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sábado, 6 de abril de 2013

THOMAS VINTERBERG: UM CINEMA QUE NÃO PERDE O NORTE




Thomas Vinterberg, nasceu em Copenhaga, em 19 de Maio de 1969.
Cresceu numa comunidade hippie, onde era habitual o nudismo.
O cinema foi uma escolha natural na sua vida, num país e numa região, com uma grande tradição cinematográfica, exemplificada nas grandes figuras do cinema escandinavo, como os  suecos Victor Sjostrom e Ingmar Bergman e o seu compatriota Carl Theodor Dreyer , as suas referências mais imediatas. Numa entrevista recente, Vinterberg confessa que revê sempre  Fanny e Alexandre de  Bergman, sempre que prepara um novo projecto.
Formou-se em cinema, pelo  National Film School of Denmark, tendo o  seu filme de graduação, Last Round (1993), merecido um aplauso unânime dos meios académicos e da crítica, facto que lhe serviu de decisiva rampa de lançamento no grande auditório global do cinema.
Em 1995, foi um dos "irmãos" mais entusiastas do Manifesto Dogma 95, que formou com o "patriarca" Lars Van Trier. Este conjunto de regras, visava valorizar a pureza do filme, expurgando-o dos artifícios técnicos estranhos à cena, como  a luz artificial e o som extrínseco incluia ainda outras bizarrias como a limitação do campo de ação e de certos usos das camaras, a proibição de filtros e a interdição da ação desnecessária ao enredo, como visualização de armas ou assassínios. E claro, numa demontração de suprema humildade, a roçar a  vaidade mais ostentatória, a proibição de figurar o nome do realizador nos créditos do filme !...
O seu  filme, A festa (1998), o primeiro segundo o novo cânone Dogma, foi um estrondoso sucesso, com montes de prémios, incluindo o prémio do júri do Festival de Cannes, na categoria de realizador. Sucesso da crítica mas também das audiências, atestado pelo seu 8.1 no IMDB.

 Realmente, uma lufada de ar fresco de puro cinema ! Um excelente argumento no qual colaborou activamente o próprio TV. Uma prestigiada família, reunida para celebrar os 60 anos do seu patriarca, vê-se confrontada, pouco a pouco, com o seu desmembramento apoteótico, ao serem reveladas as mentiras mais  perturbantes do seu passado e presente. TV, começa aqui a desenvolver um dos seus temas preferidos: a representação da vulnerabilidade individual face aos abusos do poder, neste caso de ordem afectiva e sexual. Sem dúvida o melhor filme Dogma. Mas TV, confessa hoje, que fez alguma batota, usando alguns artifícios "proibidos", tapando por exemplo a luz de uma janela. De qualquer forma o melhor do Dogma, está aqui, deixando a excelente narrativa valer-se por si própria.
Justo é também fazer uma referência ao grande exercício de representação, sobretudo de  Ulrich Thomsen.
(*****)

Perante os elogios generalizados, TV sentiu-se de certa forma, como um jogador de futebol, que tivesse marcado um golo genial, como ele descreveu recentemente numa entrevista ao Público (Ipsilon, 8 de Março de 2013). A fasquia estava realmente alta e TV, pronto a descer à terra e enfrentar a frieza e a decepção, com que foram recebidos os seus filmes seguintes. A um cineasta, tal como, de resto,  a um escritor,  que queira construir uma "obra" coerente, com várias temáticas e perspectivas distintas, mas unidas por fios condutores comuns, raramente lhe são perdoadas abordagens menos comprometidas e quiça mais superficiais de uma realidade em permanente mutação.
Após algumas experiências pouco reconhecidas na area da televisão, TV regressa ao grande ecran, com uma incursão americana, através do drama surrealista, passado num futuro caótico It´s all about Love ( O amor é tudo) (2003).
 
O argumento não é tão mau como o pintam, embora manifestamente estranho e pouco plausível. Mas isto não é cinema, onde é suposto, tudo ser possível ? 
Num futuro próximo, o mundo arrefece progressivamente. Não só o mundo exterior, mas também a humanidade enfrenta uma crescente frieza dos afectos. As pessoas começam a morrer súbitamente por falhas cardiacas inexplicáveis, mas na realidade não é o coração o símbolo dos afectos ? A solidão e a morte tornam-se sinónimos e ambas se ignoram. A identidade individual é usurpável e manipulável.
Um filme com alguns problemas na representação. Joaquin Phoenix, demonstra a falta de subtileza e de expressividade  que  é a sua  imagem de marca. Não é de estranhar, para quem não gosta da profissão que tem e dá galas desse facto.
TV, liberta-se aqui do espartilho DOGMA 95 e faz um filme mais ao gosto americano, com bela fotografia de New York.
Que não chega, no entanto para tirar o filme das baixas temperaturas, para onde ele insiste em apontar. 
(**)

A América é novamente revisitada no Dear Wendy (2005), mas com a ajuda do Americanófobo assumido, Lars Von Trier, que escreveu o argumento.



 E claro que LVT, tinha que se meter com os americanos e a sua história de relação íntima com as armas, através de um Western moderno, que partindo de premissas infantis, de um pacifismo com armas (um auto-retrato da América), desemboca num banho de sangue (um retrato da américa e da sua história, segundo LVT).
Descontando a paranóia inerente ao argumento, o filme suscita questões importantes e bem actuais, sobre o mundo em que vivemos e a sociedade americana, em particular.
E TV, lá fez o seu Western alternativo, com eficiência e estilo... 
(**) 

Submarino, de 2010, de novo na Escandinávia, é uma incursão no drama das dependências de drogas e na ruptura familiar que lhe está frequentemente associada.

Uma narrativa realista, uma direção sóbria e competente, interpretações razoáveis, mas um filme feito mais de fora para dentro, deixando a visão  "interior", do mundo   dos personagens, para segundo plano, numa abordagem algo panfletária e superficial.
(**) 

The hunt - A caça (2012), traz-nos de novo TV ao seu melhor cinema. 
 
 TV, conta que após A festa, alguém lhe sugeriu que abordasse o tema dos abusos sexuais nas crianças, sob um outro prisma. E se as crianças mentirem ? Será lícito pensar que as crianças nunca mentem ? Quais as implicações que tais mentiras têm na vida dos acusados, das suas famílias e comunidades ?
O filme é interessante porque aborda todas estas questões de forma inteligente. Um educador que é falsamente acusado por uma mentira de uma criança, torna-se definitiva e irreversivelmente, um proscrito de uma comunidade, que antes o venerava .
Como Mads Mikkelsen, o ator que faz de Lucas, o professor do filme, refere na entrevista ao Ipsilon de 8-3-2013, aquilo que os outros difundem como verdade sobre uma pessoa, torna-se na própria identidade dessa pessoa.
Neste filme, sente-se que não há hipótese de reversão dessa lógica terrível, como é de resto, bem explícito no fim, só aparentemente de reconciliação. Na realidade do filme e da vida, a caça, continua...
Ao argumento sólido, juntam-se  interpretações convincentes, sobretudo de Mads Mikkelsen que ganhou o prémio de melhor ator em Cannes, mas também é de aplaudir a criança, que dir-se-ia uma veterana(!) na arte da representação (?).
E TV, embala tudo isto, bem ao seu estilo, num exercício irrepreensível de bom cinema. 
(****) 
 


CINEMATOGRAFIA 
     
     Sneblind (1990)
     Last  round (curta) (1993) 
     Slaget Pa Tasken (TV) (1993)
     The Boy Who Walked Backwards (1995)
     The biggest heroes (1996)
 ☑ The celebration (A festa) (1998)
     The third lie (1998)
     D-dag - Niels-Henning (TV) (2000)
     D- dag (TV) (2000)
     The best of blur - No distance left to run (video)(2000)
     D-dag - Den faerdige film (TV) (2001)
 It's all about Love (2003)
 Dear Wendy (2005)
     When a man comes home (2007)
     Metallica: The day that never comes (curta) (2008)
 Submarino (2010)
 The hunt (2012)





sexta-feira, 29 de março de 2013

23 de Julho e 31 de Agosto: a chama de um só dia

"Fogo fátuo" de Louis Malle e "Oslo, 31 de Agosto", de Joachim Trier.
Paris, 23 de Julho.
Oslo, 31 de Agosto.
Dois lugares e duas datas diferentes, mas o mesmo dia e um único destino. 
Dois olhares cruzados, sobre a chama efémera de uma vida.

☑ FOGO FÁTUO, de Louis Malle

MALLE DE VIVRE




FICHA
Título em português: Fogo fátuo
Título original em francês: Le feu follet
Ano: 1963
Origem: França
Linguagem: Francês
Duração: 108 minutos
Género: Drama
"Mood": Tristeza, angústia, depressão, dependências, suicídio.
Música: Erik Satie 
Cinematografia: Ghislain Cloquet
Argumento: Louis Malle, baseado no romance de Pierre Drieu La Rochelle, "Le feu follet", de 1931. E também inspirado pelo livro de Scott Fitzgerald "Babylon revisited", de 1930-1931.
Realização: Louis Malle
Intérpretes: Maurice Ronet, Jeanne Moreau, Alexandra Stewart, René Dupuis, Léna Skerla. 

SINOPSE
Após um tratamento de alcoolismo numa clínica privada, Alain Leroy, tenta definir um sentido para a sua vida. Retoma o contacto com o círculo de velhos amigos, que o acolhem e tentam ajudar. Mas isso é suficiente, para Alain ?
  
TRECHO
 


CRÍTICA 
Este filme de 1963,  adota o mesmo título do romance do escritor francês Pierre  Drieu La Rochelle,  de 1931, que lhe serve de argumento. Na realidade, " Fogo fátuo" remete-nos para o âmago da existência humana e para as grandes questões que lhe estão associadas. 

No argumento não encontramos respostas, só perguntas.
Não há explicações científicas ou outras, para os problemas existenciais do protagonista. Apenas nos é  permitido, a nós espectadores, entrar ao de leve na mente de Alain, pelo filtro das lentes da câmara de Malle, captar-lhe a angústia nas expressões e nas palavras debitadas nos seus monólogos. E dessa forma, deparamos também com o abismo existencial que o separa das vidas "normalizadas" e aparentemente felizes dos seus velhos  amigos.
Embora o "texto" deste filme diga muito deste "mal de vivre", o essencial é-nos contado pela inteligência e subtileza de Malle, emergindo a essência do filme, no intervalo decisivo entre as palavras, numa inesquecivel visita guiada à alma humana, só possível pela primorosa cinematografia de Ghislain Cloquet e pela inesquecivel performance de  Maurice Ronet.

Um filme sobre estados de alma limite, que não é fácil recomendar, em tempos dominados por um pragmatismo emocional que só valoriza, "a boa onda", de resto exemplarmente retratada  na elite burguesa que rodeia Alain. Ao fim e ao cabo, esse é o nosso contraponto "normal", o caminho que nós escolhemos e que outros recusam.
Fazer da breve chama, um longo fogo... 

Nota: ****

☑ OSLO, 31 DE AGOSTO, de Joachim Trier

É POSSIVEL SER FELIZ AQUI ?



FICHA
Título em português: Oslo, 31 de Agosto
Título em Inglês: Oslo, 31. august
Ano: 2012
Origem: Noruega
Linguagem: Norueguês e Inglês
Duração: 95 minutos
Género: Drama
"Mood": Tristeza, angústia, depressão, dependências, suicídio.
Argumento: Joachim Trier, baseado no livro de Pierre Drieu La Rochelle, "Le feu follet", de 1931.
Cinematografia: Jakob Lhre.
Realização: Joachim Trier
Intérpretes; Anders Danielsen Lie, Hans Olav Brenner, Ingrid Olava.

SINOPSE
Um dia na vida de Anders, um jovem em tratamento de recuperação, da dependência de drogas. A pretexto de uma entrevista de emprego, ele deixa a clínica e viaja para Oslo, onde reencontra  velhos  amigos e se questiona sobre o sentido da sua vida.

TRAILER
 


CRÍTICA
O mesmo tema intemporal da procura falhada do sentido da vida, sob um prisma mais contemporâneo, do que o belo "Le feu follet", de Louis Malle.
Nesta segunda longa-metragem, do norueguês (nascido na Dinamarca) Joachin Trier, que anteriormente já tinha dado um ar da sua graça, com o refrescante "Reprise", de 2006, a cidade de Oslo, substitui a  Paris de Louis Malle e o uso  das drogas pesadas, junta-se ao álcool, num coctail, mais actual. 
 
No início, a cidade de Oslo, com as suas ruas bonitas mas semi-vazias, é-nos mostrada como a personagem inaugural do filme, nas vozes off dos habitantes, que a descrevem. Na Paris, do filme de Malle,  a solidão do protagonista, encontra o contraste marcante na cidade fervilhante de gente. Aqui, Oslo é uma cidade algo espectral e mais cúmplice da solidão de Anders.
No essencial, o argumento adaptado do livro de "La Rochelle" deixa emergir  o mesmo "mood" de solidão e angústia, as mesmas perguntas sem resposta e o idêntico confronto com a "normalidade" burguesa reinante. Interessantes são os diálogos de Anders com o amigo  Thomas, que o quer ajudar e que revela uma vida de aparente sucesso material e emocional, mas no fundo medíocre e despida de sentido, fazendo análises literárias "de livros que ninguém lê", nas palavras de Anders e jogando PlayStation com a mulher, para matar o tédio...
Significativa do contraste com a normalidade instituida, é a cena da esplanada em que nos deixamos guiar pelos sentidos apuradíssimos de Anders, nos meandros existenciais, feitos de sonhos ocos  dos ocupantes das mesas ao redor, sobretudo da rapariga que dizia querer  "plantar uma árvore, nadar com golfinhos, e escrever um livro".
Ao contrário do filme de Malle, Trier insiste mais na busca de uma certa causalidade, para a deriva existencial de Anders, expressa na  sua fixação nas relações falhadas, em especial nos constantes apelos à sua ex namorada, fazendo-nos quase acreditar que dali viria a sua cura.
A cinematografia deste filme, cumpre plenamente a missão de mostrar o património emocional de Anders, no confronto com os outros e com o cenário fantasmagórico envolvente. Mas não é tão rica de pormenores como a do filme a preto e branco de Louis Malle.
Brilhante interpretação de Anders Danielsen Lie, ele que nas palavras do realizador deste filme, "é um homem da renascença", sendo "apenas" actor, músico e escritor em part-time, já que é médico de profissão...
Oslo, 31 de Agosto.
Oslo, como cenário de  um "road movie" existencial. Um filme a não perder.
 
Nota:****
 

domingo, 24 de março de 2013

☑ A LISTA DE SCHINDLER, de Steven Spielberg

 
Na lista dos inesquecíveis
 


FICHA
Título: A Lista de Schindler ( original em inglês: "Schindler´s list")
Ano: 1993
Origem: EUA
Linguagem: Inglês
Duração: 195 minutos
Género: Drama, Biografia, História, Guerra
Argumento: Steven Zaillian, baseado no livro de Thomas Keneally "Schindler's Ark", de 1982(baseado por sua vez no relato de um judeu sobrevivente: Poldek Pfefferberg).
Realização: Steven Spielberg
Intérpretes: Liam Neeson, Ben Kingsley, Ralph Fiennes
 
SINOPSE
Oskar Schindler, um industrial alemão, não era própriamente uma boa pessoa, quando se moveu para Cracóvia, durante a II guerra, a fim de ganhar dinheiro com a mão de obra barata dos Judeus e com o contrabando. No entanto, o confronto com a barbaridade do Nazismo a que pertencia, despertou nele um surpreendente senso de humanidade, que o fez gastar todas as suas energias e dinheiro para salvar um grande número de Judeus.
 
TRAILER 
  


CRÍTICA
Filmes que abordam temáticas fortemente emotivas, como o holocausto nazi, ou o terrorismo, que embora sejam  obras de ficção, invariávelmente têm por base reconhecidos factos históricos  e que por outro lado, pela enorme violência física e emocional inerente aos  assuntos que abordam, concitam o consenso do mundo civilizado, são de análise objectiva muito problemática.
Este filme é um bom exemplo, desta dificuldade, e  decerto o seu "ranking" popular, não deixa de reflectir essa dualidade, não se sabendo ao certo onde começa o mérito cinematográfico e acaba o unanimismo sentimental que o impregna.
Certamente que não haverá uma pessoa normal, que não fique tocada, com a avalanche de injustiça, maldade e desprezo absoluto pela vida humana, que é a tónica dominante deste filme e por outro lado que não se identifique e anime com a justiça, a bondade e a defesa da vida, que é tomada em mãos por um só homem, no meio da barbárie dominante. Poder-se-á dizer que o filme é sobre essa luta, quase sempre desigual e solitária, onde o lema é "salvar uma vida é salvar o mundo inteiro".
De certa forma, o filme arriscava-se a ficar  refém desta  premissa maniqueista e redutora da luta entre o bem e o mal, não fora o desenho mais cuidado e realista das personagens, sobretudo  da de Schindler (Liam Neeson), que nos é apresentado no início como um homem vaidoso, ganancioso e mulherengo, traindo repetidamente a mulher e que não hesitou em servir-se do trabalho "escravo" dos judeus. Mesmo, a sua posterior "conversão" interior, não o transformou num anjo, uma vez que foi pactuando pragmática e friamente com o regime, pois só assim poderia levar avante o seu desígnio.
Amon Goeth (Ralph Fiennes), por outro lado, não é o estereótipo do oficial Nazi, fortemente ideologizado e  "que cumpre ordens". Na verdade, ele apresenta-se como o poder absoluto, que não depende de ordens, mas apenas da sua vontade e humores. A este respeito, curiosa é a sua conversa com Schindler sobre poder e perdão e como tentou sem êxito, usar o perdão como instrumento de poder.
Em suma, estas duas personagens, encarnam as duas faces do poder, uma a nivel material, a outra de âmbito espiritual.
Mérito de Spielberg, em intercalar   esta história de poder, entre as muitas histórias dramáticas de impotência deste filme.
 
A fotografia a preto e branco, procura provocar o necessário afastamento e enquadramento histórico. A introdução furtiva de cor nalgumas personagens e objectos, não são meras pinceladas artísticas, e pretendem  acentuar a unidade narrativa, por exemplo no caso da menina de vestido vermelho, que é vista por Schlinder    caminhando ao acaso entre a matança e mais tarde, é fácilmente identificada morta num monte de cadáveres, como se tivéssemos seguido uma personagem numa mini-narrativa à parte.
Por fim, um  sóbrio equilíbrio da luz e da sombra, confere autenticidade  ao  curso dramático do filme.
Grandes desempenhos de Ralph Fiennes e de Liam Neeson. E uma palavra de apreço por Spielberg, que filmando com o coração, teve neste filme um justo reconhecimento. 
Em suma, um filme que consegue sobreviver a si mesmo, na medida em que proporciona muito mais do que a catarse emocional que desencadeia.
E por tudo isso, é um filme nada fácil de esquecer.

Nota:****

quarta-feira, 20 de março de 2013

AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, de Miguel Gomes

 
HISTÓRIAS DA ALDEIA CONTADAS POR UM TIPO DE LISBOA
 
 
FICHA
Título: Aquele querido mês de Agosto
Autor: Miguel Gomes
Ano: 2007
Origem: Portugal
Linguagem: Português
Duração: 147 minutos
Género: Documentário,Música, Romance
Argumento: Telmo Churro, Miguel Gomes e Mariana Ricardo
Realização: Miguel Gomes
Intérpretes: Sónia Bandeira, Fábio Oliveira, Miguel Gomes
 
SINOPSE
O interior de Portugal, desertificado por natureza, enche-se de gente em Agosto. Emigrantes regressam, e com eles as romarias, o fogo de artifício e o karaoke. Eles bebem cerveja, saltam da ponte, caçam,  jogam e fazem amor. Entretanto, à procura de um filme, um director e equipa  resistem à tentação de entrar na festa. A narrativa, trata da relação entre  um pai e uma filha  e destes com os  primos, todos músicos de uma banda, numa mistura cinéfila de  documentário  e filme romântico.
 
TRAILER
 

 
 
CRÍTICA
Ontem vi "Aquele querido mês de agosto", de Miguel Gomes.
Eu não o teria deixado filmar mais.
Não poderia imaginar que aquele realizador estivesse hoje nas bocas do mundo cinéfilo.
Eu continuo sem perceber como, mas é um problema meu.
Já aconteceu com outros e nessa altura temos uma boa desculpa que é: "eu não sou crítico".
O filme é uma combinação triste de lugares comuns e de histórias da aldeia, contadas por um tipo de Lisboa.
Também, coloca as próprias  filmagens do filme, como protagonista, sem qualquer originalidade.
Bom, devo dizer, que pelo menos, entre este e o "Tabu", ele aprendeu bastante.

Nota:*

A TRAVESSIA, de Cormac McCarthy

A FORÇA  DA ESCRITA


FICHA
Título: A travessia (original em Inglês "The crossing")
Autor: Cormac McCarthy
Origem: EUA
Ano: 1994 (original) e 2012 (versão portuguesa)
Género: Ficção e Romance
Edição portuguesa: Relógio D'água
Nº de páginas: 408

SINOPSE
"A Travessia" tem por cenário os ranchos do Sul dos EUA durante os anos que antecederam a II Guerra Mundial e narra as aventuras de Billy Parham, de dezasseis anos, e do seu irmão mais novo, Boyd. Fascinado por uma ardilosa loba que tem atacado a propriedade da família, Billy captura o animal. Mas, ao invés de o matar, parte em busca da sua origem — as montanhas do México — com o intuito de o devolver ao seu ambiente natural. No regresso, Billy depara-se com um mundo irreversivelmente mudado. A perda da sua inocência tem um preço e, mais uma vez, o horizonte brilha com a sua desoladora beleza e cruel promessa.
«McCarthy escreve prosa tão límpida como uma bala que atravessa o ar, constrói contos tão poderosos como irresistíveis. São histórias sobre pessoas tão reais como as terras que habitam, tão perturbantes como os rituais de que fazem parte.»
Daily Telegraph

«Os admiradores de "Belos Cavalos" quase não precisam de ser encorajados... McCarthy fala-nos no tom entusiasmante e apocalíptico de um profeta do Antigo Testamento.»
Sunday Telegraph

IMPRESSÃO
Não gostava que estas palavras fossem consideradas de crítica literária ou mesmo de qualquer crítica.
Uma oração, talvez fosse mais apropriado, mas por pudor não lhe chamarei assim.
Este livro, faz parte do ciclo da fronteira (com o méxico) e há um filme sobre um deles: "No Country for old men", de 2005, filmado pelos irmãos Coen, em 2007 ("Este país não é para velhos", em português).
É uma escrita minuciosa mas longe do aborrecimento.
Uma força quase palpável brota da escrita deste fascinante contador de histórias.
Os personagens e a natureza disputam o protagonismo. Nada é fácil e não há facilidades.
A relação é dura, leal e quase religiosa. A fome e as dores quase as sentimos. Os personagens não têm suporte, âncoras ou um porto seguro. Vagueiam entre a bondade e a maldade, como entre a chuva.
Não percebo, como este autor, não é mais divulgado.
Talvez a sua teimosia em viver longe dos holofotes dos media ajude a explicar.
Eu acho, que mais cedo ou mais tarde, todos irão gostar de o ler.



Do Autor:
                                          (Cormac McCarthy)

The Orchard Keeper (1965)
Outer Dark (1968)
Child of God (1974)
Suttree (1979) Blood Meridian, or the Evening Redness in the West (1985)
All the Pretty Horses (1992) - Filme de Billy Bob Thornton   "Espírito Selvagem" (2000)
The Crossing (1994) - A TRAVESSIA 
Cities of the Plain (1998)
No Country for Old Men (2005) - ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS (filme dos irmãos Coen, de 2007)
The road (2006) - A ESTRADA (filme de John Hillcoat, de 2009)
Sunset Limited (peça teatral)
The Stonemason (peça teatral) (1995)
The Gardener's Son (roteiro) (1976)

The "border trilogy" compreende os livros: "All the pretty horses" (1992), "The Crossing" (1994) e  "Cities of the plain" (1998)

segunda-feira, 18 de março de 2013

☑ HITCHCOCK, de Sacha Gervasi


Um olhar distraído, sobre um clássico

FICHA
Título: Hitchcock
Ano: 2012
Origem: EUA
Linguagem: Inglês
Duração: 98 minutos
Género: Biografia, Drama.
Argumento: John J. McLaughlin, baseado no livro de Stephen Rebello "Alfred Hitchcock and the making of Psycho", de 1990.
Realização: Sacha Gervasi
Intérpretes: Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, James D'Arcy, Jessica Biel, Danny Huston.

SINOPSE
Corre o ano de 1959 e Alfred Hitchcok e sua mulher, a argumentista, Alma Reville, enfrentam resistências dos estúdios de Hollywood ao seu trabalho criativo e alguma pressão para a reforma do realizador. Hitch, decide recuperar o fulgor de outrora e adaptar o livro de terror "Psycho", mas para isso tem de ser ele a financiar o filme, hipotecando a casa. É um tempo de risco e muita pressão que afecta a relação do realizador com Alma.

TRAILER 

 


CRÍTICA
Será que um making of de um filme, é como uma anedota explicada e por isso sem graça, como sugeriu, a propósito deste filme, um crítico ?
Não necessáriamente...depende do peso do filme-objecto e da audácia e substância do making of.
Neste caso concreto não se trata de um verdadeiro making of, habitualmente uma extensão ou extra do filme original, feito por alguém da equipa, mas sim de um filme simulacro de um making of, tendo por base um livro de alguém que supostamente teve acesso a informações em relação ao modo como foi rodado o filme Psico. Logo à partida, há portanto, uma certa desonestidade intelectual, de quem trata este filme meramente como um making of e de forma quase pavloviana, usa o preconceito ridiculo da anedota explicada, como locomotiva de razões para depreciar o filme e lhe negar inclusivé o direito a um certo enredo marginal à construção do filme Psico. Se isto não é  uma crítica totalitária, digna de um III Reich, anda lá perto...
A questão aqui é saber se é interessante ver a filmagem de Psico por outros angulos e ver até que ponto é fascinante ver actores a fazer de actores, ou seja uma representação da representação. E depois, não é possível "explicar" uma cena e este filme não teve tamanha pretensão. A cena da preparação da morte no duche é o exemplo mais evidente, de que este é também um outro  filme, para além do filme a que se reporta e merece ser visto como tal. Mas paradoxalmente, para este filme ser considerado autónomo, ter a carta de alforria,  é preciso ter presente o Psico original e parece que esse é o problema de muitos analistas...Esta cena é de facto, como no Psico original, uma das chaves deste filme, na medida em que o medo ensaiado da Scarlett, que faz de Janett que faz de Marion, só é o autêntico medo, quando se quebra esta cadeia de representação, quando o medo diferido e virtual passa a actual e real, ou seja, passa vivo e inteiro para a tela.
Já quanto à pertinência do enredo marginal ao making of de Psico ( já vimos que não é) é de admitir então para muitos pensantes, que o Sr. Hitchcock, fez o Psico sem levar os seus fantasmas, fobias, paranoias e obsessões para o set e que isso não influenciou nada a construção do filme. Seria muito melhor a comédia e o toque de assédio sórdido às loiras actrizes, para apimentar a coisa, alvitram uns, ou que é descabido e de mau gosto o convívio mental com o proto Norman, acrescentam outros,  ou ainda que  é dada demasiada importância à mulher Alma, argumentam uns e outros.
Apesar da defesa que faço do filme, de uma certa irracionalidade delirante e preconceituosa, não deixo de salientar que a união entre as pontas soltas é o maior calcanhar de Aquiles deste filme. Seria interessante fazer a representação  do medo, que é o tema forte de "Psico", como uma corrente que circulasse entre todas as pontas da narrativa e isso só é parcialmente conseguido, resultando um olhar algo distraído sobre as grandes obsessões do "grande mestre do Suspense".
 
Nota: ***

domingo, 17 de março de 2013

☑ PSICO, de Alfred Hitchcock

Um verdadeiro clássico redescoberto

FICHA
Título: Psico (original: "Psycho")
Ano: 1960
Origem: EUA
Duração: 109 minutos
Género: Suspense, Terror.
Argumento: Joseph Stefano, baseado no livro de Robert Bloch, "Psycho", de 1959, por sua vez baseado na história verídica de Ed Gein, o assassino do Wisconsin.
Realização: Alfred Hitchcock
Intérpretes: Anthony Perkins, Janet Leight, Vera Miles.
SINOPSE
Marion Crane (Janet Leight), é uma jovem escriturária de Phoenix, que um dia rouba 40.000 USD de um cliente do escritório e foge ao encontro do seu amante. No caminho, tem que pernoitar num isolado motel, administrado por um jovem, subjugado por sua mãe dominadora...

TRAILER

CRÍTICA
Numa célebre entrevista a François Truffaut, Hitchcock disse que o que fez a diferença em Psicho,  não foi as audiências serem  servidas por grandes performances ou por um roteiro particularmente aterrorizante, mas sim a experiência de puro cinema, que irrompeu do filme e as despertou.  
Foram os espectadores que foram "dirigidos" por Hitchcock, "que jogou com eles", como ele admitiu, nessa entrevista.
O processo de construção das personagens é um aspecto crucial em Psycho. A personagem Marion Crane, por exemplo, que começa o filme na posição de protagonista, é desenhada como a mulher que embora cometa um crime, fá-lo em circunstâncias que nós espectadores tendemos  a compreender e de certa forma até, a considerá-la inocente, uma característica comum a muitas personagens dos filmes de Hitchcock.
Com a chegada de Marion ao motel de Bates, o filme entra noutra fase, que demonstra todo o génio de Hitchcock,  a da "relação" entre Marion e Norman, que rápidamente desemboca num dos climax da narrativa, a celebérrima cena da morte de Marion no duche e a subsequente ocultação das provas do crime, desaparecendo a protagonista com apenas um terço do filme e assumindo-se então Norman como o protagonista !

Nesta fase, até ao segundo clímax, quase no final,  a personagem de Norman e a complexidade patológica da relação com a mãe é nos revelada, com todo o seu cortejo de horror. 
Hitchcock trata-nos como verdadeiros espreitas, que pelo buraco da parede do hall do motel e pela janela da sinistra casa dos Bates,  assistimos  a tudo petrificados.
Mas os nossos olhos são filtrados pela mestria de Hitchcock em decompor  e  reconstruir o real, como na célebre cena da morte no chuveiro, onde a tensão erótica, de um corpo de mulher nua mas oculto no resguardo do chuveiro,  resvala para a experiência definitiva do  pânico mais visceral e nessa cena não se vê nudez nem golpes no corpo, nem sangue vivo a jorrar como nos filmes de terror contemporâneos, apenas a mistura de água e sangue, escoando  a preto e branco, no vazio da banheira. E claro, os olhos  esbugalhados  de Marion, fitando a morte.
Este é um filme prodigioso e intemporal sobre os nossos medos mais profundos. E uma experiência de puro cinema, como bem lembra o seu autor.
Nota: *****