção)
Com: Maitê Proença, Eriberto Leão, Carolina Dieckmann, Nuno Leal Maia, Christiane Torloni, Cacá Rosset, Oscar Magrini, Julia Lemmertz, Carmo Dalla Vechia e Maíra Chasseraux.
Fotografia de: Adrian Teijido.
Música: Hermelino Neder, Newton Carneiro e Mário Manga. Músicas originais de Tom Jobim e outros.
Drama, "film-noir", mistério, Musical. 135 minutos. Cor.
 
Sinopse:
Nos anos de 1980, um jornalista decide descobrir o paradeiro de Dulce Veiga, uma atriz e cantora que desapareceu misteriosamente nos anos 1960. O que ele não sabe é o quanto terá que descobrir sobre si mesmo antes de encontrá-la. Nesta busca, atravessa o Brasil, do Rio de Janeiro à Floresta Amazónica, e fica cada vez mais obcecado pela personalidade intrigante da filha de Dulce, uma famosa roqueira lésbica.

 
Guilherme Prado não é um cineasta qualquer. Amigo de Caio Abreu, a quem ele dedica a película, esforça-se por fazer um filme que a um só tempo, faça justiça ao génio do escritor e preserve a identidade do seu cinema.
O cinema de Prado é à imagem  do seu alter ego erudito Júlio Bressane,  um caso de problemática classificação, porque dificilmente enquadrável em qualquer dos géneros clássicos. E há quem brinque com isso, inclusive no próprio filme  e etiquete a geração de Prado, surgida em São Paulo nos anos 80, com o rótulo "néon-realismo", ou seja uma mistura de onirismo, nihilismo e realismo, moldados pelo maneirismo e pela cultura Pop e  abrangendo a descodificação das linguagens, o pós-moderno e o pós-tudo...
Os 20 anos que demoraram a encontrar a ficcionada figura de  Dulce Veiga,  parecem ter contagiado  a procura de Guilherme Prado pelo seu filme, como os 6 anos da sua génese comprovam. Guilherme Prado tem fama de perfeccionista e de não poupar tempo nos seus projectos.
Os filmes de Prado são talvez por isso, reconhecidamente complexos  mas dotados de elegância,  e marcados por um primor técnico, que não desmerece as múltiplas referências cinéfilas que neles exibe.
O filme começa com um acto de escrita numa máquina de escrever das antigas que tecla o espaço e o tempo da ação: São Paulo, 198... remetendo-nos ao mesmo tempo para o objecto fílmico: a literatura e o jornalismo.
É a preocupação de Prado em manter as referências do seu cinema e da sua autoralidade, que emerge antes de tudo.
As obsessões de Prado continuam vivas neste Onde Andará Dulce Veiga ?, com o foco dramático concitado sempre nas mulheres, apesar da condução da trama pertencer ao carismático narrador masculino.
Os seus filmes são  habitados sobretudo por personagens femininas fortes e este filme não foge à regra. Não é por acaso que figuras como Maitê Proença, Christiane Torloni e Julia Lemmertz, fazem parte do elenco, e não somente por razões simbólicas, já que  todas elas foram  "heroínas" em filmes anteriores do diretor e no caso de Lemmertz, ensaiando uma "reprise" do seu  filme anterior (A hora mágica, de 1999) na emblemática cena de abertura deste Onde andará Dulce Veiga ?.
Em jeito de "film noir", carregado de mistério, o filme está cheio de cenas de excelente recorte técnico,  nomeadamente os planos inclinados dos corredores  quando o repórter procurava Dulce  ou o "terceiro homem", uma referência mais que intencional ao filme de Carol Reed, transmitindo-nos com esse artíficio todo um senso de desorientação comum ao filme referência. E as referências ao grande cinema, não se ficam por aqui, como comprova a grande clivagem e consequente mutação  que as cenas finais na Amazónia revelam, com todo o seu realismo bucólico encerrando de vez,  os capítulos do artificialismo poluído e decadente de São Paulo, das primeiras fases do filme e que o autor julgou pertinente ilustrar ao jeito de um musical tipo Os chapéus de chuva de Cherburgo, de Jacques Demy. Emoldurada com a chuva da bela Amazónia e com a "Meditação", de Tom Jobim, em fundo...
Talvez o pecado maior deste filme seja curiosamente a demasiada atenção aos pormenores que retirou força ao conjunto, revelando-se aqui e ali, um guião algo titubeante e inconsistente. Na sua adaptação pessoal do livro de Caio Abreu, Prado retirou conscientemente uma  homossexualidade interiorizada ao repórter, tendo-o dotado de uma  maior ambiguidade, que funciona melhor com o restante da matéria fílmica. Assim se explicam as soluções mais politicamente corretas que engendrou para o filme, como a possibilidade de uma relação  entre o repórter e Márcia Felácio das vaginas dentadas ( ***** para os nomes!), coisa nem sonhada no livro. Aqueles que gostariam de ver uma Dulce Veiga - afinal o "leit-motiv" da narrativa - composta com mais densidade psicológica  e menos  de ícone pop decorativa, talvez tenham alguma razão, mas um filme também vale pelo que não mostra e apenas sugere ou deixa antever...


 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

ANDREI TARKOVSKY E WOODY ALLEN

“O espelho”, de Andrei Tarkovsky e “Os dias da Rádio”, de Woody Allen.
Duas formas de fazer cinema.

"O espelho", de Andrei Tarkovsky

 "Zerkalo" (URSS, 1975)
"The mirror" (Inglês); O Espelho (Portugal e Brasil).
De Andrei Tarkovsky, com Margarita Terekhova, Oleg Yankovskiy, Filipp Yankovskiy, Ignat Daniltsev e Nikolay Grinko.
Biografia. Drama. Russo. 108 minutos. Cor.

Sinopse
Às portas da morte, um homem quarentão evoca as memórias do seu passado. A sua infância, a sua mãe, a guerra. Embora as lembranças sejam muito pessoais, é também a memória da nação Russa que vem à tona...







"Os dias da Rádio", de Woody Allen

"Radio Days" (EUA, 1977)
"Os dias da Rádio" (Portugal). "A era do Rádio" (Brasil).
De Woody Allen, com Mike Starr, Paul Herman, Don Pardo, Dianne Wiest, Mia Farrow e Julie Kavner.
Comédia. Inglês. 88 minutos. Cor.

Sinopse
Evocação nostálgica da era dourada da rádio, em 1942 em Rockaway, New York, através de uma série de histórias de personalidades deste meio de comunicação, interligadas com aspetos da vida de uma família de trabalhadores da cidade.








Não creio que haja uma diferença muito grande entre os dois no respeito ao Cinema e aos seus mestres.
São igualmente pessoas com alguma obsessão sobre os porquês do Homem e seus limites. Um profundamente religioso, o outro tocado pela angústia dos que não têm fé.
Os filmes tratam sobretudo da MEMÓRIA.
Em Woody Allen (WA), as recordações ancoram-se na realidade mais ou menos histórica. Realidade objectiva e comum a um grupo, em determinada época. Por acaso a mesma de Andrei Tarkovsky (AT). 
Em AT é uma memória individual, filtrada e exposta tal e qual. Onírica, como são muitas vezes os factos que recordamos, sobretudo quando acarretam lembranças mais ou menos traumáticas, como divórcios  paternos, guerra e conflitos próximos. Só na medida em que é humana é também comum a uma comunidade com um contexto muito diferente do de WA.
A utilização da cor em WA, remete-no para a ilustração (brilhante) de um “glamour” e sublinha a harmonia de um tempo que se recorda quase sempre feliz.
Em AT, serve para tentar descrever estados de espírito que vivem apenas no autor.
O ritmo e o encadeamento das sequências em WA, tentam tornar credível o relato e os atores procuram ser quase figuras "históricas". Transportam-nos para um mundo real, já vivido e credível.
AT não procura contar uma história ou relacionar de forma consistente os factos. Eles existem enquanto são contados. Eles existem para o narrador que os recorda. Não para o espectador.
WA tenta falar com o espectador, fazê-lo viver consigo uma lembrança.
AT fala consigo próprio e apenas tenta colocar em ordem a sua vida passada.
A única questão importante deste meu arrazoado confuso, tentarei explicitar assim:  Porquê estas obras que são tão diferentes como tentei provar, são igualmente dignas da admiração dos amantes de cinema? Eu acho que a chave será a aproximação a qualquer destes filmes com a mesma expectativa e curiosidade com que nos aproximamos de uma outra forma de arte ou assim considerada. Poderemos então perceber que as suas diferenças de forma e conteúdo não são defeitos de um ou de outro. Não devemos recusar um filme como “Os Dias da Rádio” em nome da arte e nunca um filme como “O Espelho” em nome do entretenimento.
Os filmes que aborrecem algumas pessoas não são os mesmos que aborrecem outras.

domingo, 21 de julho de 2013

☑ O SALÃO DE MÚSICA, de Satyajit Ray

Música para o coração 
 
"Jalsaghar" (bengali); "The music room" (Inglês).
Índia (1958).
De Satyajit Ray, com Chhabi Biswas, Sardar Akhtar, Gangapada Basu  e  Padmadevi.
Drama psicológico. Música. 100 minutos. Preto e branco.
 
Sinopse:
Biswambhar Roy é um aristocrata e o último do seu reino. Com o tempo, este outrora grande senhor feudal, foi perdendo dinheiro e poder até ficar à beira da ruína. Mas ele é orgulhoso e acha que deve manter o estilo de vida da sua linhagem. A ostentação é mais visível na maior e sumptuosa divisão do seu palácio: o salão de música. Ele contrata os mais reputados músicos e dançarinas e  convida as pessoas mais importantes da região, para as suas "soirées". A sua mulher tenta controlar os gastos, mas a festa de iniciação religiosa do seu filho adolescente, acarreta a perda das últimas jóias da família. Atingido pela tragédia, ele manda encerrar o salão de música e entra em depressão e letargia, até que numa última "soirée", o resto da fortuna familiar será consumida...

 

Enquanto esperava por financiamento para completar a "trilogia de Apu", Ray teve ainda talento e meios para nos brindar com outra obra prima, que em termos de notoriedade é ofuscada por aquela, mas na realidade trata-se de um dos grandes filmes de sempre, não sendo por acaso que consta no vigésimo lugar na lista dos 100 melhores filmes de sempre do "Cahiers de cinema".
Este "salão de música", tem muito de pessoal  ou não fossem as origens do realizador similares às da aristocrática personagem do filme. E isso nota-se na atenção que Ray concede aos ínfimos pormenores do cenário e da encenação.
A história de um velho aristocrata arruinado, perseguido por dolorosas recordações e consumido pela culpa do trágico fim dos seus únicos familiares, é retratada com a mesma serenidade espiritual e complexidade emocional e com idêntica riqueza gráfica, já aparente nas duas obras precedentes, "Pather Panchali" e "Aparajito".
O ator Chhabi Biswas, que representa o "zamindar" arruinado Huzur Biswambhar, tem uma comovente "performance", neste drama psicológico, sendo inesquecíveis os close-ups das suas expressões, reveladoras da profundidade das suas emoções. E Ray ficou tão devastado com a sua morte em 1962, que nunca mais retratou personagens masculinas maduras nos seus guiões.
Roy, outrora incontestável senhor da região é nestes tempos ultrapassado por um novo rico, sem sensibilidade e sem cultura e não passa então de uma caricatura de poder,  apenas passando para os outros  a imagem imutável  de um trágico orgulho. E qual rei Lear, desperta em nós a mesma empatia, doravante a vertiginosa fuga à realidade. O seu último reduto é o magnificente salão de música e os  dispendiosos concertos que nele patrocina. 
O salão de música, com todo o luxo que ostenta, os retratos da linhagem aristocrática nas suas paredes, o candelabro e o enorme espelho que reflecte a pose orgulhosa do seu proprietário, é ele próprio uma extensão  física e espiritual de Roy e um personagem animado que se exprime tanto pelo silêncio em contraste metafísico com  a eloquente música das "soirées", como por transformações subtis, como oscilações no candelabro e variações de luminosidade que reflectem os humores e as expectativas do seu dono.
Por tudo isto, as sequências dos concertos são um bálsamo para os sentidos.
Mas este filme é sobretudo um fascinante retrato psicológico, de um homem na terceira idade da vida, que tudo teve e tudo perdeu, menos o seu espírito indomável que nele sobrevive. Estamos perante uma imponente obra de arte, um legado impressionante de beleza e espírito. 
 
 

sábado, 20 de julho de 2013

☑ LORE, de Cate Shortland

Uma história para além da inocência

"Lore"
Austrália, Alemanha e UK (2012).
De Cate Shortland, com Saskia Rosendahl, Nele Trebs, Ursina Lardi e Kai-Peter Malina. 
Argumento de Cate Shortland e Robin Mukherjee, baseado no romance de Rachel Seiffert "The drak room" (2001).
Drama. Thriler. Guerra. 109 minutos. Cor.
Sinopse: 
Lore, filha de oficiais das SS entretanto presos, atravessa uma Alemanha derrotada e ocupada pelos aliados, desde a Floresta negra até Hamburgo, casa da sua avó. Responsável pelos seus quatro irmãos menores e na companhia de um estranho, em quem tem que confiar apesar da sua pessoa significar à partida ódio e desprezo, enfrenta uma longa caminhada exterior a par de uma não menos penosa  viagem interior, num doloroso processo de amadurecimento.

 
Já em "Salto mortal", o seu primeiro filme, realizado em 2004, Cate Shortland, ensaiara um problemático processo de amadurecimento de uma "teenager", que abandona a casa dos seus pais em busca de uma vida autónoma.
Neste seu segundo registo, a realizadora Australiana, volta ao de leve ao tema, mas torna o processo de emancipação muito mais complexo e doloroso. Neste filme estamos perante uma "teenager", que forçada pelas circunstâncias tem que rever toda a sua vida e os seus valores  para amadurecer rápidamente e sob a sua égide guiar o processo de crescimento dos seus irmãos mais pequenos.
Cate Shortland, de origem judia, volta a um tema quase tabu e a um terreno deveras pantanoso que ainda desperta mais emoção que razão e em que se torna difícil pisar solo firme, fora  da "verdade" oficial e socialmente aceite. É por isso, que conceder aos nazis derrotados, invadidos e humilhados, a possibilidade de exporem o seu  ponto de vista, sem que isso signifique a defesa do negacionismo, é algo que com o perfil desta realizadora e com esta escala de visibilidade é novo e importa realçar, mesmo que se percebam as razões pelas quais  tal abordagem provoque a fúria e o repúdio do alinhamento crítico mais tradicional.
Na verdade, Cate usa apenas a Alemanha destroçada e a sua ideologia em ruínas como um pretexto e um mapa para ilustrar uma história de crescimento e de superação, de perda da inocência  e de transição para a idade adulta, que poderia ser uma metáfora da própria Alemanha, se a realizadora  não se furtasse inteligente e conscientemente ao fundo da questão política e não se refugiasse no essencial das questões humanas, permidindo-se apenas inquietar-nos com um jogo de afetos baralhados por preconceitos. E mais ainda, subvertendo os papeis tradicionais atribuidos nas fábulas  do mundo infantil, tão repetidamente vindas à baila, na narrativa. Nesta história o "capuchinho vermelho" que se desloca a casa da avozinha, não é tão linearmente indefeso ou um exemplo de suprema bondade, nem o "lobo mau" que a persegue, tão radicalmente perigoso, como as aparências sugerem. E para baralhar, não sabemos realmente quem é aquela rapariga que chegou a casa da avó e quem a espera. Em todo o caso a perda da inocência infantil e o processo de superação e crescimento são  assinalados simbolicamente pela quebra dos pequenos animais da floresta, em cerâmica...
O filme é de certa forma um duplo "road movie", a um só tempo, interior no processo de cicatrização das feridas e na superação dos traumas e exterior na descrição factual de uma longa viagem num país destroçado pela guerra e dividido pelos vencedores.
E Cate Shortland entra a matar nos rostos dos personagens em rigorosos enquadramentos e oportunos close-ups que revelam o que não parece visivel e passivel de explicação por palavras, como na cena de grande tensão e conflito interior, em que Lore, uma excelente Saskia Rosendahl, usa o alegado judeu para a sua  masturbação.
Por tudo isto um filme importante e imperdível, uma das gratas surpresas da colheita cinéfila de 2012.


ENTREVISTA DE CATE SHORTLAND



Publicada por Pilar de Paranhos




IMPRESSÃO DO FAROL DE LEÇA SOBRE O FILME LORE

Um filme muito interessante.
O tema não é muito comum: O colapso na Alemanha.
O drama dos vencidos e principalmente dos que pouco estavam envolvidos (pela sua condição) no dia a dia do conflito.
O exodo de uma familia através da terra ocupada e cheia de armadilhas, enfrentando a sua própria visão dos outros, construida por anos de doutrina.
Um filme que consegue manter a distância e a ambiguidade própria das situações em que a moral e os principios éticos estão submetidos a uma pressão externa que os faz por vezes derreter. 


Publicada por O Farol de Leça

☑ A TRILOGIA DE APU, de Satyajit Ray

Três vezes cinema em estado puro

Em 1955, Satyajit Ray, dá-se a conhecer ao mundo com um trabalho  gigantesco, fazendo juz ao seu imponente porte físico de quase dois metros. Sem qualquer experiência prévia  nas artes cinematográficas e munido apenas de boas ideias, de uma delicada sensibilidade humana e de um apurado sentido estético, atreveu-se a realizar uma das obras mais marcantes do cinema. Com a dose habitual de exagero que inspiram as figuras superlativas, mas genuinamente impressionado, Akira Kurosawa, disse uma vez que alguém que nunca viu um filme de Ray equivalia a  ter vivido sem ter visto a lua e o sol.

Os três filmes da trilogia, que se completou apenas em 1959, com a ajuda de um subsídio estatal e com outros trabalhos de permeio, como o fantástico "A sala de música" de 1958, podem ser vistos individualmente como obras singulares e plenas, mas é no seu conjunto que mais sobressai  a delicadeza do retrato das grandezas, fragilidades e limites do ser humano .
Admirável obra de arte, marcada ainda por uma fotografia prodigiosa de Subrata Mitra e pela música inspiradora de Ravi Shankar.


☑ O LAMENTO DA VEREDA

"Pather Panchali"
India (1955). Linguagem: Bengali.
De Satyajit Ray, com Kanu Bannerjee, Karuna Bannerjee e Chunibala Devi.
Drama. 119 minutos. Preto e branco.
Argumento de Satyajit Ray a partir do romance de Bibhutibhushan Bandopadhyay (Banerjee) 
Sinopse:
No início do século XX, Apu é um rapaz nascido de uma pobre família bramanica, numa aldeia em Bengala na Índia.O pai é um sacerdote e poeta, que não ganha o suficiente para sustentar a família. Durga, a irmã de Apu, rouba fruta dos pomares dos vizinhos para alimentar uma tia idosa, mas este é apenas um dos muitos problemas que a mãe das crianças tem para assegurar a sobrevivência da família.

 
Antes de mais, este é um filme sobre a contingência e a vulnerabilidade da condição humana, reveladas pela perspectiva dos seus extremos etários: Durga é a menina que rouba fruta, para a sua pobre familiar idosa, a quem observa atentamente enquanto esta se alimenta. A velha, por sua vez é a companhia privilegiada da menina, a quem conta histórias de embalar.
Este é também por isso, um filme sobre a prevalência da solidariedade humana sobre os preceitos morais encarados de um ponto de vista formal e abstrato.
Apu, o irmão mais novo, assiste a tudo isto com a inocência e a cumplicidade do seu olhar infantil. Ele estende essa natural curiosidade a outros aspectos da dinâmica do lar e da comunidade, apercebendo-se do trabalho precário e mal pago do pai, do significado das suas ausências e comungando dos seus sonhos e frustrações, reflectidos nas condições de penúria da família. Pather Panchali, é a este respeito, um  retrato de sobrevivência e tenacidade humana no contexto de uma  extrema pobreza.
Com a irmã, Apu aventura-se na descoberta do mundo desconhecido que se abre para além dos limites da comunidade, explorando as florestas e os prados, cortados pelo  caminho do ferro, que abre horizontes ainda mais longínquos do que o olhar permite.
Este é também um notável filme sobre a infância, o crescimento e a descoberta do mundo, que Ray com uma cinematografia bela e irrepreensível partilha connosco.
Quando a irmã morre, Apu depara-se pela primeira vez com a ausência irreversível de alguém que ama. E logo trata de extrair a primeira consequência dessa perda dolorosa, protegendo a memória da irmã, ao fazer desaparecer para sempre o colar que ela roubou e que mantinha escondido. Mais do que a consciência da perda irreparável, este  filme valoriza o papel da memória e da proteção devidas a quem se ama.
A morte solitária da idosa, na sua pungente solidão e comunhão com os elementos é o contraponto natural da morte precoce e inesperada da menina, em imagens que marcam pela sua lógica orgânica.
Ao contemplar e se deter nos ínfimos pormenores dos corpos e nos seus irrepetíveis movimentos e ao  reflectir neles a radical autonomia e inquietante indiferença do meio físico, Ray opera o milagre da revelação do espírito secreto  das pessoas, dos objectos e da natureza. 
Uma serena contemplação de um mundo em  vital  mutação  e uma tocante meditação sobre o crescimento, e a consciência da fragilidade e dos limites da espécie humana. 


☑ O INVENCÍVEL
"Aparajito"
India (1956). Linguagem: Bengali.
De Satyajit Ray, com Kamala Adhikari, Lalchand  Banerjee e Kali Bannerjee. 
Argumento de Satyajit Ray a partir do romance de Bibhutibhushan Bandopadhyay (Banerjee)
Drama. 110 minutos. Preto e branco.
Sinopse:
Apu vive em Benares, onde o seu pai é sacerdote. Após a morte deste, a família move-se para uma aldeia Bengali, onde é ajudada por um tio. Apu esforça-se para entrar na escola local e logo se destaca, ganhando uma bolsa para estudar em Calcutá. Isso implica deixar a sua mãe já doente, sozinha e ainda trabalhar árduamente em Calcutá para ajudar a pagar os estudos.


Este filme inicia-se como a sequência final da viagem iniciada em Pather Panchali, da aldeia bangali até à cidade santa dos Hindús, Benares (Varanasi), nas margens do Ganges, onde o pai de Apu conseguira um emprego como sacerdote.A primeira parte deste filme passa-se, portanto, em Benares e retrata o quotidiano de Apu e da sua família num cortiço da velha cidade, mostrado com a mestria e a simplidade que Ray empresta à sua obra, sobressaindo a bela fotografia realista da velha cidade Hindú e dos seus rituais.Um quotidiano ordinário de uma família pobre mas remediada, até que Apu é de novo confrontado com a perda, agora do pai, o que  precipita  nova mudança para outro ponto da região de Bengala, sob a proteção de um tio. É aqui, nesta segunda fase do filme, que o adolescente Apu começa a lutar por um futuro melhor, esforçando-se nos estudos, que o levariam na terceira parte do filme a Calcutá, onde inicia estudos universitários, em condições particularmente dificeis. É  nesta fase realista, que o filme mergulha nas questões mais marcadamente sociais, como as condições de habitabilidade e de emprego na populosa e pobre Calcutá dos anos 20.  Mas é curiosamente  nesta fase que o filme emerge como um retrato poético e pungente das relações entre mãe e filho, trazendo de volta o melhor do mundo humano revelado em "Pather Panchali".
Uma vez mais, um prodígio de sensibilidade e de admirável simplicidade nos retratos humanos.Uma visão a um tempo realista e poética do sofrimento humano, da saudade e da perda. Um hino à tenacidade dos que perseguem o rasto dos sonhos.
Imagens que jamais se deixam apagar na lenta erosão das nossas memórias.








☑ O MUNDO DE APU

"Apu Sansar"
India (1959). Linguagem: Bengali.
De Satyajit Ray, com Soumitra Chatterjee, Sharmila Tagore e Alok Chakravarty.
Argumento de Satyajit Ray a partir do romance de Bibhutibhushan Bandopadhyay (Banerjee)
Drama. 105 minutos. Preto e branco.
Sinopse:
Apu acabou os estudos, sem o bacharelato e não tem trabalho fixo, vivendo de biscates e acalentando o sonho de ser escritor.Um velho amigo dos estudos convida-o para um casamento na sua terra natal e Apu viaja com ele, acabando por ser ele a substituir o noivo, que se revelou incapaz. Um casamento de circunstância que se viria a revelar uma grande história de amor com um fim trágico, quando Aparna a sua mulher morre no parto, atirando Apu para um enorme sofrimento e desespero.


O fecho desta trilogia, traz-nos Apu na idade adulta, embrenhado na luta pela sobrevivência em condições de sub-empregabilidade e de pobreza. A visita de um velho amigo de estudos, melhor sucedido do que ele, constitui um renovado impulso ao velho sonho de ser escritor, adormecido e subjugado pela lógica  da dura realidade do dia a dia. Este facto e a circunstância de um casamento inesperado, projectam este filme para a dinâmica e imprevisibilidade afectiva das relações inter-pessoais, especialmente amorosas e não se resume à mera implementação de um guião romântico, uma vez que Ray não perde de vista as referências sociais que se impõem pelos olhos adentro e não cai no sentimentalismo lamechas.
Um filme que não destoa da tónica dominante da trilogia, mas na realidade, está um furo abaixo dos dois precedentes.
Não obstante, trata-se de uma  meditação intimista sobre a validade e a adequação dos sonhos à realidade quotidiana. Mais uma vez um retrato pungente e sublime sobre a perda e a hipótese de um recomeço.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

☑ NOUTRO PAÍS, de Sang-Soo Hong

As latitudes do cinema

"In another country"
"Da-reun n-ra-e-seo" (título original)
Coreia do Sul (2012).
De Sang-Soo Hong, com Isabelle Huppert, Jung-Sang Yu, Yu-Mi Jeong e Yeo-Jeong Yoon.
Drama. 89 minutos. Cor.
Sinopse:
Três histórias, dentro de uma história. Na história "tronco", uma jovem coreana, estudante de cinema, para esquecer problemas familiares, entretem-se a escrever  três histórias  interligadas passadas no mesmo "resort" turístico da Coreia do Sul. Nessas histórias, Anne (Isabelle Huppert) representa três turistas francesas diferentes: na primeira  ela é uma realizadora de cinema que visita outro realizador local; na segunda dá corpo a uma mulher casada que tem uma relação extra-conjugal com um realizador asíático; na terceira, ela veste a pele de uma mulher recentemente abandonada pelo marido. A única personagem comum é o salva-vidas...
   

"Noutro País", o título deste filme do produtivo e reputado cineasta coreano Sang-Soo Hong (5º lugar da lista dos melhores filmes de 2012 para o "Cahiers de Cinema"), que conta com a experiente atriz francesa Isabelle Huppert, remete-nos desde logo para uma questão primordial, de saber em que medida, a disparidade das referências geográficas e por inerência culturais e linguísticas,  se manifestam  no processo de concepção e implementação do filme,  e qual é a resultante do equilíbrio entre identidade e alteridade. 
Não é por acaso, que o processo de criação no cinema, é chamado ao barulho no próprio filme, por intermédio de uma estudante de cinema, que movida por problemas concretos, delineou não uma mas três histórias, e com isto, mais do que um mero artifício ficcional, logrou uma introspecção do próprio cinema, ensaiada por tentativas, como se com essa repetição, o espetador fosse avisado por um lado que tudo se resume a  ficção, fruto da inspiração  de uma jovem cinéfila, mas por outro lado,  não invalidando que sejamos instados a uma atenção suplementar e convidados a aprender uma espécie de tabuada cinéfila com resultados inesperados. E assim das três ( ou se quisermos quatro) histórias, que se lêm umas pelas outras, em divertido jogo de transparências, resulta uma única entidade narrativa. 
E também não é por acaso, que a protagonista é sempre uma  francesa  com conexão directa ou indirecta ao cinema, ou não fosse esse fascínio pela outridade e o respeito pelas referências externas do seu cinema,  nas infinitas possibilidades por ele geradas  de encontros e cruzamentos de afectos, uma marca da obra de Hong, materializando neste "Noutro país" o que em  linguagem futebolística se intitula "segunda mão em casa"  , do seu filme "Noite e dia" de 2008, retrato de uma "visita" de coreanos a Paris.
As histórias (ou a história) resumem-se à procura de uma referência básica e um farol é um  símbolo óbvio  dessa orientação e dessa luz, que se revela na prática muito difícil de encontrar, na babel cultural e linguística que o filme expõe.
Tal como as setas na estrada fazem hesitar a protagonista, sobre a direção a seguir, este filme causa-nos o mesmo senso de  insegurança e desorientação. Nunca sabemos quando irá chover e se devemos levar ou não o guarda chuva. Nunca teremos a certeza do que dizem os estranhos.
De certa forma, o filme torna-se  refém do seu esquematismo e a extrema concisão da narrativa não permite que passem para nós  todas as nuances dos encontros e desencontros afectivos e das necessidades de reorientação e cicatrização emocional que as suas personagens reivindicam.
E Hong de forma assaz curiosa faz de um divertido salva-vidas com problemas de comunicação, a personagem comum de histórias de encontros e desencontros, de pausas e recomeços que se sobrepõem mais do que se cruzam. Por ele passa o caminho do farol. Ou não...