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quarta-feira, 8 de maio de 2013

☑ GET LOW - A LENDA DE FELIX BUSH (2009), de Aaron Schneider

                                         Promessas não cumpridas


EUA (2009).
De Aaron Schneider, com Robert Duvall, Sissy Spacek e Bill Murray
Drama.103minutos. 



Inspirado numa história real ocorrida no Tennessee em 1930s. 
Felix Bush (Robert Duvall), é um velho que vive isolado desde há quase quatro décadas, na sua cabana num bosque da periferia de uma cidadezinha do Tennessee. Trata-se de um homem  cujo comportamento anti-social, de que faz alarde num letreiro à entrada da sua propriedade ("Não entrar, cuidado com a caçadeira !"), fez dele uma autêntica lenda,  multiplicando-se na tradição oral da região, as histórias de violência que protagonizou. Um dia, após ter sabido da morte de um outro eremita da região, surpreendeu toda a gente, ao pretender organizar uma festa do seu próprio funeral, a que ele assistiria ainda vivo. Seriam convidadas, todas as pessoas, que tivessem algo a dizer sobre Felix e haveria um sorteio, cujo vencedor herdaria a  sua propriedade após a sua (real) morte. Para organizar o evento, contratou o agente funerário Frank Quinn (Bill Murray).
Este comportamento de Felix Bush, está relacionado com o peso de um passado obscuro que começa a desvendar-se quando surge na localidade, Mattie Derrow (Sissy Spacek), uma viúva, com quem admitiu ter tido um caso.
Primeira longa-metragem, do americano Aaron Schneider, que anteriormente apenas tinha sido autor de uma curta e que era conhecido pela direção de fotografia, sobretudo em séries de TV.
As premissas do argumento eram prometedoras, sobretudo no potencial  das histórias lendárias sobre o mau feitio do protagonista e no chamariz pouco usual de um funeral realizado...em vida ! No entanto, as histórias da relação atribulada de Felix com os membros da comunidade, que se afiguravam interessantes foram reduzidas ao mínimo e a ideia da encenação do funeral em vida, não resultou como se esperava, porque em grande parte foi subalternizada ou condicionada pela revelação do segredo do protagonista que se revelou pouco consistente, resvalando para o dramalhão, apesar do esforço de Robert Duvall.
Um filme sobre a culpa e a procura da redenção, que em grande parte, se fica pelas intenções, salvando-se as grandes interpretações de Robert Duvall, Sissy Spacek e Bill Murray e um registo de época e cinematografia sóbrias e coerentes.

domingo, 5 de maio de 2013

☑ VIRIDIANA (1961), de Luis Bunuel

Perdoai-lhes senhor, porque não sabem o que dizem
***




Apresentação

Palma de Ouro em Cannes (1961).
Considerada uma obra prima, pela generalidade da crítica. 
A associação de críticos  de Espanha, considera-o o melhor filme espanhol de sempre.
Com Silvia Pinal, Francisco Rabal e Fernando Rey.
1961. 90 minutos. Preto e branco.


Crítica
Este filme funciona do meu ponto de vista pessoal, como um
"case study", porque livremente me excluo do exército de crentes que o venera.
Antes de mais nada, devo dizer que acho incontornável e aprecio moderadamente o cinema de Luis Bunuel, desde os anos 70, quando vi pela primeira vez, "A Via Láctea". E digo "moderadamente", porque apesar de aplaudir o seu espírito livre e subversivo e a sua vasta cultura e imaginação febril, que se expressam em histórias singulares de uma memória viva e embebidas de uma perspicácia e de um humor corrosivo, características que no seu conjunto, são dificeis de inventariar nos realizadores da sua geração, no entanto não partilho a sua visão do mundo.
Devo dizer, antes de novas considerações, que em termos religiosos, me defino como não crente e não acho que, para esta questão tão pessoal e íntima, me deva servir de qualquer cartilha dos inúmeros bandos de incréus que pululam por este mundo, desde o iluminismo e que inchados de uma vaidade incomensurável, se acham investidos de uma missão quase divina, de por um lado, catequizar os não crentes e por outro, ainda de forma mais patética, arrepanhar para o seu infalível e maravilhoso ideário, os infelizes crentes que professam de forma para eles errónea, qualquer religião.Proselitismo que ultrapassa em muito o das religiões que apoucam ! Claro, que se desculpam desta gritante falta de humildade, com um amor acrisolado àquilo que eles chamam de razão e verdade. E quando estes argumentos, não chegam para emocionar a turba, esses próceres filhos das luzes, deitam mão de tudo o que lhes servir para descredibilizar as opiniões contrárias e é vê-los aí nos IMDB e blogs de crítica a espumar e a esporrar contra a pedofilia e os escandalos do Banco Vaticano e afins, lado a lado com o arrazoado pseudo-racional da ordem.
Que é que isto tem a ver com cinema e em especial com o filme de Bunuel, perguntar-me-ão.
Tem e não tem…
Tem, porque basta fazer uma consulta das críticas deste filme ao IMDB e blogs de crítica, para ver que está lá tudo o que foi dito. Um "crítico" da Índia, diz que este filme é sobre uma experiência religiosa errónea, deduzindo-se  que considera errados os impulsos de caridade cristã e certa a postura da religião da terra dele, face à extrema injustiça e obscena pobreza do seu país.
Um crítico num blog, eructa a seguinte pérola: " Na memória fica a altivez moral da noviça Viridiana (Pinal), que se recusa a dedicar uma mínima dose de calor humano ao tio (Fernando Rey). Após a morte dele, decide acolher mendigos, prostitutas, leprosos e vagabundos das ruas, arrebanhando-os para morar consigo, na esperança de fazê-los trabalhar, de “corrigí-los”. Perspicaz, Buñuel escancara a hipocrisia autocomiserativa, a falsa culpa – em vez de solidariedade – de onde nasce o ímpeto de caridade de idealistas ingênuos". 
Confesso que fiquei baralhado… li e reli, o texto para verificar, de facto, se a altivez moral se referia à única personagem humana e decente do filme…
Quanto ao calor humano que ela recusou ao tio, apenas foi um sábio sexto sentido que a norteou, como se pôde ver claramente no filme. O impulso de retirar da rua e dar valor àquele bando de infelizes, poderá até configurar um acto de ingénuo idealismo, mas "hipocrisia autocomiserativa" ?! - em vez da solidariedade, realça-se - Então, o que é essa porra de solidariedade ?! É dizer-lhes: "têm toda a minha solidariedade, mas nós não fazemos hipocrisia autocomiserativa, se quiserem comer, esperem que as condições sociais sejam mudadas por nós, OK ?!"
Bunuel, de facto questiona os fundamentos da moral e da caridade cristã e admite-se que os rejeite, porque na sua perspectiva, a natureza humana e os instintos básicos que lhe subjazem, opõem-se-lhe de forma insolúvel. E este pessimismo no filme é tão chocante, que não há sequer um mendigo que escape a esse anátema de Bunuel ! Bem confessou Bunuel o seu ódio à estatística mas ninguém lhe ligou : 100% de mendigos crápulas !  
A cena do cão libertado também é paradigmática. Por um cão libertado à ignomínia, um outro infeliz é imediatamente visualizado. Qual é o ponto ? Que é escusado salvar um cão, porque há milhares em idênticas condições? Bom, fiquemos por aqui…
Para mim os fundamentos defendidos por Bunuel, só são parcialmente válidos. E não vou pelo conceito da "Graça" defendido pelo catolicismo, vou mais pelos enunciados da razão, que quando convém, parece que são deitados ao lixo. É evidente que em grande parte o filme não passa de uma caricatura e sabe-se bem o que Bunuel quis fazer com isso: questionar os princípios da organização social e os fundamentos da moral cristã. 
Que o que sucedeu com Viridiana, estilhaçou grande parte do seu suporte da fé, isso é um facto evidente na sequência final do filme. Agora daí extrair outras consequências, incluindo a delirante "menage a trois", que muitos conseguem visualizar no final , isso só se fôr numa putativa sequela do filme ou na puta das suas escabrosas cabeças…
Que Bunuel se divirta com a iconoclastia da última ceia e que isso divirta o pagode - até eu me diverti - tem todo o direito e só vê quem quer. O que se critica aqui é a excessiva altivez e a superioridade moral, dos sem moral, que emergem triunfalmente da cena.
Quando Bunuel referiu, já no fim da sua vida, que se pudesse destruía todas as cópias de todos os seus filmes, isso foi interpretado como um exagero à escala surrealista do autor. Ninguém deu de barato, o ar de auto-crítica, que  poderá estar implícito nessa frase, negando-se a um homem genial a humildade e a possibilidade de rever a sua vida, como foi concedida e muito aplaudida a Viridiana.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

☑ O ESPÍRITO DA COLMEIA, de Victor Erice

Com os olhos e o coração à descoberta do espírito do cinema
*****

FICHA
Titulo em português: O espírito da colmeia
Título original em espanhol: El espíritu de la colmena
Ano: 1973
Origem: Espanha
Género: Drama, fantasia, política
Cinematografia: Luis Cuadrado
Argumento: Victor Erice, com colaborações de Ángel Fernández Santos e Francisco J. Querejeta
Realização: Victor Erice
Interpretações: Fernando Fernán Gómez, Teresa Gimpera, Ana Torrent e Isabel Tellería.

SINOPSE
Espanha, 1940. Um dia, o cinema ambulante chega a uma aldeia do planalto castelhano e é exibido o filme "Frankenstein" (1931), de James Whale. O filme impressiona sobremaneira  duas meninas, as  irmãs Isabel e Ana, sobretudo esta última, que obcecada pelo monstro do filme, inicia-se na descoberta dos mistérios do mundo.

CLIP



CRÍTICA
No princípio anuncia-se o cinema, em movimento, na planície parada e desolada.
O filme inicia-se com a proposta de um outro filme, que irrompendo dentro do nosso filme, com ele se plasma numa singular  e virulenta obra de arte, que nos arregala o nosso olhar infantil. Indiferente da nossa idade, nós estamos na primeira fila do cinema e são nossos aqueles olhares pueris que se espantam com os mistérios da criação, da morte, do bem e do mal.
Entretanto, não muito longe da sala de cinema o velho estudioso de apicultura, contempla mais uma vez perplexo, o mundo misterioso da colmeia. E também ao mesmo tempo, Teresa a mulher do apicultor,  numa viagem solitária de bicicleta, leva uma misteriosa carta ao comboio.
Apresenta-se desta forma o prodigioso filme de Victor Erice, obra multifacetada, com vários nucleos narrativos, correndo paralelamente e convergindo numa história de solidão, diferença e alienação, vista por vários ângulos mas privilegiando o olhar infantil.
Embora a simples contemplação deste filme, de delicadas matizes  emocionais, seja por si só suficiente para nos embeber numa riquissima experiência de puro cinema, há elementos do contexto socio-cultural e político, que poderão proporcionar ilações adicionais deste filme.
Deve ser referido que este é um filme rodado em 1973,  nos últimos anos  do Franquismo e não é indiferente ao contexto político, suscitando múltiplas leituras, que advêem igualmente do período histórico a que se reporta.
A narrativa ocorre na meseta catelhana, em 1940, um ano depois do fim do terrível flagelo da guerra civil espanhola e também no início da longa ditadura de Franco. Esse é também o ano do nascimento do realizador Victor Erice.

O argumento comporta várias linhas narrativas, que parecem realmente estanques uma vez que a solidão e a alienação são elementos  do enredo que propiciam tal estrutura. A principal, é a história de Ana e Isabel, as duas crianças de 6 e 8 anos, cujas vidas vão ser alteradas pela visão do filme Frankenstein de James Whale (1931), embora de forma diferenciada, díriamos até oposta. Isabel desvaloriza a importância da história relatada e quando questionada pela irmã acerca das razões que levaram o monstro a matar a menina e posteriormente a ser morto, responde que nada no cinema é verdadeiro, tudo se resumindo a truques e que o monstro existe como espírito, basta fechar os olhos e invocá-lo que ele aparece.Todo o seu comportamento posterior, culminando na sequência em que encena a sua morte - pelo monstro, presume-se - atesta essa visão das coisas, ao mesmo tempo que se revela insensivel e cruel em relação à irmã. Por outro lado Ana, confunde realidade e fantasia e empenha-se em encontrar realmente o monstro,e nessa altura a câmara e o olhar de Ana tornam-se indissociáveis. E repleta de inocência Ana, inicia a sua viagem solitária do conhecimento à escala infantil.

"- Ana o que está faltando a Don José ?
- Os olhos.
- Os olhos. Muito bem. Então coloque-os" 
Em linhas narrativas mais sumárias mas não menos importantes, fluem as histórias  do casal disfuncional de progenitores, ele alimentando a vertente intelectual  da história, com o seu universo de meditação e escrita centrada na vida das abelhas, ela representando a corrente mais emocional, cristalizada no amor perdido.
Estamos perante um filme singular, de contornos alegóricos, onde se respira uma atmosfera onírica, com ressonâncias filosóficas imediatas e simples e onde é dado ao espectador um papel importante, não meramente passivo, cabendo-lhe também a meritória tarefa de ajudar a tecer de forma coerente as delicadas texturas deste filme. 
Cenas marcantes são quase todas, desde a divertida aula de anatomia com Don José, que é apesar do seu carácter caricato, uma das muitas chaves interpretativas do filme, até aos "encontros" reais e "oníricos" de Ana com o monstro e incluindo a bela sequência final.
Quanto às conotações políticas e possiveis metáforas associadas às figuras do monstro (Franco), Ana e Isabel (Espanha, facções da guerra civil), casa/colmeia (Espanha), elas são legítimas, dependendo do gosto e da imaginação de quem as concebe.
Mas é inegável que o filme tem uma  necessária carga política, que lhe advem da oposição expressa entre o carácter gregário das abelhas e a solidão manifestada dos seus personagens. 
Este é um filme de imagens sublimes, facultadas por uma fotografia  em tons de mel,  por Luis Cuadrado, quase cego na altura da rodagem do filme (viria a suicidar-se anos mais tarde).
E  claro   não   podia   deixar   de   se   fazer   referência   à   interpretação milagrosa de Ana Torrent, como Ana.
Às belíssimas imagens, que nos deixam sem palavras para descrevê-las, juntam-se outras palavras significativas, estas ditas em partes pertinentes da narrativa pelos seus personagens, como o poema de Rosalía de Castro, lida na escola por uma criança:

Nem mesmo o rancor ou desprezo,
nem mesmo o temor de mudar.
Apenas sinto sede,
uma sede do que eu não sei que me mata.
Rios de vida, onde foram?
Ar, o ar que me falta. 
O que vês na escuridão que o faz tremer silenciosamente?
Não vejo. Vejo como um homem cego...
quando encara diretamente o sol.
Devo cair então onde os que caem nunca se levantam."
Rosalía de Castro, Poema XIII ( de Follas novas)
 
Ou da escrita obstinada de Don Fernando: 
Alguém a quem havia recentemente mostrado minha colméia de cristal,  
com o movimento de sua roda tão visível como o da roda principal de um relógio  
Alguém que via as constantes agitações dos favos de mel,
a agitação perpétua, enigmática e louca...  
das abelhas obreiras sobre os ninhos,  
as pontes e escadas que formam os alvéolos de cera,
as espirais invasoras da rainha,  
a atividade variada e incessante da multidão,  
o esforço desperdiçado e inútil,  
as idas e vindas como uma dor febril,  
a insônia sempre ignorada,  
que anuncia o trabalho da próxima manhã,  
o repouso final da morte,  
longe de uma residência que não admite enfermos nem tumbas.
Alguém que observou estas coisas,  
depois de passado o assombro inicial,
rapidamente afastou os olhos...
onde se via indescritível espanto. " 

Ou do que a páginas tantas, se ouvia do rádio de Don Fernando:
“Diga-me, você nunca ficou curioso?
Para aquilo que se esconde por trás do limite do conhecimento?
Você nunca desejou ver além das nuvens e das estrelas?
Ou saber o que faz as árvores crescerem e as sombras se iluminarem?
Se você falar isso vão te chamar de insano”.

É este mistério experimentado po Ana, na cena final, quando ela abre a janela decorada com favos de mel, desenhados na penumbra da noite e murmura:
"Se você é sua amiga,
você pode falar com ele quando quiser.
Apenas feche os olhos... e o chame.
Sou Ana." "Sou Ana."
O monstro não aparece. A janela fecha-se e Ana vira-lhe as costas e encara-nos. 
O filme acaba assim.Sublime...






 
 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

☑ FUGA SEM FIM, de Sidney Lumet

Sidney Lumet: O cinema em fuga permanente
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FICHA
Título em português: Fuga sem fim
Título original em inglês: Running on empty
Ano: 1988
Origem: EUA
Linguagem: Inglês
Género: Drama
Cinematografia: Gerry Fisher
Argumento: Naomi Foner
Realização: Sidney Lumet
Intérpretes: Christine Lahti, River Phoenix, Judd Hirsch, Jonas Abry e Martha Plimpton
Conexões: "Regra de silêncio" (2012), de Robert Redford

SINOPSE
A família Pope vive há quase duas décadas, sob identidade falsa, fugindo de cidade em cidade, porque no fim dos anos 60, no auge da contestação à guerra do Vietname, os pais, activistas políticos  radicais, colaboraram num atentado, contra um laboratório de Napalm, do qual resultou  a cegueira de um funcionário. Ao chegar ao fim do liceu, o filho mais velho, um talentoso músico, divide-se entre a lealdade à família e o desejo de levar a sua própria vida.

TRAILER



CRÍTICA
Sidney Lumet (1924-2011) foi um prolífico realizador americano, com mais de 50 filmes, uma carreira que começou com "12 homens em fúria" (1957) e terminou com "Antes que o diabo saiba que morreste" (2011).
Com uma carreira que começou no teatro, Lumet distinguia-se pela exímia direção de atores e um carisma aglutinador de grandes talentos, desde Al Pacino a Philip Seymour Hoffman.
O seu cinema emergia vitorioso dos paradoxos e fragilidades da justiça que expunha como ninguém, era um cinema permanentemente em fuga, como pode ser comprovado de forma exemplar neste "Fuga sem fim", de 1988. O título original "Running on empty" ( literalmente, guiar um carro com o combustível quase a acabar) , retrata melhor os conceitos de imponderabilidade, fragilidade e limite, do que a linear tradução portuguesa, "Fuga sem fim".


 Com uma razoável distância crítica, Lumet, serve-se de um argumento que estabelece pontes com os activismos políticos gerados pela guerra do Vietname e das consequências que tais actos acarretaram para os seus membros.Pode-se aqui traçar um paralelismo entre este filme de 1988 e a recente abordagem de Robert Redford, "Regra de silêncio" (2012). No filme de Lumet, há a reinvindicação genuína do direito de se viver a própria vida, independentemente de um passado, que pese embora os efeitos colaterais, nunca é rejeitado e não se fixando ou cristalizando numa procura catártica de culpados ou inocentes, como no filme de Redford.
Filme de finíssimas texturas emocionais, não se deixa enredar em pieguices ou simplificações. Os Popes, embora exibindo trabalho e simpatia,  fazem tudo o necessário, nessa reinvindicação primordial do direito a uma vida normal, desde mentir ou falsificar fichas escolares até ao abandono do cão na rua. Não, este filme não é um filme de "Tarde de cinema", na TV, onde se retrata uma família injustiçada, em fuga permanente. É um filme que faz o  enunciado da equação e deixa a sua eventual  resolução para os espectadores.
A música subjaz omnipresente e constitui elemento de contradição na narrativa, não só pelas referências que vão sendo feitas no enredo (curiosa a contraposição Madonna vs Beethoven) e na banda sonora original, que inclui James Taylor, com o seu telúrico "Fire and Rain", mas sobretudo pelo carácter  salvífico que premoniza (Danny Pope, e o seu enorme talento) ou de abdicação que revela ( Annie Pope, abandonara uma brilhante carreira musical, em favor da luta política).
E nós, guiados pela mestria deste cinema que  se recusa a  ficar parado e cristalizado na contemplação do real,  somos ainda presenteados pelas brilhantes interpretações, sobretudo  do jovem River Phoenix e por uma cinematografia adulta, de subtis contrastes de luzes e de sombras.