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domingo, 9 de junho de 2013

☑ THE RAID: REDEMPTION, de Gareth Evans

                                                 Pancadaria de morte

"Serbuan maut".
Indonésia & EUA (2011).
De Gareth Evans, com Iko Uwais, Donny Alamsyah e Ray Sahetapy.
Ação. Crime. Thriller. 101 minutos. 
Sinopse:
Em Jakarta, Indonésia, uma unidade SWAT invade um complexo de apartamentos que funciona como o quartel general dos barões da droga. Esta unidade de polícia é identificada e cercada dentro do edifício e os homens estão por sua conta, uma vez que a operação não tem qualquer suporte do exterior.

Muito pouco a dizer, a não ser que às vezes há boas razões que nos levam a ver um mau filme, como seja fazer companhia a um filho.
Este filme Indonésio realizado pelo galês Gareth Evans, por incrível que pareça, ainda teve um bom acolhimento mesmo entre gente do cinema a sério e não é de estranhar que tivesse arrebatado uns quantos prémios do público em festivais e um bom score no IMDB, porque para o género de extrema ação e artes marciais, até que tem atributos técnicos acima da média. Mas não há nenhum sumo ou ilação séria a tirar deste filme, a não ser a muita gabada competência técnica, muito ao jeito de um ultra-realista jogo de video.
Recomendado para fanáticos do género violência hardcore. A evitar pelos restantes.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

☑ A SOMBRA DO CAÇADOR, de Charles Laughton

                                      Sonho ou realidade ?

"The night of the hunter"
EUA (1955).
De Charles Laughton, com Robert Mitchum, Shelley Winters e Lillian Gish
Drama. Filme negro. Thriller. Preto e branco. 93 minutos. 
Sinopse:
Harry Powell é um psicopata e fanático religioso  que casa com viúvas, matando-as depois, para ficar com o seu dinheiro, convencendo-se que ajuda Deus a mantê-las afastadas dos desejos carnais. Após o enforcamento de um assaltante de bancos, casa com a sua viúva, mas tem que enfrentar a resistência dos filhos desta, que recusam revelar-lhe o paradeiro do dinheiro roubado.
 

Charles Laughton (1899-1962), foi um ator britânico de teatro e cinema (Spartacus, O Corcunda de Notre Dame), tendo  realizado apenas este filme, que constituiu um fracasso de bilheteira e foi olhado de soslaio pela crítica,  situação que não é alheia  ao seu manifesto desfasamento em relação à sensibilidade dominante da América do pós-guerra. O facto deste filme ser em termos estéticos radicamente diferente dos filmes convencionais e não se enquadrar fácilmente num género, incorporando elementos do thriller, do filme negro e da fábula, poderá ser a razão pela qual  esta obra prima absoluta do cinema, continua a ser ainda hoje tão esquecida, mesmo entre os cinéfilos.
O argumento baseia-se numa novela de Davis Grubb e retrata a vida de um pastor charlatão, psicopata e misógino, com queda para desposar e matar viúvas. Nesta alegoria, da eterna luta entre o bem e o mal, Robert Mitchum encarna Harry Powell, o lobo com pele de cordeiro, que seduz e persegue os cordeiros inocentes - a mãe e os filhos -  apenas para lhes usurpar o dinheiro.
Lillian Gish, a grande diva do cinema mudo, num plano ambiguo entre o divino e o humano, surge como a referência da bondade e da proteção. 
As duas crianças, John e Pearl, empreendem uma fuga através do rio, num barco a remos, sempre perseguidas pelo espectro medonho de Powell, numa sequência verdadeiramente mágica e inesquecível, talvez o conjunto de imagens mais fascinantes  que o cinema gerou até hoje.
Essa perigosa viagem,  testemunhada por um mundo animal  estranho e expectante, remete-nos para uma fábula de raízes bíblicas, sobre a eterna oposição cósmica  entre o bem e o mal,  e  a imperceptivel e imponderável mão da providência, revelada numa sublime poesia visual, onde mais do que sermos espectadores é o próprio filme que nos visiona.  
A fotografia a preto e branco de Stanley Cortez é um dos pontos fortes do filme, através de uma  aposta  declarada numa  estética expressionista, com as suas formas góticas sublinhadas por angulos agudos, como se pode constatar na cena do casal no quarto de dormir, onde a   abóbada e a janela mimetizam uma capela gótica, no qual se recorta a silhueta esfíngica e ameaçadora  de Powell. Esta geometria particular é iluminada por  luzes intensas que contrastam com sombras profundas  prolongando e deformando as formas,  num exercício estilístico orientado aos propósitos de efabulação da narrativa.  Deste modo, a realidade é  amplificada e distorcida e privilegia-se a vertente  onírica,  com  exacerbação  das emoções em detrimento da vertente racional. Assim o filme afasta qualquer leitura realista e emerge como uma perturbante materialização de um pesadelo  infantil. 
Neste filme, é abordada a dualidade moral sob o ponto de vista inter e intra-pessoal, neste último caso com um acento irónico e icónico, através da antítese expressa pelas tatuagens das palavras AMOR e ÓDIO no dorso dos dedos de Powell.
Mas o filme não se fecha em considerações redutoras sobre a moral, e joga também no tabuleiro da subtileza e da ambiguidade através de referências cruzadas entre  a inocência do universo  infantil e a praxis  normalizada  dos adultos, por exemplo na loja dos doces, cenário essencialmente do imaginário infantil  mas que no filme é o local por excelência de coscuvilhice  dos crescidos.
Embora a tónica do filme seja colocada num nível de seriedade, inerente à clássica oposição entre o bem e mal e o horror e desconforto sejam omnipresentes, a verdade é que há também espaço para o humor, quase sempre a cargo de Powell, por exemplo, na linguagem com que interpela Deus e os seus fiéis, na forma como usa as tatuagens dos dedos para fins de doutrinação e no modo peculiar como trata as duas crianças ("Chiiil-dren...").
Em suma, uma  singular  meditação lírica sobre  a preservação do espírito de  inocência num mundo corrompido pela mentira, dessimulação  e materialismo dos adultos.
Soberbas interpretações de Robert Mitchum e de Lillian Gish e uma realização genial de Laughton, que nos deixou  este prodigioso filme como o seu único  legado cinematográfico.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

☑ ☑ ☑ ACONTECEU NO OESTE, de Sergio Leone

                             Era uma vez a magia do Cinema

 

"C'era una volta il West" (original Italiano)
"Once upon a tine in West" (Inglês) 
1968.
Itália  & EUA. 
De Sergio Leone, com Henry Fonda, Claudia Cardinale, Charles Bronson, Jason Robards, Gabriele Ferzetti e Jack Elam
Western (Spagheti).  Aventura. 175 minutos. Côr.
Sinopse:
Brett McBain, um Irlandês viúvo, vive com os seus três filhos, no Oeste, numa propiedade árida mas com água, rara nessas paragens, factor importante para atrair o caminho de ferro, que nessa altura rasgava as planícies da fronteira, rumo ao pacífico. Tinha o sonho de nela construir uma estação e uma cidade ao redor, mas esses terrenos eram também cobiçados pelo magnata da ferrovia e essa ganância originou a chacina de toda a sua família, às mãos de Frank, o cruel pistoleiro a soldo do barão do caminho de Ferro, precisamente no dia em que a família preparava uma festa de recepção a Jill McBain, a jovem com quem Brett se tinha casado secretamente em New Orleans. Esse crime hediondo foi imputado injustamente a Cheyenne, o lendário bandido da fronteira. Na mesma altura chega à região, Harmónica, um homem misterioso, perito no manejo das armas e na música que toca no seu instrumento de sopro. O que une e separa estes personagens é o que descobriremos neste épico, de ambição, cobiça, desejo e vingança, nos alvores da construção do sonho americano.



É raro querer rever um filme e concretizar esse desejo. Por uma razão ou outra, mesmo que seja esse o plano, acabo por escolher uma novidade. Não é este o caso deste filme de Sergio Leone, que se insinua sempre em qualquer das minhas "playlists", como uma escolha natural. 
Com alguns anos de intervalo, já   visionei por três vezes, este épico da sétima arte e em todas elas experimentei simultaneamente o deslumbre do olhar infantil e o extase místico de uma velho asceta.
Este é um dos raros filmes  onde é possível sentir a paixão do cinema em todos os seus intervenientes e por isso não admira que sejamos contagiados por essa pulsão amorosa. Desde a escrita do argumento, partilhada entre Sergio Leone, Bernardo Bertolucci,  Dario Argento e Sergio Donati, passando pela fotografia de Tonino Delli Coli, a Música de Ennio Morricone, as interpretações de todos os atores e atrizes, em especial Claudia Cardinale e Henry Fonda e terminando na realização de Sergio Leone, tudo neste filme respira magnificiência.
Sergio Leone faz aqui uma homenagem ao grande cinema americano em especial a um género crepuscular, o western, que durante muitos anos se banalizou em produções industriais de um mau gosto confrangedor, mas que foi capaz também de nos brindar com indiscutíveis  obras primas  do cinema como "A desaparecida" e "A paixão dos fortes" de John Ford, "Johnny Guitar", de Nicholas Ray e "Imperdoável" de Clint Eastwood.
E Sergio Leone, cultor de uma estilo operático, muito típico do Western Spaghetti, de que foi um dos impulsionadores, consegue descobrir e temperar a substância que faz deste filme um clássico, candidato ao melhor filme de sempre.
O início e o fim do filme, são verdadeiramente alucinantes de criatividade e de um apurado sentido estético, em que sobressai uma cinematografia verdadeiramente genial, com uma câmara dotada de vida própria, como que querendo entrar naquele jogo do imaginário infantil, tirando  close-ups de cortar a respiração. O cenário, é ele próprio um personagem à parte com as suas feições míticas e os ruídos emblemáticos, que vão ajudando a contar a história.Tal como a música, com vários trechos específicos de personagens e de certos momentos da narrativa.
No meio, não está neste caso a virtude, notando-se algum apagamento, como se instalasse um cansaço natural depois de uma corrida vigorosa. 
As interpretações são verdadeiramente geniais, todo o "cast" está possuído pelo espirito da história e pela época, local e circunstâncias do enredo. Especialmente brilhantes, Claudia Cardinale e Henry Fonda.
Até à próxima !

sábado, 1 de junho de 2013

☑ A VÍTIMA DO MEDO, de Michael Powell

           Espreitando o medo dos outros: o medo do medo

"Peeping Tom"
UK (1960)
De Michael Powell, com Karlheim Bohm, Moira Shearer e Anna Massey.
Thriller. Drama psicológico e filosófico. 101 minutos. Cor.
Sinopse:
Um fotógrafo assassina mulheres, usando uma câmara para captar as suas expressões de terror ao morrer.

 
Um filme manifestamente avançado para a época em que surgiu e a recepção negativa de público e crítica, custaram ao prestigiado e até então "sério" realizador britânico o fim forçado da sua carreira e o exílio na Austrália.
Trata-se de um polémica reflexão sobre voyeurismo e violência, com referências muito remotas e "soft" ao sexo e que não obstante a incompreensão inicial, tornou-se num filme de culto e obra-prima das novas gerações, não seguramente pelo terror que veicula, que não é especialmente chocante para os "standards" actuais.
O filme sugere um paralelismo com o voyeurismo por excelência e socialmente aceite da experiência cinéfila, que neste filme é maximizado uma vez que nos tornamos duplamente cúmplices, num primeiro momento ao "desfrutar" do crime e posteriormente ao visualizá-lo pelos olhos do assassino na projeção, não se podendo menosprezar, ainda que aceitável e desculpável num contexto cinéfilo, o gozo pela dor e pelo medo infligidos nas vítimas.
Para além do mais, Powell, estabelendo uma relação de causalidade da situação psicótica do protagonista com os acontecimentos traumáticos da sua infância, consegue fazer do "serial killer"  Mark Lewis um ser humano simpático, sensivel e inteligente, produto da crueldade que lhe foi infligida na infância, bem diferente do estereótipo do assassino como em "Seven" ou "Silênco dos inocentes", só para citar dois exemplos notórios. E resultante desta empatia contranatura com o protagonita, Powell amplia e distorce o impulso voyeurista que há em todos nós, facto que é inovador no cinema contemporâneo e quase incompreensível à epoca em que foi concebido. 
Igualmente interessante é uma abordagem filosófica com base em conceitos de exploração e manipulação  da percepção,  retomados numa fase mais contemporânea entre outros  por  Michel Foucault, que defendem  a relação de causalidade entre o escrutínio e a punição.
Este filme desenquadra-se da época, sendo acusado na altura  de ser deprimente e falho de humor, como contraposto a Psycho,  mas na realidade trata-se de  uma desculpa esfarrapada, como se vai comprovando na cena da tabacaria  quando um idoso compra fotos de mulheres nuas, numa altura em que este tipo de produções era semi-clandestina no reino Unido e também nas cenas de realização do filme, que ocorre dentro de "Peeping Tom".
Comparado a Psycho (1960) é em certo sentido mais ousado que a obra prima de Hitchcok, nomeadamente na exploração da causalidade do estado psicótico, que é mais sólidamente defensável na sua lógica e  consequências  do que o primarismo Freudiano do filme Americano. 
O argumento é estimulante, desafiando a inteligência, capacidades perceptivas e a capacidade de filtrar as emoções do observador. 
Excelente cinematografia, com composições marcantes e imaginativas, associadas a um uso judicioso da cor, que  nos ficam na retina e de modo indelével marcadas na memória.

☑ TRILOGIA DA ALIENAÇÃO, de Michelangelo Antonioni

               À aventura: à procura das referências perdidas        
"L'Avventura"
Itália(1960).
De Michelangelo Antonioni, com Gabriele Ferzetti, Monica Vitti, e Lea Massari.
Drama.Mistério.Road movie.143 minutos.Preto e branco.
Sinopse: Um grupo de Italianos ricos, viajam num Iate no Mediterrâneo, quando Anna, a principal personagem até então, desaparece misteriosamente, numa ilha vulcânica que visitavam. Sandro, o noivo de Anna e Claudia, a sua melhor amiga, tentam encontrá-la em vários locais da  Sicília, e entretanto tornam-se amantes.
 
Recebido friamente pelo público e crítica na premiére do Festival de Cannes de 1960, mas não obstante, vencedor do Prémio especial do juri, "pela  sua linguagem cinematográfica inovadora", este filme marca a entrada de Antonioni na galeria dos cineastas de culto internacional. Antonioni impõe-se, de facto, como um realizador muito sui-generis, sem paralelo na época. Este filme inicia a sua trilogia da alienação, também chamada às vezes da "incomunicabilidade ou do vazio", que se continua com "La notte", de 1961 e se completa com "L'Eclisse", de 1962. Neste filme, começam-se a desenhar as premissas do cinema de Antonioni. Trata-se de um cinema de raiz experimental e de narrativa não linear, quase real-time, onde prevalece o foco no comportamento das personagens, seus estados de alma e as suas interações nos grupos sociais, em detrimento de uma suposta lógica espacio-temporal e causa-efeito, associada aos enredos tradicionais. 
"À aventura" é um retrato  de uma certa classe média alta da Itália do pós-guerra, em profunda crise de valores, enredada nas contradições do êxito e da ascenção social e  onde o ócio, a futilidade e o prazer proibido, se impõem como regras de conduta.
Filme com uma cinematografia peculiar, que assenta num preto e branco estilizado e numa estudada opção pela profundidade de campo, resultando numa  justaposição  de camadas sempre focadas, do qual fazem parte, em primeiro plano, personagens superficiais, desprovidas de densidade psicológica em continuidade lógica  com um  fundo desolador, práticamente sem expressão de vida, nas paisagens, edificios, praças e ruas, onde apenas  deparamos com seres inertes, que assistem extasiados ao passeio dessa elite Italiana, desenhando os contornos de um road-movie multifacetado, a um só tempo psicológico e socio-político.
Não deixa de ser curioso que práticamente no início do filme, assistamos ao desaparecimento, da sua personagem principal até então, precisamente a única que punha em causa o status-quo e o modo de vida superficial da classe a que pertencia. Essa perda, qual pecado original, é também uma oportunidade para um novo olhar e um renovado impulso passional, que cresce e se alimenta na culpa que lhe está associada.
Este filme é portanto sobre o desaparecimento e consequente procura das referências físicas, morais e psicológicas de um certo modelo de sociedade, que Antonioni compõe e decompõe de forma primorosa.


                            A noite :máscaras e sombras
"La notte"
Itália (1961).
De Michelangelo Antonioni, com Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau e Monica Vitti.
Drama.115 minutos.Preto e branco.
Sinopse: Milão, princípio dos anos sessenta. Um dia na vida de Giovanni Pontano um escritor de sucesso. Com a sua mulher Lydia,  visita um escritor seu amigo que está a morrer de uma doença terminal. Depois, Lydia, deambula pela cidade até ao local onde viveu anos antes e mais tarde  acabam ambos na festa nocturna do lançamento do seu novo livro.
 
Neste segundo capítulo da trilogia, Antonioni, volta aos temas da incomunicabilidade e do vazio existencial, expressos na insatisfação associada a relações disfuncionais e na procura que daí resulta, de novos paradigmas afectivos e passionais.
Estes temas são abordados, sem a preocupação de contar uma história, com princípio meio e fim, como é apanágio das narrativas tradicionais. Em vez disso Antonioni, empenha-se na meticulosa construção e desconstrução de quadros visuais, onde assistimos lentamente, quase em real-time ao fruir de comportamentos e expressões tradutores de um mal estar existencial.  Se em "À aventura", a resposta para esse desconforto configurou-se numa procura incessante, da referência perdida, num deserto onde a paixão e a culpa trocavam ardilosamente os papeis de oásis e miragens, na "Noite", a introdução do elemento literário funciona como uma tentativa de racionalização e talvez cábula psicanalítica, para as perdas e os lutos. No início do filme, na visita ao amigo moribundo, a ponte entre o passado e o futuro começa a desenhar-se.Mais tarde, é uma Lydia taciturna e nostálgica que volta a um local do seu passado, à procura de respostas para uma relação em crise. No futuro próximo, a festa literária, onde do livro só conhecemos a capa, é a rejeição  de qualquer  racionalização, em nome do pragmatismo - uma proposta tentadora de emprego para o escritor - e do prazer imediato e fácil, expresso nos flirts ocasionais e nas brincadeiras frívolas. É esta noite de temperamento volátil como os personagens - primeiro cálida depois extremamente chuvosa - que serve de testemunho de histórias vazias de conteúdo e relações em ruínas. Quando a noite se despede e se levanta uma manhã hesitante, num relvado imenso e vazio, sem testemunhas excepto nós, o casal em crise, ensaia por fim um definitivo diálogo e toda a poesia deste filme converge para o momento em que é feito um balanço doloroso da sua relação. Depois daquela noite, estas palavras, que anunciam alguma esperança, traduzem a continuação de um sonho ou são o espelho da própria realidade ?

                     O eclipse: a noite volta sempre
                                                           
"L'ECLISSE"
Itália (1962).
De Michelangelo Antonioni, com Alain Delon, Monica Vitti, e Francisco Rabal.
Drama.Romance.126 minutos.Preto e branco.
Sinopse: Início dos anos sessenta, subúrbios de Roma.Vittoria uma bonita tradutora, rompe com o seu namorado o escritor Ricardo. Vittoria dirige-se à baixa para encontrar a sua mãe uma viciada na bolsa e encontra Piero um corretor, num dia de crash bolsista.
O materialista Piero e a circunspecta Vittoria, começam uma relação sui-generis.

 
Não deixa de ser curioso constatar que neste remate da trilogia da alienação, a protagonista rompe com o seu namorado, precisamente um escritor, sendo inevitável a analogia ao final do filme anterior, " A noite", em que se tinha ficado de certa forma num impasse na relação disfuncional do escritor Pontano, com Lydia. Neste filme os nomes são diferentes, mas fica a intrigante alusão, associada, de resto, ao carácter enigmático do título deste filme, que pode ser lido na sequência da trilogia, como uma fugaz revisita  da noite, ao clarão do sucesso monetário e afectivo que se tinha instalado.
Quando reinava a agitação bolsista, um "crash" inesperado fez regressar em força uma certa  Itália deprimida, das ruas desérticas e dos edifícios desabitados e Antonioni estava lá com a sua câmara  metediça, sempre ligada e atenta a todos os pormenores, num espaço indefinido e num tempo que se escoa lentamente. Neste filme o barulho das vozes , dá lugar ao silêncio dos rostos, transtornados pela surpresa e desolação.O silêncio do meio físico é uma força opressora, que reforça o senso de vazio e de incomunicabilidade, que é neste fecho de trilogia, a grande conclusão que se impõe. A carga enigmática e a ambiguidade da relação entre Vittoria e Piero, onde a linguagem corporal contradiz as palavras quase ausentes,  toma  conta da narrativa, tornando o filme uma vívida  demonstração de impotência e desespero.
A sequência final é a  expressão do eclipse psicológico e físico, o fim da jornada ao vazio da condição humana.

sábado, 25 de maio de 2013

☑ A PAIXAO DE JOANA D'ARC, de Carl Theodor Dreyer

                                   Cinema de inspiração divina

"La passion de Jeanne D'Arc".
França (1928).
De Carl Theodor Dreyer, com Maria Falconetti, Eugene Silvain, André Berley.
Drama.História. Biografia.
82 minutos (DVD Criterium). Preto e branco. Mudo.
Sinopse: Uma crónica do julgamento de Joana D'Arc, acusada de heresia, onde assistimos às pressões das autoridades eclesiásticas, para forçar Joana a retratar-se das suas supostas visões divinas.

  
Um filme feito há 85 anos, que sobreviveu inteiro à erosão do tempo, em todas as dimensões que se considere, conquistando o estatuto de obra intemporal. Rodado em França em 1927, foi logo vítima de censura, no ano do seu lançamento (1928). O negativo original e um segundo negativo reeditado por Dreyer, foram queimados pelo fogo. Durante mais de meio século, apenas estiveram disponíveis cópias truncadas ou uma versão sonorizada que faziam grandes alterações a este clássico do cinema mudo.
Em 1981, foi encontrada miraculosamente  uma cópia Dinamarquesa original, completa e em bom estado  de conservação numa arrecadação de uma instituição de saúde mental da Noruega (!).
No original fazia parte um trecho de musica live e no restauro de 1981 é introduzida "Voices of Light" escrita por Richard Einhorn, com músicas e textos medievais inspiradas nos eventos históricos e no próprio filme.
Um  filme único  com um visão portentosa sobre a diferença e a intolerância  muitas vezes associadas da forma mais cruel.
Dreyer, presenteia-nos com uma obra fulgurante, plena dos sentimentos mais sublimes a par dos mais mesquinhos instintos e actos, de que é capaz a espécie humana, através de close-ups mesmerizantes de uma Falconetti divinamente transfigurada.
Uma profunda e sensível aventura espiritual, que ultrapassa a dimensão meramente religiosa e transporta a mente e o coração para horizontes raramente alcançados pelo cinema. 
 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

☑ A MULHER SEM CABEÇA, de Lucrecia Martel

               Quando não sabemos o que deixamos para trás
                                                             
"La mujer sin cabeza"
Argentina (2008). 
De Lucrecia Martel, com Maria Onetto, Claudia Cantero e César Bórdon. 
Drama.Mistério.Thriller psicológico.87 minutos.
Sinopse:Verónica, uma mulher de meia idade, conduzia o seu carro, num entardecer chuvoso numa estrada deserta , quando sentiu embater em algo. Após momentos de perturbação e indecisão, resolveu seguir o seu caminho, mas a partir de então ficou obcecada com o acontecimento, convencida de ter matado alguém.

Terceira longa de Lucrecia Martel, este filme foi muito mal recebido pela crítica e público do festival de Cannes em 2008, acusado de ser incompreensível. 
De facto, o trabalho anterior da realizadora Argentina já permitira traçar dela um perfil de autora cerebral  que desafiava as convenções vigentes. À superfície, o título do filme, pela sua ambiguidade, convida-nos a uma atitude eminentemente cerebral, de decifrar um mistério, tanto no sentido imediato das palavras quanto no seu alcance figurativo. 
No início do filme, Verô a personagem principal, é nos apresentada por uma característica física aparentemente trivial, o seu gabado cabelo pintado de louro. Em seguida, ao conduzir o seu carro, embate em algo que não identifica - um animal ? uma pessoa ? - e após momentos de angústia e indecisão, resolve abandonar  o local, sem sair do carro, não esclarecendo se de facto atingiu ou não uma pessoa (pareceu-lhe que sim), atitude esta, pelo menos, moralmente questionável. Estes acontecimentos desencadeiam um estado confusional na protagonista, que se torna incapaz de confiar na percepção do (seu) real e nós que vemos o filme (ficção) um pouco pelos  olhos e mente desta "mulher sem cabeça", ficamos perdidos, a precisar de um mapa. Poderemos ter a certeza do que vemos no nosso filme, guiados pela cabeça ausente desta mulher ? No limite, até poderemos duvidar, se o acidente aconteceu mesmo no mundo "real" da protagonista ou se esta o concebeu de forma onírica, num esquema muito à David Lynch, o que para nós espectadores, corresponderia a entrarmos num túnel dentro de um túnel ou de uma ficção no interior da ficção. E esta hipótese, é sugerida de mansinho, com o sono atribulado e culpado de Verô, no quarto de Hotel depois de  uma cena adúltera com um familiar. E mais ainda, perto do final, quando desaparecem misteriosamente as provas destes acontecimentos, deixando tudo em aberto. 
Surge destas premissas inquietantes o desafio de reconstituir o enredo, através de um plano B, agora deliberadamente fora da perspectiva de Verô e estudando a interação da protagonista com as  personagens significativas da sua envolvência. Todas as pistas que nos são fornecidas apontam para um efeito "gota de água", algo de insidioso que se foi sedimentando em Verô, até implodir na forma de um choque emocional clássico, com problemas de percepção e sinais de desfasamento da realidade. 
Falar de amnésia é impróprio, como parece forçado fazer uma leitura psicanalítica e política desta situação, como se o filme fosse uma metáfora à ditadura militar dos anos 70, com os seus desaparecimentos e assassínios, embora se insinue uma colagem dos acontecimentos a essa época, nomeadamente através da banda sonora do filme. Nós não iremos tão longe, embora o peso político, à luz dos contrastes sociais subtilmente expostos no filme, seja uma evidência. 
E a culpa? será que não é importante a culpa ? Se este filme,  não fosse também sobre uma culpa, ainda que indefinida no seu objecto, não teria importância a obsessão da protagonista com "aquilo" que ficou na imagem do espelho retrovisor e esse facto não teria repercussão nas outras personagens, o que decididamente não é o caso. Mas a expressão desta suposta culpa será talvez, uma válvula de escape de algo mais profundo que se esconde na vacuidade aparente do mundo mental da protagonista.
Os elementos telúricos, sobretudo a água, são omnipresentes na narrativa e o seu simbolismo não deve ser menosprezado. Assim, depois da tormenta, que "turvou" tudo, incluindo  o que se vislumbra pelos vidros embaciados dos carros e o aspeto da água das torneiras - "Espere até clarear", diz a Verô, a certa altura, o empregado do Hotel - e depois de muita água ter passado debaixo das pontes, a protagonista pinta o cabelo de preto - de novo a água, que muda (quase) tudo - a mulher parece agora ter recuperado a cabeça sobre os ombros e nós o fio à meada. Será assim?
A resposta a esta pergunta está no final, quando somos convidados a visualizar o regresso a uma aparente normalidade através de uma barreira desfocada de vidro.
Em suma, estamos perante um filme que coloca questões pertinentes sobre a percepção e a memória dos acontecimentos e o modo como lidamos com as dúvidas permanentemente suscitadas pelas leituras das imagens que persistem desfocadas no nosso espelho retrovisor mental.