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domingo, 23 de junho de 2013

ALGUMAS NOTAS SOBRE O CINEMA FRANCÊS


Pode-se apreciar um filme ignorando o contexto ?
A resposta é: sim, mas...
Ver um filme é uma experiência antes de tudo sensorial. Nesse ponto de vista, o mais importante é o fruir das imagens ( e dos sons se for caso disso) que em sequência rápida, estimulam os nossos sentidos e despertam emoções.
Mas essa experiência é tanto mais rica, quanto reflectida a um nivel cognitivo e daí, a resposta à questão colocada antes.
No caso do cinema Francês, importa traçar um breve contexto histórico e sócio-político.
1. Primórdios
Alguns marcos importantes: 
 

Louis Lumière - "La Sortie des usines Lumière à Lyon" (1895) - talvez o primeiro filme. Dura apenas 46 segundos.




 

Georges Meliès - "La voyage dans la lune" (1902)
















Georges Meliès - "Le voyage à travers l'impossible" (1904)













2. Cinema de autor/Cinema de  vanguarda (anos 20 e inícios de 30) 
O cinema impõe-se como uma obra de um autor, geralmente alguém ligado ou influenciado pelas correntes vanguardistas da época, como o Surrealismo, Dadaísmo, Impressionismo e Cubismo. Os aspetos relevantes desta estética eram o ritmo e o movimento, realçados por técnicas inovadores de iluminação e novos angulos de câmara. As temáticas abordadas fugiam aos gostos comerciais, procurando causar um forte impacto visual. Considerada uma arte  degenerada e decadente, os seus seguidores acabaram por ser alvo dos regimes totalitários, que começaram a emergir na década de 30, pelo que este movimento perdeu força em França. 
Alguns exemplos emblemáticos:
René Clair - "Entr'act" -1924 (Entreacto). 
Uma curta.
 
 






 

Abel Gance- "Napoleon" - 1927
(Napoleão).
Talvez o primeiro exemplar significativo do Impressionismo no cinema.












Luis Buñuel & Salvador Dali- "Un Chien Andalou"-1929 
(Um cão Andaluz). 
Incursão do Surrealismo  no cinema, da autoria destes dois Espanhois "afrancesados".
  









3-Realismo poético Francês
Com o advento dos filmes falados, em 1927, tornou-se cada vez mais importante o  texto, em geral a partir de obras literárias, adquirindo realce progressivo a figura do argumentista e simultaneamente desaparecendo o conceito de cinema de autor, centrado no realizador. As temáticas passaram a ser mais realistas, procurando espelhar os aspetos socioeconómicos, sob a forma de melodramas pessimistas com enredo policial.
1ª fase:
Em plena crise económica resultante da grande depressão e já com a ameaça dos fascismos no horizonte, surgiram as primeiras obras que romperam com a estética vanguardista. O primeiro exemplo, ou filme zero deste movimento, ainda que sem a forte componente social que marcaria esta corrente, é a obra de Jean Vigo, "L'Atalante"(O Atalante) (1934), uma abordagem poética da viagem fluvial de um casal em lua de mel.
Após este filme, a tónica passa a ser  mais colocada em temas sociais, sobressaindo histórias protagonizadas por operários e desempregados, lutando por melhores condições de vida.
Exemplos marcantes desta fase: 
Jean Renoir - "La grande illusion" (A grande ilusão) (1937) 
Jean Renoir - "La regle du jeu" (A regra do jogo) (1939)



2ª fase:
Com a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e o avanço do Fascismo, há uma mudança de perspectiva dos guiões, com maior enfase no medo e no desânimo, prenunciando o clima derrotista que perpassou pela sociedade Francesa durante a segunda grande guerra. Emergiram as personagens marginais, como delinquentes e desertores, que procuravam lutar em vão contra a desgraça das suas vidas.
Exemplos desta fase:
Marcel Carné - "Hotel du nord" (Hotel do Norte) (1938)
Marcel Carné - "Le quai des brumes" ( O cais das brumas) (1938)





















3ª fase (decadência):
Com o início da Segunda Grande Guerra em 1939 e a invasão de Paris pelos alemães em 1941, origina-se o exílio dos cineastas Franceses e este movimento cinematográfico entra em declínio, assistindo-se ainda ao lançamento de obras importantes como a seguinte:
Marcel Carné - "Les enfants du paradis" (  Os rapazes da geral) (1946)
Este movimento influenciou o "film noir" americano, género policial, retratando personagens cínicas, imersas em ambientes de corrupção e de devassidão. As histórias de desempregados e de operários, lutando por melhores condições de vida, também seriam retomadas no neo-realismo Italiano.
A "nouvelle vague" que se seguiu a este movimento, contestava a reduzida enfase no cinema de autor do realismo poético e desvalorizava alguns dos seus nomes importantes  como Jean Delannoy, embora autores como Jean Vigo, Jean Renoir e Marcel Carné, fossem de certa forma intocáveis.
Jean Delannoy - "La Symphonie pastorale"-1946 
( A sinfonia pastoral)
Outras referências incontornáveis:
Jean Cocteau - "Orphée"- 1950 (Orfeus)


Henri-Georges Clouzot - "Le salaire de la peur"-1953 (O salário do medo)

















4-Nouvelle Vague
A expressão foi cunhada em 1958 na revista L'Express e abrange um movimento artístico com epicentro nos contestatários anos 60. Os primeiros cineastas desta corrente faziam filmes verdadeiramente independentes pois não tinham grandes apoios dos estúdios de cinema. O movimento inicia-se com a decadência do realismo poético, onde a importância do argumentista face ao realizador era contestada  por estes jovens turcos, em grande parte oriundos da crítica de filmes nos "Cahier de cinema" e noutras publicações. 

Nomes como Claude Chabrol, Jean-Luc Godard, François Truffaut,  Jacques Rivette, Alain Resnais e Eric Rohmer,  içavam  agora a bandeira do cinema de autor. Mas outras caracteristicas marcavam também a ruptura com o realismo poético, principalmente na estrutura da narrativa, rejeitando-se a linearidade e inovando-se na montagem. Os temas realistas foram revestidos por uma amoralismo típico desta geração, expressos em diálogos crús e despidos de retórica, onde se relevava a vertente psicológica das personagens através do que faziam e diziam, incluindo as impressões mais banais do seu quotidiano. A personagem sobressaía dos aspetos formais  da cena. Este movimento,  rejeitava o conceito de escola de cinema, optando mesmo pela sátira do artificialismo da própria linguagem cinematográfica e dos seus clichés, expresso em cenas intencionais em que  se insinuavam ou não se escondiam os meios técnicos, ideia subversiva que era uma marca de água desta nova vaga.
O primeiro filme desta corrente pode ser considerado "Le beau Serge" (Um vinho difícil) (1958), de Claude Chabrol.
Como a lista é muito extensa, seguem-se a título ilustrativo e com cunho pessoal, apenas alguns exemplos de filmes desta corrente.
François Truffaut - "Les Quatre Cents Coups" (Os quatrocentos golpes) (1959)
Jacques Rivette - "Paris nous appartient" (Paris pertence-nos) (1961)

Jean-Luc Godard - "Le Mepris" (O desprezo) (1963)

5. Da "Nouvelle Vague" até à actualidade
A nova vaga abriu horizontes ao cinema Francês e constituiu fonte de inpiração para outras gerações de autores que lhe acrescentaram sensibilidades especiais e o tornaram num campo deveras fértil. Segue-se uma lista muito pessoal de filmes de várias tendências e gerações.

Louis Malle - "Ascenseur pour L'echafaud"-1958 
 (Fim-de-semana no ascensor)




















Jacques Tati - "Mon oncle"-1958 (O meu tio)
 



















Georges Franju - "Les yeux sans visage"-1960 (Olhos sem rosto)




















Jacques Becker - "Le trou"-1960 (O buraco)





















Jacques Demy - "Lola"-1961





















Alain Resnais - "L'année dernière à Marienbad"-1961
(O último ano em Marienbad)






















Maurice Pialat - L'enfance nue"-1968 (Infância nua)




















Eric Rohmer - "Ma nuit chez Maud"-1969
(A minha noite em casa de Maud)





















Jean-Pierre Melville - "L'armée des ombres"-1969 
(O exército das sombras)



















Robert Bresson - "Quatre nuits d'un rêveur"-1971 
(As quatro noites de um sonhador)





















Jean-Jacques Beineix - "Diva"-1981 
(A diva e os Gangsters)
"Cinema do look" : estilo atractivo e superficial, com intuitos comerciais e com enfase na alienação das principais personagens.
















Bertrand Tavernier - "Un dimanche à la campagne"-1984   (Um domingo no campo)


Persistência de elementos do realismo poético.



















Agnès Varda - "Sans toit ni loi"-1985 (Sem eira nem beira)












  








Claude Berri - "Jean de Florette"-1986

Mantém muitas características do realismo poético...



















Jean-Paul Rappeneau - "Cyrano de Bergerac"-1990 

Leos Carax - "Les amants du Pont-Neuf"-1991 (Os amantes da ponte nova)

"Cinema do look"...




















Claude Sautet - "Un coeur en Hiver"-1992 (Um coração no Inverno)
















Bruno Dumont - "L'Humanité"-1999 (Humanidade)

Grande prémio do Juri em Cannes 1999. Festival presidido por David Cronenberg...
A sensibilidade mais alternativa e radical do cinema Francês actual.


















Patrice Leconte - "La veuve de Saint-Pierre"-2000 (A viúva de Saint-Pierre)





















François Ozon - "Sous le sable"-2000 (Sob a areia)






















Jacques Audiard - "Sur mes lèvres"-2001 (Nos meus lábios)




















Jean-Pierre Jeunet - "Le fabuleux destin d'Amélie Poulain"-2001 (O fabuloso destino de Amelie)























Tony Gatlif - "Exils"-2004 (Exílios)




















Laurent Cantet - "Entre les murs"-2008 (A turma)

Palma de Ouro em Cannes 2008.Nomeado para o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009.


















Olivier Assayas - "L'heure d'été"-2008 (Tempos de verão)






















Claire Denis - "35 rhums"-2008 (35 shots de rum)
O cinema Francês mais profundo e enigmático passa por Claire Denis.



















Xavier Beauvois - "Des hommes et des dieux"-2010 (Dos homens e dos deuses)




















Mathieu Amalric - "Tournée"-2010 (Tournée - Em digressão)


 


 











Olivier Nakache e Eric Toledano - "Intouchables"-2011 (Amigos improváveis)
Um enorme sucesso caseiro e internacional.
"Look like" style...

















Alguns realizadores franceses optaram por trabalhar fora da França, sobretudo nos EUA e usando preferencialmente o Inglês em vez do Francês.

Jacques Tourneur - "Out of the past"-1947 (O arrependido)
Film-Noir.



















Luc Besson - "The fifth element"-1997 (O 5º elemento)

"Cinema do look", com pose à Hollywood...
 Se quisermos ser mauzinhos com Besson diremos "Cinema do Luc"...

















Roman Polanski- "The pianist"-2002 (O pianista)





















Michel Hazanavicius - "The artist"-2011 (O artista)

Cinema bem feito...para Oscares.















E ainda a ter em conta:
Marcel Camus, René Clément, Jacques Rozier, Alain Corneau, Claude Miller, Roger Vadin, Alain Cavalier, Yves Robert, Patrice Chéreau, Laurence Ferreira Barbosa, Lucas Belvaux, Bertrand Blier, Claude Lelouch, André Techiné, Cyril Collard, Benoit Jacquot, Philippe Lioret, Régis Wargnier, Jean-Jacques Annaud, Cédric Kahn, Cédric Klapisch, Jean-Claude Brisseau, Erick Zonca, Martin Provost, Jean-Pierre Améris, Catherine Breillat, Christophe Barratier, Rémi Bezançon, Bertrand Bonello, Rachid Bouchareb, Sylvain Chomet, Philippe Claudel, Julie Delpy, Christophe Honoré, Agnès Jaoui, Gustave de Kervern, Robert Guédiguian, Arnaud Larrieu, Vincent Paronnaud, Marina de Van, Céline Sciamma, Joann Sfar, Yann Samuell...e muitos outros !...

Em resumo:
Esta foi uma rápida mostra do cinema Francês, pondo a tónica no seu enquadramento histórico, sócio-político e cultural.


 

 


sábado, 15 de junho de 2013

TRILOGIA DO CASAMENTO, de John Cassavetes

TRÊS FILMES DE JOHN CASSAVETES, CENTRADOS NO CASAMENTO, E NÃO SÓ...
John Cassavetes (1929-1989) é um nome incontornável para qualquer cinéfilo que se preze.
Considerado o pai do cinema independente e um genuino diretor de atores, epítetos que se ajustam bem, a quem como ele  gastava o que ganhava como ator, a fazer os seus filmes de baixo orçamento, totalmente à margem dos estúdios de Hollywood. Com isso, assegurava o controle total da sua arte, um verdadeiro trabalho de autor, impregnado de humanidade e realismo e cohabitado generosamente por figuras humanas como hippies, prostitutas, doentes mentais, crianças, gangsters, trabalhadores manuais, empresários, domésticas e strippers.
Desde a escrita do argumento, à direção de atores, impõe-se como um autor à parte, por vontade própria e por exigência da sua arte singular. Um visionário com uma legião de admiradores fiéis, mas também concitando à sua volta alguns pruridos naturais, atendendo a que desafiava e quase sempre desarmava com a  extrema simplicidade dos seus filmes, a sofisticação emproada da gigantesca máquina de sonhos de Hollywood. Os seus detractores, apontam-lhe a excessiva concisão e falta de rigor dos seus guiões, cujas lacunas seriam tipicamente preenchidas  por um acréscimo de improvisação, que nem sempre resultava mesmo com os seus habitués atores de peso como Gena Rowlands, John Marley, Fred Draper ou Seymour Cassel e muito menos ainda com a grande maioria do "cast" restante, constituída por "amadores" como a mãe e a sogra do próprio realizador. Mas é na sua cinematografia, considerada algo descuidada e demasiado artesanal, que se concentram as maiores críticas, não caindo no goto de alguns a sua reiterada recusa dos cânones académicos, na posição, movimentos e angulos da câmara e na profusão e aparente falta de  critério ou imprecisão dos close-ups, tipicamente alternando a focagem e a desfocagem, demanda de realismo que para eles, resulta inconsequente e pretensiosa, na medida em que, "ao contrário de Bergman", como fazem questão de frisar, se descobrem muitas caras mas poucos estados de alma.  Na mesma linha de pensamento, para esses críticos, a edição e a montagem, são consideradas deficientes e ilógicas. 
Mas o que para alguns são defeitos, para muitos constituem fontes de inovação e exploração de olhares alternativos, libertando o cinema dos espartilhos de um certo academismo diletante e bafiento, resultando numa obra mais próxima dos espetadores, das suas vivências e expectativas.
Os três filmes que se abordam em seguida, contam histórias simples, centradas na temática das relações amorosas e no casamento, desde a sua génese ("Tempo de amar") e maturação ("Uma mulher sob influência") até ao seu declínio e dissolução ("Rostos"), uma trilogia "à posteriori", uma vez que o último filme da série, é na realidade cronológica, o primeiro dos três.
O amor e o casamento e as suas múltiplas  condicionantes e variáveis, na pantanosa América dos anos 60 e 70, mostrados com o estilo característico de Cassavetes: argumentos e narrativas não convencionais, um olhar intimista e atento, resultando num fresco de emoções, mais do que num produto da inevitável lógica linear e causa-efeito do cinema "mainstream".

TEMPO DE AMAR ("MINNIE AND MOSKOWITZ")

"Minnie and Moskowitz"
EUA (1971).
De John Cassavetes, com Gena Rowlands, Seymour Cassel, Val Avery e Timothy Carey.
Drama. Comédia. Romance. 114 minutos. Côr.
Sinopse:
Minnie, uma curadora de museu, acaba uma relação que mantinha com um homem casado e torna-se desiludida com a vida, quando encontra um excêntrico  arrumador de carros, chamado Seymour Moskowitz.




Numa entrevista acerca deste filme, Cassavetes disse que ele é uma espécie de conto de fadas, dedicando-o a todas as pessoas que não casaram com a pessoa, à priori, "certa". Esta afirmação, suficientemente enigmática e ambígua do realizador, leva-nos a rebobinar mentalmente o filme e a repensar os perfis e a  adequabilidade,  das duas  personagens principais, que à priori, são pouco ou nada compativeis.De facto, Minnie é uma mulher culta, sofisticada, sensível e assertiva, que relativizou o fim de uma relação condenada ao fracasso, com um homem casado e seguiu a sua vida. Por sua vez, Seymour é um arrumador de carros à americana, semi-vagabundo, grosseiro e teimoso, mas com um bom coração. Foi por isso inteligente, a abordagem de Cassavetes, deste casal improvável, aligeirando o fundo dramático da narrativa, com pinceladas de humor e  filosofia de "snack-bar", como se contasse a história da bela e do monstro, com as cores e a moralidade do mundo hippie. Na verdade, o casal é incongruente até ao altar, onde o padre se junta à paródia, com um divertido "gag", despertando o riso involuntário (?) de Gena Rowlands, tudo normal no cinema de improvisos, que Cassavetes cultivava. E que bem que ficou  a cena ! Tal como de resto, o final em que o bigode de Seymour, rapado antes, numa jura de amor, voltou mágicamente ao seu sítio.
E Cassavetes filma tudo isto, com a espontaneidade de sempre, sem regras fixas. A música de fundo, que ele corta abruptamente quando lhe dá na telha, é bem esgalhada e as interpretações de Gena Rowlands, linda como sempre e Seymour Cassel, fazem o resto, ou seja um bom filme, que fica bem, nesta abertura de trilogia, numa  divertida génese  do amor e do seu inevitável fruto, o casamento...

UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA ("A WOMAN UNDER THE INFLUENCE")

"A woman under the  influence"
De John Cassavetes, com Gena Rowlands, Peter Falk e Fred Draper.
Drama, 146  minutos. Côr.
Sinopse:
O casal Longhetti (Nick e Mabel), vive nos subúrbios de Los Angeles, com as suas três crianças. Ele é um dedicado trabalhador manual da construção civil e ela uma doméstica com instabilidade mental, que se vai revelando cada vez mais um problema para a família, culminando no seu internamento temporário. Como lidar com a doença mental de alguém que se ama ?

 

Neste filme, Cassavetes retoma a temática do casamento, já numa fase de consolidação familiar, recorrendo a uma família tipo, dos subúrbios de Los Angeles, no início da década de 70. 
Nick (Peter Falk), é um trabalhador da construção civil, que trabalha duro para sustentar a família, que vive desafogadamente, o sonho americano, numa espaçosa casa, onde a sua esposa Mabel (Gena Rowlands), cuida das lides domésticas e dos seus três filhos pequenos. Mabel, demonstra problemas psicológicos, que se vão agravando e interferindo com o normal funcionamento da família. A princípio, Nick tenta aceitar a "diferença" da mulher, mas com o tempo, vai acumulando impaciência, intolerância e incompreensão, que se materializam a dada altura, na decisão de  internar  Mabel numa instituição de saúde mental.
Cassavetes, mostra-nos em expressivos close-ups de Mabel e das pessoas das suas relações, o verdadeiro "rosto"  dos comportamentos limites e mesmo da doença mental, entendida não como um rótulo genérico, mas como um problema concreto, gerador de sofrimento na pessoa em causa e na sua envolvência. Até certo ponto, o próprio conceito de loucura, é posto em causa e com o decorrer da narrativa, a empatia com Mabel, leva-nos à aceitação desta mulher sensível e incompreendida e ao repúdio da ignorância e insensibilidade do marido, que  se revela mais doente que a própria mulher. O internamento, ao contrário de outros filmes, é ignorado nos seus pormenores, como se a Cassavetes interessasse mais, os efeitos da ausência desta mulher do seu ambiente familiar e o foco de verdadeira insanidade fosse desviado para o marido, nomeadamente na caricata cena da visita  à praia com os filhos. Neste contexto, se desvenda os contornos enigmáticos do título do filme, ao admitirmos que aquela mulher ao ser institucionalizada, foi usurpada do seu quotidiano normal, mas foi também  subtraída à influência opressiva do marido. No fim é reposta uma certa "normalidade", pese embora as idiossincrasias de Mabel, mesmo depois do internamento, parecendo evidente que Cassavetes queria mostrar mais os problemas do casamento e não tanto expor uma suposta doença mental, que nunca foi explorada, a não ser pelo que deduzimos dos comportamentos "borderline" de Mabel. Mesmo descontando o facto da magnífica música que todos partilhamos, não  a partir da sua aparelhagem de som, mas sim do âmago das suas deliciosas alucinações auditivas, traduzir semiologia de índole psicótica!
Gena Rowlands, que ganhou o globo de ouro e foi nomeada ao Oscar de 1975, com este filme, tem aqui uma assombrosa demonstração de representação e um registo humano inesquecivel.
Cassavetes com uma abordagem poética, tecida de compaixão e de rara sensibilidade humana, mostra-nos o lado escuro de um casamento, sob a influência de comportamentos e diferenças limite, iluminando a doença mental, com um olhar moderno, deveras inovador para a época.

ROSTOS ("FACES")

"Faces"
EUA (1968)
De John Cassavetes, com John Marley, Gena Rowlands, Lynn Carlin, Fred Draper, Seymour Cassel e Val Avery.
Drama, 130 minutos. Preto e branco.
Sinopse:
Richard Forst, é um bem sucedido financeiro, que passou a meia idade e que descontente com o seu casamento com a jovem Maria, decide divorciar-se, procurando consolo em Jeannie, uma prostituta de ricos. Entretanto, Maria, numa noite de copos, envolve-se com um jovem e tenta o suicídio...


Depois das cores vivas da génese, crescimento e amadurecimento do amor e do casamento, trazidas nos dois filmes anteriores (na verdade posteriores), nada melhor, que  este filme de 1968, a preto e branco, para retratar a sua dissolução e emblematicamente encerrar esta trilogia sobre este tema.
De certa forma, a cronologia, nos filmes de Cassavetes é arbitrária, o que conta é a substância dos afectos e desafectos, das emoções e das suas consequências e não o tempo e o espaço em que ocorrem e se quisermos mesmo ir mais longe não interessa uma identidade concreta das personagens que aqui podem se chamar Maria e serem esposas dondocas e noutro filme fazerem de Mabel e serem domésticas neuróticas. 
Este anacronismo, tem tanto de casual como de lógico, como se tivéssemos que voltar atrás no tempo histórico à procura de algo que nos escapou do cinema de Cassavetes e só se percebessem no fim, coisas ditas no princípio ou vice-versa.
Bem entendido que isto de trilogias, são leituras  nossas a que o realizador é muitas vezes alheio. 
Neste filme, os rostos espelham de forma eloquente os estados de alma das personagens.É um filme, que retrata como poucos o vazio de valores e de afectos das pessoas de uma certa classe média da América do pós guerra e o seu reflexo nas relações afectivas que são pautadas pela superficialidade, pragmatismo e hipocrisia.
Cassavetes e a sua entourage habitual, estão à altura das circunstâncias, neste belíssimo  filme com tons convenientemente crepusculares.

domingo, 9 de junho de 2013

☑ THE RAID: REDEMPTION, de Gareth Evans

                                                 Pancadaria de morte

"Serbuan maut".
Indonésia & EUA (2011).
De Gareth Evans, com Iko Uwais, Donny Alamsyah e Ray Sahetapy.
Ação. Crime. Thriller. 101 minutos. 
Sinopse:
Em Jakarta, Indonésia, uma unidade SWAT invade um complexo de apartamentos que funciona como o quartel general dos barões da droga. Esta unidade de polícia é identificada e cercada dentro do edifício e os homens estão por sua conta, uma vez que a operação não tem qualquer suporte do exterior.

Muito pouco a dizer, a não ser que às vezes há boas razões que nos levam a ver um mau filme, como seja fazer companhia a um filho.
Este filme Indonésio realizado pelo galês Gareth Evans, por incrível que pareça, ainda teve um bom acolhimento mesmo entre gente do cinema a sério e não é de estranhar que tivesse arrebatado uns quantos prémios do público em festivais e um bom score no IMDB, porque para o género de extrema ação e artes marciais, até que tem atributos técnicos acima da média. Mas não há nenhum sumo ou ilação séria a tirar deste filme, a não ser a muita gabada competência técnica, muito ao jeito de um ultra-realista jogo de video.
Recomendado para fanáticos do género violência hardcore. A evitar pelos restantes.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

☑ A SOMBRA DO CAÇADOR, de Charles Laughton

                                      Sonho ou realidade ?

"The night of the hunter"
EUA (1955).
De Charles Laughton, com Robert Mitchum, Shelley Winters e Lillian Gish
Drama. Filme negro. Thriller. Preto e branco. 93 minutos. 
Sinopse:
Harry Powell é um psicopata e fanático religioso  que casa com viúvas, matando-as depois, para ficar com o seu dinheiro, convencendo-se que ajuda Deus a mantê-las afastadas dos desejos carnais. Após o enforcamento de um assaltante de bancos, casa com a sua viúva, mas tem que enfrentar a resistência dos filhos desta, que recusam revelar-lhe o paradeiro do dinheiro roubado.
 

Charles Laughton (1899-1962), foi um ator britânico de teatro e cinema (Spartacus, O Corcunda de Notre Dame), tendo  realizado apenas este filme, que constituiu um fracasso de bilheteira e foi olhado de soslaio pela crítica,  situação que não é alheia  ao seu manifesto desfasamento em relação à sensibilidade dominante da América do pós-guerra. O facto deste filme ser em termos estéticos radicamente diferente dos filmes convencionais e não se enquadrar fácilmente num género, incorporando elementos do thriller, do filme negro e da fábula, poderá ser a razão pela qual  esta obra prima absoluta do cinema, continua a ser ainda hoje tão esquecida, mesmo entre os cinéfilos.
O argumento baseia-se numa novela de Davis Grubb e retrata a vida de um pastor charlatão, psicopata e misógino, com queda para desposar e matar viúvas. Nesta alegoria, da eterna luta entre o bem e o mal, Robert Mitchum encarna Harry Powell, o lobo com pele de cordeiro, que seduz e persegue os cordeiros inocentes - a mãe e os filhos -  apenas para lhes usurpar o dinheiro.
Lillian Gish, a grande diva do cinema mudo, num plano ambiguo entre o divino e o humano, surge como a referência da bondade e da proteção. 
As duas crianças, John e Pearl, empreendem uma fuga através do rio, num barco a remos, sempre perseguidas pelo espectro medonho de Powell, numa sequência verdadeiramente mágica e inesquecível, talvez o conjunto de imagens mais fascinantes  que o cinema gerou até hoje.
Essa perigosa viagem,  testemunhada por um mundo animal  estranho e expectante, remete-nos para uma fábula de raízes bíblicas, sobre a eterna oposição cósmica  entre o bem e o mal,  e  a imperceptivel e imponderável mão da providência, revelada numa sublime poesia visual, onde mais do que sermos espectadores é o próprio filme que nos visiona.  
A fotografia a preto e branco de Stanley Cortez é um dos pontos fortes do filme, através de uma  aposta  declarada numa  estética expressionista, com as suas formas góticas sublinhadas por angulos agudos, como se pode constatar na cena do casal no quarto de dormir, onde a   abóbada e a janela mimetizam uma capela gótica, no qual se recorta a silhueta esfíngica e ameaçadora  de Powell. Esta geometria particular é iluminada por  luzes intensas que contrastam com sombras profundas  prolongando e deformando as formas,  num exercício estilístico orientado aos propósitos de efabulação da narrativa.  Deste modo, a realidade é  amplificada e distorcida e privilegia-se a vertente  onírica,  com  exacerbação  das emoções em detrimento da vertente racional. Assim o filme afasta qualquer leitura realista e emerge como uma perturbante materialização de um pesadelo  infantil. 
Neste filme, é abordada a dualidade moral sob o ponto de vista inter e intra-pessoal, neste último caso com um acento irónico e icónico, através da antítese expressa pelas tatuagens das palavras AMOR e ÓDIO no dorso dos dedos de Powell.
Mas o filme não se fecha em considerações redutoras sobre a moral, e joga também no tabuleiro da subtileza e da ambiguidade através de referências cruzadas entre  a inocência do universo  infantil e a praxis  normalizada  dos adultos, por exemplo na loja dos doces, cenário essencialmente do imaginário infantil  mas que no filme é o local por excelência de coscuvilhice  dos crescidos.
Embora a tónica do filme seja colocada num nível de seriedade, inerente à clássica oposição entre o bem e mal e o horror e desconforto sejam omnipresentes, a verdade é que há também espaço para o humor, quase sempre a cargo de Powell, por exemplo, na linguagem com que interpela Deus e os seus fiéis, na forma como usa as tatuagens dos dedos para fins de doutrinação e no modo peculiar como trata as duas crianças ("Chiiil-dren...").
Em suma, uma  singular  meditação lírica sobre  a preservação do espírito de  inocência num mundo corrompido pela mentira, dessimulação  e materialismo dos adultos.
Soberbas interpretações de Robert Mitchum e de Lillian Gish e uma realização genial de Laughton, que nos deixou  este prodigioso filme como o seu único  legado cinematográfico.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

☑ ☑ ☑ ACONTECEU NO OESTE, de Sergio Leone

                             Era uma vez a magia do Cinema

 

"C'era una volta il West" (original Italiano)
"Once upon a tine in West" (Inglês) 
1968.
Itália  & EUA. 
De Sergio Leone, com Henry Fonda, Claudia Cardinale, Charles Bronson, Jason Robards, Gabriele Ferzetti e Jack Elam
Western (Spagheti).  Aventura. 175 minutos. Côr.
Sinopse:
Brett McBain, um Irlandês viúvo, vive com os seus três filhos, no Oeste, numa propiedade árida mas com água, rara nessas paragens, factor importante para atrair o caminho de ferro, que nessa altura rasgava as planícies da fronteira, rumo ao pacífico. Tinha o sonho de nela construir uma estação e uma cidade ao redor, mas esses terrenos eram também cobiçados pelo magnata da ferrovia e essa ganância originou a chacina de toda a sua família, às mãos de Frank, o cruel pistoleiro a soldo do barão do caminho de Ferro, precisamente no dia em que a família preparava uma festa de recepção a Jill McBain, a jovem com quem Brett se tinha casado secretamente em New Orleans. Esse crime hediondo foi imputado injustamente a Cheyenne, o lendário bandido da fronteira. Na mesma altura chega à região, Harmónica, um homem misterioso, perito no manejo das armas e na música que toca no seu instrumento de sopro. O que une e separa estes personagens é o que descobriremos neste épico, de ambição, cobiça, desejo e vingança, nos alvores da construção do sonho americano.



É raro querer rever um filme e concretizar esse desejo. Por uma razão ou outra, mesmo que seja esse o plano, acabo por escolher uma novidade. Não é este o caso deste filme de Sergio Leone, que se insinua sempre em qualquer das minhas "playlists", como uma escolha natural. 
Com alguns anos de intervalo, já   visionei por três vezes, este épico da sétima arte e em todas elas experimentei simultaneamente o deslumbre do olhar infantil e o extase místico de uma velho asceta.
Este é um dos raros filmes  onde é possível sentir a paixão do cinema em todos os seus intervenientes e por isso não admira que sejamos contagiados por essa pulsão amorosa. Desde a escrita do argumento, partilhada entre Sergio Leone, Bernardo Bertolucci,  Dario Argento e Sergio Donati, passando pela fotografia de Tonino Delli Coli, a Música de Ennio Morricone, as interpretações de todos os atores e atrizes, em especial Claudia Cardinale e Henry Fonda e terminando na realização de Sergio Leone, tudo neste filme respira magnificiência.
Sergio Leone faz aqui uma homenagem ao grande cinema americano em especial a um género crepuscular, o western, que durante muitos anos se banalizou em produções industriais de um mau gosto confrangedor, mas que foi capaz também de nos brindar com indiscutíveis  obras primas  do cinema como "A desaparecida" e "A paixão dos fortes" de John Ford, "Johnny Guitar", de Nicholas Ray e "Imperdoável" de Clint Eastwood.
E Sergio Leone, cultor de uma estilo operático, muito típico do Western Spaghetti, de que foi um dos impulsionadores, consegue descobrir e temperar a substância que faz deste filme um clássico, candidato ao melhor filme de sempre.
O início e o fim do filme, são verdadeiramente alucinantes de criatividade e de um apurado sentido estético, em que sobressai uma cinematografia verdadeiramente genial, com uma câmara dotada de vida própria, como que querendo entrar naquele jogo do imaginário infantil, tirando  close-ups de cortar a respiração. O cenário, é ele próprio um personagem à parte com as suas feições míticas e os ruídos emblemáticos, que vão ajudando a contar a história.Tal como a música, com vários trechos específicos de personagens e de certos momentos da narrativa.
No meio, não está neste caso a virtude, notando-se algum apagamento, como se instalasse um cansaço natural depois de uma corrida vigorosa. 
As interpretações são verdadeiramente geniais, todo o "cast" está possuído pelo espirito da história e pela época, local e circunstâncias do enredo. Especialmente brilhantes, Claudia Cardinale e Henry Fonda.
Até à próxima !

sábado, 1 de junho de 2013

☑ A VÍTIMA DO MEDO, de Michael Powell

           Espreitando o medo dos outros: o medo do medo

"Peeping Tom"
UK (1960)
De Michael Powell, com Karlheim Bohm, Moira Shearer e Anna Massey.
Thriller. Drama psicológico e filosófico. 101 minutos. Cor.
Sinopse:
Um fotógrafo assassina mulheres, usando uma câmara para captar as suas expressões de terror ao morrer.

 
Um filme manifestamente avançado para a época em que surgiu e a recepção negativa de público e crítica, custaram ao prestigiado e até então "sério" realizador britânico o fim forçado da sua carreira e o exílio na Austrália.
Trata-se de um polémica reflexão sobre voyeurismo e violência, com referências muito remotas e "soft" ao sexo e que não obstante a incompreensão inicial, tornou-se num filme de culto e obra-prima das novas gerações, não seguramente pelo terror que veicula, que não é especialmente chocante para os "standards" actuais.
O filme sugere um paralelismo com o voyeurismo por excelência e socialmente aceite da experiência cinéfila, que neste filme é maximizado uma vez que nos tornamos duplamente cúmplices, num primeiro momento ao "desfrutar" do crime e posteriormente ao visualizá-lo pelos olhos do assassino na projeção, não se podendo menosprezar, ainda que aceitável e desculpável num contexto cinéfilo, o gozo pela dor e pelo medo infligidos nas vítimas.
Para além do mais, Powell, estabelendo uma relação de causalidade da situação psicótica do protagonista com os acontecimentos traumáticos da sua infância, consegue fazer do "serial killer"  Mark Lewis um ser humano simpático, sensivel e inteligente, produto da crueldade que lhe foi infligida na infância, bem diferente do estereótipo do assassino como em "Seven" ou "Silênco dos inocentes", só para citar dois exemplos notórios. E resultante desta empatia contranatura com o protagonita, Powell amplia e distorce o impulso voyeurista que há em todos nós, facto que é inovador no cinema contemporâneo e quase incompreensível à epoca em que foi concebido. 
Igualmente interessante é uma abordagem filosófica com base em conceitos de exploração e manipulação  da percepção,  retomados numa fase mais contemporânea entre outros  por  Michel Foucault, que defendem  a relação de causalidade entre o escrutínio e a punição.
Este filme desenquadra-se da época, sendo acusado na altura  de ser deprimente e falho de humor, como contraposto a Psycho,  mas na realidade trata-se de  uma desculpa esfarrapada, como se vai comprovando na cena da tabacaria  quando um idoso compra fotos de mulheres nuas, numa altura em que este tipo de produções era semi-clandestina no reino Unido e também nas cenas de realização do filme, que ocorre dentro de "Peeping Tom".
Comparado a Psycho (1960) é em certo sentido mais ousado que a obra prima de Hitchcok, nomeadamente na exploração da causalidade do estado psicótico, que é mais sólidamente defensável na sua lógica e  consequências  do que o primarismo Freudiano do filme Americano. 
O argumento é estimulante, desafiando a inteligência, capacidades perceptivas e a capacidade de filtrar as emoções do observador. 
Excelente cinematografia, com composições marcantes e imaginativas, associadas a um uso judicioso da cor, que  nos ficam na retina e de modo indelével marcadas na memória.

☑ TRILOGIA DA ALIENAÇÃO, de Michelangelo Antonioni

               À aventura: à procura das referências perdidas        
"L'Avventura"
Itália(1960).
De Michelangelo Antonioni, com Gabriele Ferzetti, Monica Vitti, e Lea Massari.
Drama.Mistério.Road movie.143 minutos.Preto e branco.
Sinopse: Um grupo de Italianos ricos, viajam num Iate no Mediterrâneo, quando Anna, a principal personagem até então, desaparece misteriosamente, numa ilha vulcânica que visitavam. Sandro, o noivo de Anna e Claudia, a sua melhor amiga, tentam encontrá-la em vários locais da  Sicília, e entretanto tornam-se amantes.
 
Recebido friamente pelo público e crítica na premiére do Festival de Cannes de 1960, mas não obstante, vencedor do Prémio especial do juri, "pela  sua linguagem cinematográfica inovadora", este filme marca a entrada de Antonioni na galeria dos cineastas de culto internacional. Antonioni impõe-se, de facto, como um realizador muito sui-generis, sem paralelo na época. Este filme inicia a sua trilogia da alienação, também chamada às vezes da "incomunicabilidade ou do vazio", que se continua com "La notte", de 1961 e se completa com "L'Eclisse", de 1962. Neste filme, começam-se a desenhar as premissas do cinema de Antonioni. Trata-se de um cinema de raiz experimental e de narrativa não linear, quase real-time, onde prevalece o foco no comportamento das personagens, seus estados de alma e as suas interações nos grupos sociais, em detrimento de uma suposta lógica espacio-temporal e causa-efeito, associada aos enredos tradicionais. 
"À aventura" é um retrato  de uma certa classe média alta da Itália do pós-guerra, em profunda crise de valores, enredada nas contradições do êxito e da ascenção social e  onde o ócio, a futilidade e o prazer proibido, se impõem como regras de conduta.
Filme com uma cinematografia peculiar, que assenta num preto e branco estilizado e numa estudada opção pela profundidade de campo, resultando numa  justaposição  de camadas sempre focadas, do qual fazem parte, em primeiro plano, personagens superficiais, desprovidas de densidade psicológica em continuidade lógica  com um  fundo desolador, práticamente sem expressão de vida, nas paisagens, edificios, praças e ruas, onde apenas  deparamos com seres inertes, que assistem extasiados ao passeio dessa elite Italiana, desenhando os contornos de um road-movie multifacetado, a um só tempo psicológico e socio-político.
Não deixa de ser curioso que práticamente no início do filme, assistamos ao desaparecimento, da sua personagem principal até então, precisamente a única que punha em causa o status-quo e o modo de vida superficial da classe a que pertencia. Essa perda, qual pecado original, é também uma oportunidade para um novo olhar e um renovado impulso passional, que cresce e se alimenta na culpa que lhe está associada.
Este filme é portanto sobre o desaparecimento e consequente procura das referências físicas, morais e psicológicas de um certo modelo de sociedade, que Antonioni compõe e decompõe de forma primorosa.


                            A noite :máscaras e sombras
"La notte"
Itália (1961).
De Michelangelo Antonioni, com Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau e Monica Vitti.
Drama.115 minutos.Preto e branco.
Sinopse: Milão, princípio dos anos sessenta. Um dia na vida de Giovanni Pontano um escritor de sucesso. Com a sua mulher Lydia,  visita um escritor seu amigo que está a morrer de uma doença terminal. Depois, Lydia, deambula pela cidade até ao local onde viveu anos antes e mais tarde  acabam ambos na festa nocturna do lançamento do seu novo livro.
 
Neste segundo capítulo da trilogia, Antonioni, volta aos temas da incomunicabilidade e do vazio existencial, expressos na insatisfação associada a relações disfuncionais e na procura que daí resulta, de novos paradigmas afectivos e passionais.
Estes temas são abordados, sem a preocupação de contar uma história, com princípio meio e fim, como é apanágio das narrativas tradicionais. Em vez disso Antonioni, empenha-se na meticulosa construção e desconstrução de quadros visuais, onde assistimos lentamente, quase em real-time ao fruir de comportamentos e expressões tradutores de um mal estar existencial.  Se em "À aventura", a resposta para esse desconforto configurou-se numa procura incessante, da referência perdida, num deserto onde a paixão e a culpa trocavam ardilosamente os papeis de oásis e miragens, na "Noite", a introdução do elemento literário funciona como uma tentativa de racionalização e talvez cábula psicanalítica, para as perdas e os lutos. No início do filme, na visita ao amigo moribundo, a ponte entre o passado e o futuro começa a desenhar-se.Mais tarde, é uma Lydia taciturna e nostálgica que volta a um local do seu passado, à procura de respostas para uma relação em crise. No futuro próximo, a festa literária, onde do livro só conhecemos a capa, é a rejeição  de qualquer  racionalização, em nome do pragmatismo - uma proposta tentadora de emprego para o escritor - e do prazer imediato e fácil, expresso nos flirts ocasionais e nas brincadeiras frívolas. É esta noite de temperamento volátil como os personagens - primeiro cálida depois extremamente chuvosa - que serve de testemunho de histórias vazias de conteúdo e relações em ruínas. Quando a noite se despede e se levanta uma manhã hesitante, num relvado imenso e vazio, sem testemunhas excepto nós, o casal em crise, ensaia por fim um definitivo diálogo e toda a poesia deste filme converge para o momento em que é feito um balanço doloroso da sua relação. Depois daquela noite, estas palavras, que anunciam alguma esperança, traduzem a continuação de um sonho ou são o espelho da própria realidade ?

                     O eclipse: a noite volta sempre
                                                           
"L'ECLISSE"
Itália (1962).
De Michelangelo Antonioni, com Alain Delon, Monica Vitti, e Francisco Rabal.
Drama.Romance.126 minutos.Preto e branco.
Sinopse: Início dos anos sessenta, subúrbios de Roma.Vittoria uma bonita tradutora, rompe com o seu namorado o escritor Ricardo. Vittoria dirige-se à baixa para encontrar a sua mãe uma viciada na bolsa e encontra Piero um corretor, num dia de crash bolsista.
O materialista Piero e a circunspecta Vittoria, começam uma relação sui-generis.

 
Não deixa de ser curioso constatar que neste remate da trilogia da alienação, a protagonista rompe com o seu namorado, precisamente um escritor, sendo inevitável a analogia ao final do filme anterior, " A noite", em que se tinha ficado de certa forma num impasse na relação disfuncional do escritor Pontano, com Lydia. Neste filme os nomes são diferentes, mas fica a intrigante alusão, associada, de resto, ao carácter enigmático do título deste filme, que pode ser lido na sequência da trilogia, como uma fugaz revisita  da noite, ao clarão do sucesso monetário e afectivo que se tinha instalado.
Quando reinava a agitação bolsista, um "crash" inesperado fez regressar em força uma certa  Itália deprimida, das ruas desérticas e dos edifícios desabitados e Antonioni estava lá com a sua câmara  metediça, sempre ligada e atenta a todos os pormenores, num espaço indefinido e num tempo que se escoa lentamente. Neste filme o barulho das vozes , dá lugar ao silêncio dos rostos, transtornados pela surpresa e desolação.O silêncio do meio físico é uma força opressora, que reforça o senso de vazio e de incomunicabilidade, que é neste fecho de trilogia, a grande conclusão que se impõe. A carga enigmática e a ambiguidade da relação entre Vittoria e Piero, onde a linguagem corporal contradiz as palavras quase ausentes,  toma  conta da narrativa, tornando o filme uma vívida  demonstração de impotência e desespero.
A sequência final é a  expressão do eclipse psicológico e físico, o fim da jornada ao vazio da condição humana.